Ano 8 - nº 71
Maio 2003



Luis Fernando Verissimo:
Depois do sucesso da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, quem quiser saber o futuro do planeta deve procurar uma série de...



Nei Lisboa:
A guerra no Iraque vai perdendo força no noticiário, embora a suspeita de que o pior esteja por vir com a resistência à ocupação americana e...



Elisa Lucinda:

A noite paira quieta e bela sobre a lagoa
o mar fica atrás da paisagem
como se fosse uma escolha
do mar azul, azul, azul.
Parece que o mar sabe





Reforma tributária: uma proposta e muitos interesses
Eduardo Antunes
Apesar de ocupar o topo do ranking dos países com pior distribuição de renda, perdendo apenas para nações miseráveis como Serra Leoa, República Centro Africana e Suazilândia, o Brasil ostenta uma das cargas tributárias mais elevadas do planeta. Entre 1994 e 2002, no governo de Fernando Henrique Cardoso, o volume total de impostos arrecadados pulou de 29,46% para 36,1% do PIB, superando a Suíça (34,5%), que desfruta de um sistema de bem-estar social de altíssimo nível. Um estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário mostra que, aqui, paga mais quem ganha menos. A estimativa é a de que, em média, o assalariado trabalhe cinco meses por ano de graça, isto é, apenas para atender o fisco, uma vez que o percentual de tributos a que os salários estão sujeitos atinge 41,7%.

Paulo César Teixeira

or tudo isso, quando o presidente Luís Inácio Lula da Silva anunciou o envio do projeto de emenda constitucional da reforma tributária ao Congresso Nacional, após fechar acordo com os 27 governadores, havia a expectativa de que as mudanças teriam como principal objetivo reduzir a carga de impostos sobre os contribuintes de menor renda. “Na realidade, não estamos diante de reforma nenhuma. Trata-se apenas de uma maquiagem, que não visa melhorar a vida do cidadão, e sim azeitar a máquina estatal”, protesta o tributarista Ives Gandra. O relator da Comissão Especial de Reforma Tributária da Câmara Federal, Virgílio Guimarães (PT-MG), admite que o objetivo é assegurar a sustentabilidade das finanças públicas. “Não tem cabimento diminuir os impostos nesse momento, porque isso implicaria ter que aumentar a taxa de juros, o que ninguém em sã consciência pode desejar”, disse o parlamentar.

O entendimento entre Lula e os governantes estaduais não foi alcançado sem solavancos. Uma semana antes do fechamento do acordo, oito governadores tucanos reunidos em Rio Quente (GO) ameaçaram romper as conversações, caso Lula não aceitasse repartir a arrecadação das contribuições sociais com estados e municípios. “Há reivindicações justas, mas não se pode trocar figurinhas para a aprovação das mudanças. Os estados não devem negociar a concessão de benefícios como garantia de apoio à reforma”, condenou o governador gaúcho Germano Rigotto (PMDB).

Um bolo de R$ 476 bilhões anuais em disputa

O que está em jogo é o bolo tributário de R$ 476 bilhões anuais arrecadado com 60 tributos repartidos entre União, estados e municípios. O sistema está centrado em 13 impostos (7 federais, três estaduais e três municipais), mas expande-se por dezenas de taxas e contribuições sociais que, em tese, só poderiam ser cobradas com destinação específica, a exemplo das taxas de lixo ou de esgoto. Entretanto, nem sempre cumprem a regra. Um exemplo é a Contribuição Permanente Sobre Movimentação Financeira (CPMF), criada em 1997 para financiar os serviços de saúde, mas utilizada para sanear as finanças públicas.

Até a década de 80, a União concentrou fatias mais do que generosas do bolo de impostos, tendência que se desacelerou a partir da Constituição de 1988. Contudo, depois da segunda metade dos anos 90, o governo federal recuperou terreno, com a criação de novas contribuições não partilhadas com governadores e prefeitos. Apenas o imposto do cheque arrecadou R$ 23,7 bilhões em 2002. Atualmente, a União abocanha 59,5% da receita disponível de impostos (após as transferências entre uma esfera e outra), enquanto os estados ficam com cerca de 25% e os municípios com 15,5%.

No bolo tributário brasileiro, a cereja que desperta maior cobiça é o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias(ICMS), arrecadado pelos estados. A idéia do presidente era a de cobrar o tributo nos locais de destino dos produtos, em benefício das regiões pobres do país e em detrimento dos estados produtores, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Amazonas. Houve pressão política e a medida foi adiada para daqui a dois anos. “Não podemos perder R$ 6 bilhões por ano, ou 15% da arrecadação estadual”, avisou o secretário da Fazenda de São Paulo, Eduardo Guardia.

Os governadores nordestinos tiveram que engolir goela abaixo, embora tenham até ensaiado um princípio de rebelião. “Do jeito como está, o ICMS estimula a desigualdade e eu não abro mão da defesa de minha região”, disse o governador de Alagoas, Ronaldo Lessa, que depois voltou atrás e acatou a decisão. “Tecnicamente, a solução adotada foi a de transferir a mudança para lei complementar, a fim de não comprometer o consenso em torno da reforma tributária. Em bom português, isso se chama empurrar com a barriga”, diz o economista Odir Tonollier, ex-secretário municipal da Fazenda de Porto Alegre. Por outro lado, ninguém duvida de que a unificação das alíquotas e da legislação do ICMS – sacramentada na reforma de Lula – era uma necessidade inadiável. Existe hoje uma verdadeira balbúrdia jurídica, que permite a existência dentro do mesmo país de 27 regulamentações diferenciadas e acirra a guerra fiscal entre os estados. “O quadro atual compromete as finanças públicas, à medida que incentiva a concessão de benefícios fiscais ao sabor da simpatia dos governadores”, critica Tonollier.

Alfredo Meneghetti Neto, economista da Fundação Estadual de Economia e Estatística (Feee) e professor de Economia do Setor Público da PUC/RS, destaca que o principal erro do governo foi o de acelerar a reforma tributária sem antes redefinir a distribuição de tarefas e atribuições institucionais pertinentes à União, aos estados e municípios. Para ele, existe sobreposição de funções, especialmente na área da saúde. “Os três níveis governamentais não se enxergam uns aos outros e, por isso, a qualidade dos serviços deixa a desejar. O governo federal aproveitou as excelentes condições políticas do início da gestão para implantar uma reforma que, do ponto de vista técnico, mostra-se extremamente precipitada”, afirma Meneghetti.


Proposta do governo: Clique aqui para fazer o download do texto integral da proposta de Reforma Tributária do governo entregue ao congresso no último dia 30/04.

Atenção: o arquivo está em PDF e você precisa do programa Acrobat Reader para acessá-lo. Faça aqui o download do programa.


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