Grandes músicas para pequenos ouvintes
Cada vez mais uma indústria fonográfica paralela à das
grandes vendagens coloca nas prateleiras títulos infantis
de qualidade acima da média praticada pelo mercado. Exemplos
nacionais e regionais mostram uma independência criativa
que emerge de forma consistente na arte de produzir música
para crianças.
Jacira Cabral


nquanto Cassiano dorme o
sono de seu 34o dia de existência, seus pais, Martina e Edgar, ela advogada,
ele servidor público
estadual, procuram na estante de CDs, em uma livraria próxima ao centro
de Porto Alegre, o volume um do A Arca de Noé, de Toquinho e Vinícius.
Ainda quando moravam na Alemanha, antes do nascimento de Cassiano, eles já haviam
comprado alguns CDs de músicas para crianças. De volta ao Brasil
este ano, o casal quer continuar a seleção de canções “de
melhor qualidade”.
Cuidadosos em não fazer barulho para não acordar o filho, eles
dizem que preferem músicas de temas simples, “mais ingênuos”,
músicas com as quais a criança possa aprender. Mesmo que Cassiano
recém tenha completado um mês, Edgar já imagina o filho descobrindo
coisas sobre o mundo: “No volume dois do A Arca de Noé tem uma canção
que fala sobre todas as formas do vento”, sorri.
Assim como Edgar e Martina, outros pais, tias e professores vasculham as prateleiras
de livrarias e lojas de CDs para conferir o que há de especial para crianças.
Conforme a jornalista com especialização em Literatura Infantil,
Maria de Lourdes Vilella, este é em geral o público interessado
em trabalhos elaborados, com melodias mais interessantes e letras inteligentes.
Qualidade
não despreza a inteligência
Para o crítico de música e jornalista Juarez Fonseca, estas produções
de qualidade são as que não desprezam a inteligência das
crianças, encarando-as como seres que fazem parte do mundo e não
indivíduos fragilizados, com percepção inferior à do
adulto. “Estas novas produções têm qualidade porque
não reduzem a criança a um ser menos capaz, sem condições
para entender um trabalho mais elaborado”, argumenta.
Por outro lado, na opinião de Juarez, as crianças não devem
ser vistas como adultos bobos. Na visão do jornalista, as crianças
mudaram muito e já existem espetáculos teatrais que levam em conta
estas mudanças: “A maioria dos musicais infantis provoca a inteligência
das crianças; não são meros divertimentos”. Juarez
prefere não julgar trabalhos do tipo Angélica e Xuxa, até porque
não se interessa em ouvi-los. Já não é o que acontece
quando encontra produções como Saltimbancos e Palavra Cantada: “Gosto
de ouvir, me informam”.
Foi justamente um dos CDs do grupo paulista Palavra Cantada, com canções
de Paulo Tatit e Sandra Peres, que há quatro anos levou Maria de Lourdes
a incluir CDs de músicas infantis no acervo de sua livraria. “Os
pais ficaram surpresos com a descoberta”, recorda. “Isto ainda acontece
porque a imprensa não divulga estes trabalhos de boa qualidade. Parece
que música para criança é um estatuto inferior”, critica.
Hoje o catálogo de CDs de músicas infantis de Maria de Lourdes
inclui 80 títulos, na sua maioria produções de grupos que
não têm expressão na grande mídia. Independente do
que venha ou não a ser divulgado nos meios de comunicação
em termos de música infantil, Maria de Lourdes se-leciona os CDs que coloca à venda
em sua livraria com os mesmos critérios de qualidade que há dez
anos emprega para encomendar livros para o público infanto-juvenil. Assim
como Juarez Fonseca, a especialista não se interessa por produções
que considera com grande apelo comercial: “Eu não conseguiria vender
Xuxa ou Eliana, por exemplo”.
O que tem por aí
“Pensando bem, a chamada produção de qualidade não
começa agora, ela sempre existiu”, considera Maria de Lourdes. Em
suas investigações nos catálogos on-line de grandes distribuidoras,
a jornalista descobriu algumas preciosidades como o CD de músicas de Villa
Lobos para crianças. Um pouco mais recente, mas também já considerados
clássicos, são as gravações Os Saltimbancos, 1977,
e A Arca de Noé, 1980. O primeiro produzido e dirigido por Chico Buarque
e Sérgio de Carvalho e o segundo, também com a participação
de Chico Buarque, é a obra musicada de Vinícius de Moraes.
“
Au, au, au, ia, ió, miau, miau, miau, cocorocó. O animal é tão
bacana, mas não é nenhum banana.” Quem não lembra?
A letra de “Bicharada” dos Saltimbancos ilustra o recorrente uso
do tema sobre animais na discografia infantil. Na Arca de Noé, Vinícius
imagina a procissão de animais que saem para povoar a terra depois de
40 dias e 40 noites dentro da arca. E neste novo itinerário pela terra
revisitada, o poeta faz aparecer “uma casa, muito engraçada, não
tinha teto, não tinha nada ... mas era feita com muito esmero, na rua
dos bobos, número zero”. A Arca de Noé também ganhou
versão italiana chamada L’Arca – cansoni di bambini.
