Dom
Mauro Morelli se tornou conhecido pela luta no combate à
fome. Ele tem se destacado por uma ação firme em favor
de uma Igreja aberta ao mundo e na luta pela dignidade humana. Hoje
é uma das principais expressões nacionais no combate
à fome e à miséria.
Depois de integrar, junto com Herbert de Souza, o Betinho, a Campanha
da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, ele tem
continuado a buscar, junto de governos, ONGs e entidades civis,
soluções para os graves problemas nacionais, além
de assessorar iniciativas de combate à fome em todo o Brasil.
Atualmente está percorrendo várias cidades brasileiras
com o objetivo de promover ações integradas ao Programa
Fome Zero, do qual, apesar de ser um crítico pontual, também
é um dos seus principais expoentes. Dom Mauro é bispo
diocesano de Duque de Caxias (desde 1981), na Baixada Fluminense
(RJ), e coordena um programa que está ajudando a diminuir
os casos de desnutrição infantil no município.
Também é presidente do Conselho Estadual de Segurança
Alimentar Nutricional Sustentável de Minas Gerais (CONSEA/MG),
membro da Coordenação do Fórum Brasileiro de
Segurança Alimentar Nutricional Sustentável, conselheiro
do Conselho Nacional de Segurança Alimentar Nutricional Sustentável
(CONSEA) e integra o UN-SCN Distinguished Nutrition Advocate- ONU,
no qual é promotor e defensor da nutrição e
alimentação para o mundo, com mandato conferido pela
Organização das Nações Unidas (ONU).
O bispo foi um dos colaboradores do PT na elaboração
do projeto de erradicação da fome apresentado na campanha
eleitoral e também protagonizou momentos de crise envolvendo
o atual governo, mais especificamente com o Ministério Extraordinário
de Segurança Alimentar e Combate à Fome (MESA). Dom
Mauro evita falar das razões que o levaram ao seu quase afastamento
do CONSEA, no início do ano, quando houve o episódio
do desentendimento com o ministro José Grasiano, por não
concordar com a maneira como o programa vinha sendo conduzido, sem
a participação e a mobilização das comunidades,
limitando-se a querer distribuir comida. O conselho foi originalmente
criado, em 1993, no governo Itamar, e era presidido por dom Mauro.
Depois foi extinto no início do governo Fernando Henrique,
que preferiu concentrar o esforço no Comunidade Solidária.
Num artigo com o título Fome e cidadania, Dom
Mauro afirmou que campanhas contra a fome não enchem
a barriga de ninguém. O doador se alimenta com a bondade
de seu gesto, sem garantir o pão de cada dia ao faminto.
Provoca-se muito mais ansiedade do que saciedade, sem promover o
direito básico de cada ser humano ao alimento e à
nutrição. Dom Mauro garante ainda que não
se deve ajudar os necessitados por um sentimento piegas e
que a solidariedade só é uma virtude quando se cultiva
a justiça. Sem paternalismo e assistencialismo, através
da participação e do trabalho, o povo quer e deve
exercer sua cidadania. Para Dom Mauro, no Piauí,
como em qualquer lugar do Brasil, o que está em jogo é
um direito humano básico. Sem a promoção da
cidadania, o povo continuará faminto, alerta em seu
texto.
Ana Esteves e César Fraga
Fome Zero e engajamento crítico
Extra Classe O programa Fome Zero tem sofrido duras críticas,
principalmente no que se refere a informações desencontradas.
O senhor acredita que esse tipo de problema, inclusive em outras
áreas de atuação do governo, se deva a questões
administrativas e de fundo organizativo?
Dom Mauro Morelli Para uma boa administração
é imprescindível que a máquina administrativa
esteja em perfeita condição, cabendo ao novo governo
corrigir rumos e definir prioridades. Cada novo governo, porém,
empreende uma reforma administrativa que acaba produzindo impasses.
EC Como assim?
Dom Mauro O funcionalismo público não é
valorizado e nem motivado para cumprir sua missão com eficiência
e dedicação. As coisas se complicam mais, ainda, pela
falta de planejamento orgânico. Em geral, cada ministro trabalha
em sintonia com seus próprios objetivos políticos.
