Renda curta e muito concentrada
Apesar dos 5,2% de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2004,
os dois primeiros anos do governo Lula não alteraram o comportamento
geral da economia nacional durante os últimos 25 anos. Ocorre
que a partir de 1980, o país passou a viver a mais grave
crise do desenvolvimento econômico desde 1840.
Marcio Pochmann*


omente com o surgimento
do ciclo do café na primeira metade do século XIX que o Brasil
conseguiu superar os 70 anos de estagnação
da renda nacional que se sucederam após o fim do ciclo do ouro. Entre
as décadas de 1930 e 1970, a nação viveu uma grande fase
de expansão econômica decorrente do ciclo da industrialização
nacional, com crescimento médio anual do PIB de 7%.
De 1980 até os dias de hoje, a economia brasileira tem registrado crescimento
medíocre, de apenas 2,1% ao ano. Se contrastar com o desempenho da economia
mundial, pode-se notar o quanto a atual forma de inserção do Brasil
na globalização tem sido nefasta.
Nos últimos 16 anos de forte avanço da globalização
financeira, os governos brasileiros não mediram esforços para atender
as exigências das agências multilaterais favoráveis às
políticas neoliberais. Enquanto o mundo cresceu 70,4% a riqueza, o Brasil
aumentou em apenas 41,5% o seu PIB, ou seja, 2,2% ao ano contra 3,4% ao ano do
mundo.
Esse fracasso em fazer crescer a economia nacional revela o quanto o país
vem se afastando do que poderia ser, tornando-se cada vez mais dependente do
baixo crescimento econômico e da produção de bens de baixo
custo do trabalho. Com isso, não há condições de
avançar a inclusão social, muito menos alterar a má distribuição
de renda que persiste no país.
Além da estabilidade na péssima distribuição pessoal
da renda, assiste-se à piora na repartição funcional da
renda. Explicando melhor, a distribuição pessoal da renda indica
qual é a participação relativa da classe média, pobres
e ricos, por exemplo, no bolo total da renda nacional, enquanto a distribuição
funcional da renda permite observar a participação relativa na
renda nacional da parcela do capital e da parcela do trabalho.
A renda do trabalho é oriunda do rendimento dos empregados assalariados
(com e sem carteira assinada), de autônomos e conta-própria, bem
como de trabalhadores rurais e aposentados. Já a renda do capital compreende
os juros dos capitalistas, os lucros dos banqueiros, os aluguéis dos proprietários
e renda da terra dos donos das terras.
Para um crescimento médio anual de 2,1% ao ano desde 1980 do PIB no Brasil,
verifica-se que a parcela do capital aumentou 3,1% ao ano, em média, representando
uma variação de 48% acima da expansão de toda a produção
nacional. Em contrapartida, o conjunto do rendimento do trabalho cresceu apenas
e tão-somente 0,5% ao ano, como média anual no mesmo período
de tempo.
Quando se contrasta o comportamento da renda do trabalho com o do capital, nota-se
que este cresceu numa velocidade seis vezes superior. É por isso que a
renda do trabalho deixou de representar 50% do PIB, em 1980, para responder somente
por 35,7% em 2003.
Estancar a violência do derrame de renda do trabalho para a do capital é urgente
e fundamental para a construção de uma nação democrática
e justa. Somente crescer a economia nacional pode ser necessário para
uma boa administração política de uma nação,
mas não é suficiente para alterar a estrutura distributiva no Brasil.
Aumentar significativamente a renda nacional, bem como mudar o perfil distributivo
do país, não faz parte do curso do atual modelo econômico
adotado no país. Este satisfaz tão-somente a plutocracia de interesses
dos muito privilegiados, cujas migalhas são cada vez mais disputadas pelos
pobres.
Ou se muda o modelo econômico ou se conforma definitivamente com o Brasil
que vê aumentar continuamente a distância entre o que é de
fato e o que poderia ser de direito.
* Professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de
Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade de Campinas