Em outra casa, em 1983, Toquinho convida vários artistas como Chico Buarque,
Tom Zé, Simone para lançar Casa de Brinquedos. Menos famoso, mas
com a mesma preocupação de produzir algo especial, o músico
Hélio Ziskind grava em 1997 uma coletânea de seus trabalhos veiculados
no Castelo Rá-Tim-Bum, X-Tudo e Cocoricó, da TV Cultura. No ano
passado ele lançou o Cantigas de Roda. Mesmo ano em que Adriana Calcanhotto
surpreende com Adriana Partimpim, apelido de infância. “Lição
de baião”, a primeira faixa do CD, foi inspirada no que Adriana
chama de parque de diversões, que era a coleção de discos
de seu pai: “Havia de tudo um pouco, jazz, blues, rock, samba e muitos
discos que me modificaram para sempre”.
Voltando aos animais, foi inspirada neles que a professora de música Kitty
Driemeyer compôs as 11 faixas do CD Conversa de bicho, com o qual ganhou
o Prêmio Açoriano de 2004, pela primeira vez editado na categoria
música infantil. “Fico realizada pelo reconhecimento”, comemora.
Formada no curso de Música do Instituto de Artes da Ufrgs, Kitty, desde
que se formou, trabalha com sensibilização musical em escolas infantis.
Neste seu primeiro CD de produção independente, ela busca a figura
dos animais para construir metáforas de andamento e ritmo. Como o trabalho
de divulgação também fica por sua conta, Kitty, além
de visitar livrarias e lojas, faz shows e oficinas de sensibilização
para professoras nas escolas.
(en) Cantando
palavras
Há dez anos, o duo Palavra Cantada, de São Paulo, também
iniciava uma carreira de músicas para crianças fora do circuito
comercial. “A receptividade foi ótima, a imprensa afirmava que finalmente
existia música inteligente e de qualidade para as crianças”,
recorda Paulo Tatit, que divide o trabalho com Sandra Peres nas composições
do grupo. Mas, embora o comentário tenha partido de alguns membros da
mídia paulista na época, Tatit diz que ainda não há como
competir com as megapro-duções de determinados artistas em regiões
brasileiras, onde o que conta é o que aparece na TV. “Fazemos sucesso
em São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio
Grande do Sul.”
| Foto: divulgação |
|
Paulo
Tatit e Sandra Peres
integram o Palavra Cantada
há dez anos
|
Segundo Tatit, o interesse por fazer música para criança surgiu
a partir de dois fatos. O primeiro foi durante a visita a um amigo em comum de
Sandra e Tatit. Enquanto conversavam, o filho do anfitrião ouvia repetidas
vezes um CD para crianças: “Era muito chato”, lembra. Incomodados,
eles comentaram a falta de qualidade das músicas. Tempos depois, quando
Sandra voltou de uma viagem aos Estados Unidos, trouxe alguns CDs infantis, com
músicas interpretadas por “divas” norte-americanas e arranjos
cuidadosos.
Desde então, Sandra e Tatit fazem música para crianças na
faixa de zero a sete anos de idade. Hoje são mais de 270 mil discos vendidos,
mas a dedicação continua: “Tomamos cuidado com todas as etapas
das gravações. Depois de melodia e letra encaixadas, chega a hora
dos arranjos, de pensar os instrumentos e procurar um bom produtor. É um
gasto de tempo, dinheiro e discussão cri-teriosa indispensáveis”.
Lançamentos para baixinhos antenados
O Palavra Cantada também está lançando um novo CD. Depois
do recente 10 anos, lançado em janeiro deste ano, chega o álbum
duplo Pé-com-Pé e Pé na cozinha, que contou com o patrocínio
da Petrobrás. São 15 canções fruto de uma pesquisa
in loco sobre alguns ritmos de grupos regionais brasileiros. O primeiro CD, Pé-com-Pé, é dedicado
aos diferentes ritmos de tradição musical brasileira. No segundo,
Pé na cozinha, as mesmas faixas são reinterpretadas apenas instrumentalmente.
Acompanha o CD um libreto com 56 páginas ilustradas, contendo as letras
das canções e comentários do etnomusicólogo e músico
Paulo Dias sobre cada um dos ritmos. Professores interessados em saber como adquirir
Pé-com-Pé a preços especiais devem escrever via internet
para o e-mail atendimento@palavracantada.com.br. Também está chegando
em maio às lojas e livrarias mais um lançamento de Toquinho, regravando
algumas canções do A Arca de Noé como “O caderno”, “A
casa” e “O pato”, todas as músicas com Vinícius
de Moraes. Toquinho no mundo da criança tem a participação
de Chico Buarque, Simone, Sandy e Júnior. Além do CD, o lançamento
traz um DVD com as músicas, brincadeiras e jogos de computador. Entre
as canções novas estão “Errar é humano”, “Bicicleta”, “Aquarela” e “Mundo
da criança”, que dá o nome ao CD. A gravação é uma
co-produção da Circuito Música, Editora Delta e Gravadora
Universal.
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