EC O senhor acha que isso diz respeito às escolhas
do atual governo, principalmente no que se refere a critérios
e métodos?
Dom Mauro Na composição do atual governo
teria predominado o critério da governabilidade e, obviamente,
da recompensa à lealdade e ao companheirismo. Multiplicaram-se
os ministérios, especialmente na área social, sem
definição clara de objetivos, metodologia e recursos
estruturais e financeiros.
Extra Classe Como esse fenômeno se reflete no programa
Fome Zero? Há problemas de coordenação? Até
que ponto o Fome Zero, enquanto ação, tem condições
de dar respostas efetivas ao problema da miséria no Brasil
sem se transformar em apenas mais uma medida assistencialista?
Dom Mauro No caso específico da prioridade do
Programa Fome Zero, carro-chefe da área social, somam-se
vários fatores, a começar pela composição
de sua própria equipe coordenadora. Produzido pelo Instituto
da Cidadania, sob coordenação do atual Ministro Extraordinário
da Segurança Alimentar e do Combate à Fome, o Programa
Fome Zero na prática atual efetivamente não passa
de um conjunto de ações de combate à fome.
A fome não é tratada como questão política
de primeira grandeza, pois quem sofre os males da fome está
sendo lesado em sua dignidade e privado de direito humano básico.
Trata-se de uma questão de vida e de cidadania.
EC Apesar de fazer parte do conselho do programa, e atuante,
o senhor tem aparecido como um crítico sempre presente. Quais
as suas maiores críticas ao programa Fome Zero, neste momento?
Dom Mauro O texto final do Programa Fome Zero não
incorpora efetivamente a compreensão maturada ao longo de
uma década de promoção do direito humano básico
ao alimento e à nutrição. O próprio
título Fome Zero é marcado pela ambigüidade,
assim como o enunciado e o seu objetivo: uma Proposta de Segurança
Alimentar. A fome em si é uma manifestação
do organismo necessária à saúde. O problema
brasileiro está na falta de acesso ao alimento ou de alimentação
inadequada e insuficiente. Não como mera questão de
palavras, o Programa Fome Zero deveria ser uma Proposta de Segurança
Alimentar Nutricional Sustentável entendida como eixo do
desenvolvimento.
EC Seria correto dizer que , de acordo como seu ponto
de vista, existe uma estrutura montada de forma equivocada para
dar sustentação ao projeto?
Dom Mauro A estrutura criada para sua realização
é inadequada. Não há Ministério, apenas
um Gabinete em que estão embutidas as estruturas do Conselho
e do Programa Comunidade Solidária (Governo FHC) para oferecer
algum suporte administrativo ao Ministro Extraordinário.
EC O que seria o ideal?
Dom Mauro Aliás, o ideal seria uma secretaria
especial de articulação e planejamento, que não
fosse mais um balcão de projetos. O próprio Conselho
Nacional de Segurança Alimentar Nutricional CONSEA
chegou muito tarde, sem autonomia e condição
para cumprir sua missão de articular a Política Nacional
de Segurança Alimentar Nutricional Sustentável. O
CONSEA não participou de decisões referentes ao problema
da fome, tomadas antes e depois da instalação do Governo
Lula. O mesmo estaria acontecendo agora, quando pela imprensa são
anunciadas novas decisões.
EC Como o senhor já disse, uma das caras da fome
é a inadequação alimentar. Ou seja, as pessoas
comem mas sua alimentação permanece comprometida.
Gostaria que o senhor explicasse essa peculiaridade da questão
da fome no Brasil e como se deve atacar esse problema?
Dom Mauro A nutrição, entretanto, é
uma questão de vital importância quando se discutem
os males da fome, e não ocupa muito mais do que dez linhas
no programa Fome Zero. Somente na Baixada Fluminense, cerca de 110
mil crianças estão em risco nutricional, quando não
desnutridas. Ingrediente importante: o acesso ao alimento não
será garantido sem trabalho e renda. Educação,
habitação e agricultura familiar são pressupostos
básicos, além de novos rumos para a economia.
EC O que é e o que não é competência
do governo e como o senhor sintetizaria a questão?
