Educação para a paz:
estratégia de prevenção contra o comportamento bullying
Atualmente, um dos temas que mais desperta a atenção
dos educadores em todo o mundo, é, sem dúvida, o
da violência escolar. Entretanto, quando falamos em violência
escolar imaginamos uma gama de situações, onde alunos
discutem, brigam, amontoam-se, ferem-se e, logo, algum adulto interfere “para
separar os briguentos”; ou imaginamos situações
onde “gangues” compostas por “alunos” ou “ex-alunos-problemas”,
munidos de armas ou drogas, invadem a escola, depredam o patrimônio
ou deixam rastros de sangue.
Cleo Fante*

a tentativa de prevenir a
violência, escolas de todo
o mundo vêm adotando as mais variadas estratégias como medidas de
segurança. Muros e grades altas, detectores de metais, monitoramentos
dos alunos através de câmeras de vídeo e seguranças
particulares, dentro e fora da escola. Chega-se ao ponto de montarem blitz, com
cães farejadores e aparelhos de raios X para vistoriar as mochilas dos
alunos, transformando todos em suspeitos. Esta é a forma de violência
que, normalmente, empenham-se em combater: a violência explícita.
Todavia, existe uma outra forma de violência que deve despertar a atenção
e a preocupação de todos os profissionais de educação,
uma vez que essas estratégias preventivas adotadas não conseguem
alcançá-la, por se manifestar velada e sutilmente, sendo interpretada,
muitas vezes, como “brincadeiras próprias da idade”.
Referimo-nos ao Fenômeno Bullying, termo encontrado na literatura psicológica
anglo-saxônica, que conceitua os comportamentos agressivos e anti-sociais
nos estudos sobre o problema da violência escolar. Sem termo equivalente
na língua portuguesa, define-se universalmente como um conjunto de atitudes
agressivas, intencionais e repetitivas, adotado por um ou mais alunos contra
outro(s), sem motivação evidente, causando dor, angústia
e sofrimento. É caracterizado por sua natureza repetitiva e por desequilíbrio
de poder. Insultos, intimidações, apelidos cruéis e constrangedores,
gozações que magoam profundamente, acusações injustas,
atuação de grupos que hostilizam, ridicularizam e infernizam a
vida de outros alunos levando-os à exclusão, além de danos
físicos, psíquicos, morais e materiais, são algumas das
manifestações do comportamento bullying.
O conceito
O bullying é um conceito específico e muito bem definido, uma
vez que não se deixa confundir com outras formas de violência.
Isso se justifica pelo fato de apresentar características próprias,
dentre elas, talvez a mais grave, a propriedade de causar traumas ao psiquismo
de suas vítimas e envolvidos. Possui, ainda, a propriedade de ser reconhecido
em vários contextos: nas escolas, nas famílias, nas forças
armadas, nos locais de trabalho (denominado assédio moral), nos asilos
de idosos, nas prisões; enfim, onde existem relações interpessoais.
Estudiosos do comportamento bullying identificam e classificam os tipos de
papéis desempenhados pelos seus protagonistas: “vítima” (aquele
que serve de bode expiatório para um grupo), “vítima agressora” (aquele
que reproduz os maus-tratos sofridos), “agressor” (aquele que vitimiza
os mais fracos), “espectador” (aquele que presencia os maus-tratos,
porém não o pratica e nem sofre).
Trata-se de um problema mundial, encontrado em todas as escolas, que vem se
disseminando largamente nos últimos anos. Em todo o mundo, as taxas
de prevalência de bullying revelam que de 5% a 35% dos alunos estão
envolvidos no fenômeno. No Brasil, através de pesquisas que realizamos
no interior do estado de São Paulo, em estabelecimentos públicos
e privados, com um universo de quase dois mil alunos, comprovamos índices
elevados quanto ao número de envolvidos. Nas escolas pesquisadas, encontramos
a média de 22% de alunos que figuravam somente como “vítimas”,
15% como “agressores” e 12% como “vítimas agressoras”.
