Mulher: exclusão e preconceito
A
história da participação feminina na política
brasileira também é a história da exclusão
e do preconceito. A constatação é da escritora
Céli Pinto, coordenadora do curso de pós-graduação
em Ciências Políticas da Ufrgs e autora do livro Uma
história do feminismo no Brasil, em fase de lançamento
pela Editora Fundação Perseu Abramo. A autora não
se deixa impressionar com as conquistas acumuladas pelas mulheres
nas últimas décadas nesse que, segundo ela, continua
sendo o último território de homens por absoluto despreparo
feminino para o jogo político uma inaptidão
que se estende a mulheres do mundo inteiro. A política
é espaço de luta descarada, aberta e legítima
pelo poder. As mulheres não estão preparadas histórica
e culturalmente para disputar esse poder.
Gilson Camargo

luta
das mulheres contra todas as formas de dominação,
exclusão e discriminação tem marcado de forma
decisiva a história nos últimos séculos. A
atuação das principais militantes e organizações
que construíram a história do feminismo no país
e as transformações vividas pela sociedade brasileira
a partir do final do século XIX são resgatadas pela
autora nas 120 páginas de Uma História do Feminismo
no Brasil, que integra a série História do Povo Brasileiro,
da Fundação Perseu Abramo. Céli Pinto dedica
a obra a três mulheres que viraram pelo avesso as convenções
sociais do seu tempo e que, paradoxalmente, achavam que voto era
uma conquista burguesa: Xica da Silva, Chiquinha Gonzaga e Leila
Diniz. Segundo observa a autora, nenhuma das três levava muito
a sério o sentido político do feminismo. Foram
de uma importância decisiva só pelo fato de existirem.
Elas fizeram coisas que ninguém teve coragem de fazer, representavam
o feminismo malcomportado, longe dos partidos políticos e
das passeatas. Foram anarquistas para quem o voto era coisa da burguesia.
A luta das mulheres pelo voto começa na Europa em meados
do século 19 e no Brasil, ainda de forma insipiente, por
ocasião da elaboração da Constituinte de 1890,
no início da República. Por volta de 1914 surgem no
país as sufragistas, que viriam a ser lideradas por uma mulher
paradoxalmente identificada com a fina-flor da elite econômica
e intelectual da época, a bióloga Bertha Lutz. Ela
representa o que a autora define como feminismo bem-comportado:
Bertha freqüentava os círculos do poder dominado por
barões e coronéis, não perdia as festas repletas
de coquetes e melindrosas no Automóvel Clube
do Rio de Janeiro e desfrutava de prestígio dentro e fora
do país. Ela foi decisiva na luta pelo voto feminino,
uma cientista que conseguiu juntar as mulheres para pressionar deputados
pelo direito de votar, define Céli. Segundo constatação
da autora, a intimidade com o poder facilitou o trabalho de mobilização
das mulheres de cima para baixo. Bertha foi a primeira mulher
a entrar no serviço público por concurso, não
aceitava competidores, estava preocupada com o voto feminino, enquanto
as anarquistas defendiam o amor livre.
O modelo de feminismo que estoura no Brasil nos anos 70 é
importado da Europa e dos Estados Unidos, onde as feministas começam
a se mobilizar na metade da década de 60. A ditadura militar
no Brasil estava longe de terminar. Milhares de militantes brasileiras
haviam deixado o país nos anos 70 e estavam asiladas na Europa.
Havia uma população muito grande de brasileiras
vivendo na Europa e nos EUA, na sua maioria militantes ou companheiras
de militantes, que começam a ser influenciadas pela leva
do feminismo europeu, muito ligado ao corpo, à pessoa, ao
trabalho e à sexualidade e contra a dominação
masculina. Essas mulheres causaram tanto furor mundo afora
que os grupos de discussão sobre a condição
feminina passaram a sofrer represálias de todo tipo e até
as entidades de ajuda humanitária passaram a excluir quem
tivesse qualquer ligação com as feministas.
Para a autora, são inegáveis as conquistas das mulheres
até o fim do século 20. Aumentou o nível
educacional no Brasil, a mulher é maioria nas universidades,
ela assume carreiras que eram absolutamente masculinas, representam
45% da mão de obra brasileira e são mais da metade
do eleitorado. Mas, se a gente olha para a política, a mulher
não ocupou espaços. Os dados são muito frágeis.
No RS, diminuiu o número de mulheres na Assembléia
Legislativa. Por que as mulheres não conseguiram romper essa
barreira, se o movimento começou político?,
indaga. Em primeiro lugar, não é uma questão
somente brasileira, pois a política é o último
baluarte masculino no mundo inteiro. Por exemplo, as mulheres
só começam a aparecer com força no Parlamento
inglês nas últimas eleições, ilustra
Céli. Para a cientista política, as mulheres foram
educadas para não disputar o poder. Os homens não
querem abrir mão desse poder e as mulheres não querem
disputar. Isso aparece nas manifestações, nas assembléias,
em que há mais homens que mulheres e são os homens
quem se manifestam primeiro. O sindicato das enfermeiras no Rio
Grande do Sul, um espaço eminentemente feminino, é
dirigido por homens, compara. A mulher não está
na política porque há uma questão mais ampla
que é a mulher no espaço público, a organização
das mulheres na sociedade: o espaço público é
do homem, lamenta a escritora. Quanto mais público
for o espaço, menos se vai encontrar a mulher.
As cotas de candidatas mulheres nos partidos não são
preenchidas porque há uma dificuldade em trazer as mulheres
para a vida da política partidária, na qual a disputa
pelo poder é muito grande. Existem candidatos preferenciais
e os que são tratados a pão e água. É
muito difícil se manter dentro dos partidos, que são
estruturas fechadas e machistas, segregam as mulheres em setores
como fazem com os jovens, com os velhos, os deficientes e os negros.
O setor dos homens é o que predomina, denuncia.
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