Dom Mauro Em síntese, o Governo Lula, enquanto
atropela a sociedade civil e outros níveis de governo, promove
ações e iniciativas que não são de sua
competência, como mutirões e campanhas. Cabe-lhe aplicar
impostos para promover a cidadania de todos, especialmente dos excluídos.
Concordo com o senador Suplicy. Sem universalizar uma renda mínima
para cada habitante do país, vamos continuar remendando.
O que não é universalizado acaba prejudicando os mais
lesados em sua cidadania!
Como
participar
Apesar das divergências internas, o programa
está em expansão em todo o País
e busca encampar cada vez mais forças políticas
e a sociedade organizada em prol de seu objetivo. Para
tanto, os alimentos para o Fome Zero podem ser doados
nos postos de coleta, distribuídos em diversas
instituições (ver lista abaixo), em entidades
assistenciais credenciadas ou na Conab. As doações
em dinheiro podem ser feitas através de duas
contas bancárias no Banco do Brasil e na Caixa
Econômica Federal. No Rio Grande do Sul, o programa
já tem se desenvolvido em alguns municípios,
como Alvorada, Gravataí e Porto Alegre. Na capital,
o foco do programa será a segurança alimentar
de crianças de zero a seis anos e as doações
podem ser feitas através do Funcriança,
em três contas bancárias ou nos postos
de coleta. Além de participar de diversas iniciativas
para implantação do Fome Zero no Estado
e no município, o Sinpro/RS instalará,
no dia 25 de maio, um Posto de Coleta de alimentos no
Parque da Redenção, durante o show da
cantora Elza Soares, que comemora os 65 anos da entidade.
Doações nacionais
Alimentos não-perecíveis (macarrão,
arroz, feijão, farinha, fubá, enlatados,
pó de café, leite em pó)
doações inferiores a 12 mil quilos de
alimentos devem ser feitas junto aos postos de coleta
localizados nas instituições abaixo.
Agências do Banco do Brasil
Agências da Caixa Econômica Federal
Comitês Estaduais de Defesa Civil
Agências dos Correios
Supermercados
Organizações militares
Entidades assistenciais
Alimentos perecíveis (carnes, peixes, ovos, produtos
lácteos, frutas, legumes e hortaliças):
Devem ser entregues nas entidades assistenciais credenciadas.
Doações em carga fechada (mínimo
de 12 mil quilos de um mesmo alimento não perecível):
Devem ser feitas à Companhia Nacional de Abastecimento
Conab ou aos Centros de Recepção
e Distribuição de Alimentos, que estão
sendo criados nos municípios.
Doações em dinheiro
Devem ser feitas através de depósitos
nas seguintes contas vinculadas ao Fundo de Combate
e Erradicação da Pobreza:
Caixa Econômica Federal
Agência 0647-5
Operação 006
Conta 2003-3
Banco do Brasil
Agência 1607-1
Conta 1002003-9
Doações em Porto Alegre
Os alimentos podem ser doados nos Postos BR, Agências
da Caixa Econômica Federal, Banrisul e Banco do
Brasil e nas Agências Lotéricas. A prioridade
é para leite em pó, óleo vegetal,
feijão, lentilha ou ervilha, farinha de trigo,
milho, arroz, aveia e proteína de soja. As doações
em dinheiro devem ser feitas através de depósitos
nas seguintes agências:
Banrisul
Agência: 051 Conta: 040250251-0 Caixa Econômica Federal
Agência: 1851 Conta: 77-8 Banco do Brasil
Agência: 3798-2 Conta: 73.301-6 Central de atendimento
0800 707 2003, das 8h às 20h.
Confira a lista completa de endereços para doação
no site do Fome Zero www.fomezero.gov.br
Para o envio de cartas,
sugestões e comentários
para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br
- Extra Classe é uma publicação mensal do Sindicato
dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul - SINPRO/RS
- Av. João Pessoa, 919 - CEP 90.040-000 - Bairro Farroupilha
- Porto Alegre - RS - BRASIL - Fone (51) 3211.1900 - Fax (51) 3211.2628
- http://www.sinprors.org.br