As
causas
As causas desse tipo de comportamento abusivo são inúmeras e
variadas: desde a carência afetiva, a ausência de limites aos maus-tratos
e explosões emocionais violentas desempenhadas pelos pais. Entretanto,
em nossos estudos constatamos que 80% daqueles que foram identificados como “agressores” disseram
ter necessidade de reproduzir contra outros os maus-tratos sofridos. Em decorrência
desse dado extremamente relevante, identificamos uma doença psicossocial
que denominamos de SMAR – Síndrome de Maus-tratos Repetitivos.
O portador dessa síndrome possui necessidade de dominar, subjugar, de
impor sua autoridade sobre alguém mediante coação; de
ser aceito e pertencer a um grupo; de auto-afirmação, de chamar
a atenção para si. Possui ainda a inabilidade de expressar seus
sentimentos mais íntimos, de se colocar no lugar do outro e de perceber
suas dores e sentimentos.
Esta Síndrome apresenta rica sintomatologia: irritabilidade, agressividade,
impulsividade, intolerância, tensão, explosões emocionais,
raiva reprimida, depressão, estresse, sintomas psicossomáticos,
alteração do humor, déficit de concentração
e de aprendizagem, pensamentos de vingança e suicídio.
O bullying é uma dinâmica psicossocial expansiva que envolve um
número cada vez maior de alunos. Estudos indicam que as conseqüências
para as “vítimas” desse fenômeno são graves
e abrangentes, promovendo no âmbito escolar o desinteresse pela escola,
o déficit de concentração e aprendizagem, a queda do rendimento,
o absentismo e a evasão. No âmbito da saúde física
e emocional, a queda do sistema imunológico, da auto-estima, o estresse,
os sintomas psicossomáticos, alguns transtornos psicológicos,
a depressão e o suicídio. Para os “agressores”, ocorre
o distan-ciamento e a falta de adaptação aos objetivos escolares,
a superva-lorização da violência como forma de obtenção
de poder, o desenvolvimento de habilidades para futuras condutas delituosas,
além da projeção de atitudes violentas na vida adulta.
Para os “espectadores”, que são a maioria dos alunos, estes
podem se sentir inseguros, ansiosos, temerosos e estressados, comprometendo
o seu processo de aprendizagem e socialização.
Foto:
Divulgação

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| "O fenômeno pode ser reconhecido
em vários
contextos: nas escolas, nas famílias, nas forças
armadas, nos locais de trabalho (denominado
assédio
moral), nos asilos de idosos, nas prisões; enfim, onde
existem relações interpessoais" |
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A abrangência
Este fenômeno comportamental atinge a área mais preciosa, íntima
e inviolável do ser, a sua alma. Envolve e vitimiza a criança,
na tenra idade escolar, tornando-a refém de ansiedade e de emoções,
que interferem negativamente nos seus processos de aprendizagem, devido à excessiva
mobilização de emoções de medo, de angústia
e de raiva reprimida. A forte carga emocional da experiência vivenciada
poderá traumatizar e aprisionar sua mente a construções
de cadeias de pensamentos desorganizados, que interferirão no desenvolvimento
da sua autopercepção e auto-estima, comprometendo sua capacidade
de auto-superação na vida.
Dependendo do grau de sofrimento vivido pela criança, ela poderá conceber
pensamentos de vingança e de suicídio, ou manifestar determinados
tipos de comportamentos agressivos ou violentos, prejudiciais a si mesma e à sociedade,
isto se não houver intervenção diagnóstica, preventiva
e psicoterá-pica, além de esforços interdiscipli-nares conjugados
por toda a comunidade escolar. Nesse sentido podemos citar as recentes tragédias
ocorridas em escolas, como por exemplo, Columbine (EUA), Taiuva (SP), Remanso
(BA), Carmen de Pata-gones (ARG) e Red Lake (EUA). |
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A identificação
Esta forma de violência é de difícil identificação
por parte dos familiares e da escola, uma vez que a vítima se vale da “lei
do silêncio”, por medo de sofrer represálias e por vergonha
de admitir que está apanhando ou passando por situações
humilhantes na escola ou, ainda, por acreditar que não lhe darão
o devido crédito. Sua denúncia ecoaria como uma confissão
de fraqueza ou impotência de defesa.
