Ano 8 - nº 71
Maio 2003



Luis Fernando Verissimo:
Depois do sucesso da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, quem quiser saber o futuro do planeta deve procurar uma série de...



Nei Lisboa:
A guerra no Iraque vai perdendo força no noticiário, embora a suspeita de que o pior esteja por vir com a resistência à ocupação americana e...



Elisa Lucinda:

A noite paira quieta e bela sobre a lagoa
o mar fica atrás da paisagem
como se fosse uma escolha
do mar azul, azul, azul.
Parece que o mar sabe





Mulher: exclusão e preconceito
Foto: René Cabrales
A história da participação feminina na política brasileira também é a história da exclusão e do preconceito. A constatação é da escritora Céli Pinto, coordenadora do curso de pós-graduação em Ciências Políticas da Ufrgs e autora do livro Uma história do feminismo no Brasil, em fase de lançamento pela Editora Fundação Perseu Abramo. A autora não se deixa impressionar com as conquistas acumuladas pelas mulheres nas últimas décadas nesse que, segundo ela, continua sendo o último território de homens por absoluto despreparo feminino para o jogo político – uma inaptidão que se estende a mulheres do mundo inteiro. “A política é espaço de luta descarada, aberta e legítima pelo poder. As mulheres não estão preparadas histórica e culturalmente para disputar esse poder”.

Gilson Camargo

luta das mulheres contra todas as formas de dominação, exclusão e discriminação tem marcado de forma decisiva a história nos últimos séculos. A atuação das principais militantes e organizações que construíram a história do feminismo no país e as transformações vividas pela sociedade brasileira a partir do final do século XIX são resgatadas pela autora nas 120 páginas de Uma História do Feminismo no Brasil, que integra a série História do Povo Brasileiro, da Fundação Perseu Abramo. Céli Pinto dedica a obra a três mulheres que viraram pelo avesso as convenções sociais do seu tempo e que, paradoxalmente, achavam que voto era uma conquista burguesa: Xica da Silva, Chiquinha Gonzaga e Leila Diniz. Segundo observa a autora, nenhuma das três levava muito a sério o sentido político do feminismo. “Foram de uma importância decisiva só pelo fato de existirem. Elas fizeram coisas que ninguém teve coragem de fazer, representavam o feminismo malcomportado, longe dos partidos políticos e das passeatas. Foram anarquistas para quem o voto era coisa da burguesia”.

A luta das mulheres pelo voto começa na Europa em meados do século 19 e no Brasil, ainda de forma insipiente, por ocasião da elaboração da Constituinte de 1890, no início da República. Por volta de 1914 surgem no país as sufragistas, que viriam a ser lideradas por uma mulher paradoxalmente identificada com a fina-flor da elite econômica e intelectual da época, a bióloga Bertha Lutz. Ela representa o que a autora define como “feminismo bem-comportado”: Bertha freqüentava os círculos do poder dominado por barões e coronéis, não perdia as festas repletas de ‘coquetes e melindrosas’ no Automóvel Clube do Rio de Janeiro e desfrutava de prestígio dentro e fora do país. “Ela foi decisiva na luta pelo voto feminino, uma cientista que conseguiu juntar as mulheres para pressionar deputados pelo direito de votar”, define Céli. Segundo constatação da autora, a intimidade com o poder facilitou o trabalho de mobilização das mulheres de cima para baixo. “Bertha foi a primeira mulher a entrar no serviço público por concurso, não aceitava competidores, estava preocupada com o voto feminino, enquanto as anarquistas defendiam o amor livre”.

O modelo de feminismo que estoura no Brasil nos anos 70 é importado da Europa e dos Estados Unidos, onde as feministas começam a se mobilizar na metade da década de 60. A ditadura militar no Brasil estava longe de terminar. Milhares de militantes brasileiras haviam deixado o país nos anos 70 e estavam asiladas na Europa. “Havia uma população muito grande de brasileiras vivendo na Europa e nos EUA, na sua maioria militantes ou companheiras de militantes, que começam a ser influenciadas pela leva do feminismo europeu, muito ligado ao corpo, à pessoa, ao trabalho e à sexualidade e contra a dominação masculina”. Essas mulheres causaram tanto furor mundo afora que os grupos de discussão sobre a condição feminina passaram a sofrer represálias de todo tipo e até as entidades de ajuda humanitária passaram a excluir quem tivesse qualquer ligação com as feministas.

Para a autora, são inegáveis as conquistas das mulheres até o fim do século 20. “Aumentou o nível educacional no Brasil, a mulher é maioria nas universidades, ela assume carreiras que eram absolutamente masculinas, representam 45% da mão de obra brasileira e são mais da metade do eleitorado. Mas, se a gente olha para a política, a mulher não ocupou espaços. Os dados são muito frágeis. No RS, diminuiu o número de mulheres na Assembléia Legislativa. Por que as mulheres não conseguiram romper essa barreira, se o movimento começou político?”, indaga. Em primeiro lugar, não é uma questão somente brasileira, pois a política é o último baluarte masculino no mundo inteiro. “Por exemplo, as mulheres só começam a aparecer com força no Parlamento inglês nas últimas eleições”, ilustra Céli. Para a cientista política, as mulheres foram educadas para não disputar o poder. “Os homens não querem abrir mão desse poder e as mulheres não querem disputar. Isso aparece nas manifestações, nas assembléias, em que há mais homens que mulheres e são os homens quem se manifestam primeiro. O sindicato das enfermeiras no Rio Grande do Sul, um espaço eminentemente feminino, é dirigido por homens”, compara. A mulher não está na política porque há uma questão mais ampla que é a mulher no espaço público, a organização das mulheres na sociedade: o espaço público é do homem, lamenta a escritora. “Quanto mais público for o espaço, menos se vai encontrar a mulher”.

As cotas de candidatas mulheres nos partidos não são preenchidas porque há uma dificuldade em trazer as mulheres para a vida da política partidária, na qual a disputa pelo poder é muito grande. “Existem candidatos preferenciais e os que são tratados a pão e água. É muito difícil se manter dentro dos partidos, que são estruturas fechadas e machistas, segregam as mulheres em setores como fazem com os jovens, com os velhos, os deficientes e os negros. O setor dos homens é o que predomina”, denuncia.


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