Observando os próprios filhos, os pais podem detectar alguns sinais
que indiquem a vitimização: mudança de humor de maneira
inesperada, explosões de irritação, dores de cabeça
e de estômago, tonturas, pouco apetite, hipersensibi-lidade (chora à toa),
aspecto contrariado, triste, deprimido, aflito ou infeliz, insônia ou
pesadelos, além de dificuldades de relacionar-se, de concentração
e de aprendizagem. Quanto aos agressores, os sinais mais evidentes são:
irritabilidade, agressividade, impulsividade, ar de superioridade, atitude
desafiante e hostil a ponto de atemorizar, porte de objetos ou dinheiro sem
justificar sua origem, atitudes de dominação e imposição
de autoridade.
Quanto à escola, seus profissionais devem estar conscientes sobre essa
forma de violência e serem capacitados para diagnosticar, intervir e
preveni-la. O papel da escola é de fundamental importância, devendo
disponibilizar espaços para que as crianças possam falar de suas
emoções e sentimentos, que discutam, reflitam e encontrem soluções
para as diversas situações da vida.
A prevenção
Algumas iniciativas bem-sucedidas vêm sendo implantadas em escolas dos
mais diversos países, na tentativa de reduzir esse tipo de comportamento.
Nesse sentido, implantamos de forma pioneira no Brasil, um programa antibullying,
denominado de “Programa Educar para a Paz”, por nós elaborado
e desenvolvido, em uma escola de São José do Rio Preto. Como
resultado, obtivemos índices significativos de redução:
o que antes foi detectado em torno de 26%, após dois anos de execução
do programa, nos deparamos com uma outra realidade, os índices caíram
para 4% de vitimização.
O “Programa Educar para a Paz” é um conjunto de estratégias
psicopedagógicas que se fundamenta sobre princípios de solidariedade,
tolerância e respeito às diferenças. Recebeu esse nome
por acreditarmos que a paz é o maior anseio das crianças envolvidas
no fenômeno, bem como de toda a sociedade. Envolve toda a comunidade
escolar, inclusive os pais e a comunidade onde a escola está inserida.
As estratégias do programa vão desde o trabalho individualizado
com os envolvidos em bullying – visando à inclusão e ao
fortalecimento da auto-estima das “vítimas” e a canalização
da agressividade em ações proativas do “agressor” – até as
estratégias gerais, envolvendo todos da escola, inclusive os pais e
a comunidade.
Grupos de “alunos solidários” atuam como “anjos da
guarda” daqueles que apresentam dificuldades de relacionamento, dentro
e fora da escola. Grupos de “pais solidários” auxiliam nas
brincadeiras do recreio dirigido, junto aos “alunos solidários”.
A interiorização de valores humanistas e a discussão de
situações-problema de cada grupo-classe são estratégias
que visam à educação das emoções, sendo
desenvolvida toda semana, durante o encontro entre os tutores e suas turmas.
Ações solidárias em prol de instituições
filantrópicas são objetivos comuns a serem alcançados
pela escola e comunidade.
Acreditamos que se existe uma cultura de violência, que se dissemina
entre as pessoas, podemos também difundir uma con-tracultura de paz.
Se conseguirmos plantar nos corações das crianças as sementes
da paz – solidariedade, tolerância, respeito ao outro e o amor –,
poderemos vislumbrar uma sociedade mais equilibrada, justa e pacífica.
Construir um mundo de paz é possível, para isso, deve-se primeiramente
construí-lo dentro de cada um de nós.
** Educadora e pesquisadora – Autora do livro Fenômeno Bullying:
como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz (Editora Verus
www.veruseditora.com.br).