O voto, por favor!
“Vigie seus pensamentos, porque eles se tornarão palavras.
Vigie suas palavras, porque elas se tornarão atos.
Vigie seus atos, porque eles se tornarão hábitos.
Vigie seus hábitos, porque eles se tornarão seu caráter.
Vigie seu caráter, porque ele será seu destino.”
Texto
de autor desconhecido
(página de
abertura do site da Comissão
de Ética da
Assembléia Legislativa do Rio
Grande do Sul) |
Pelos
gabinetes da Assembléia
Legislativa do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, vigiam-se
os pensamentos e as palavras. Vigiam-se também
os atos, mas muito pouco os hábitos, pois é da
natureza dos hábitos que sejam pouco vigiados.
Um dos hábitos que persiste, principalmente no
Terceiro Mundo, diz respeito ao ritual do beija-mão,
aquele em que o cidadão “humilde”, ávido
de um serviço ou respaldo que o Estado lhe deve
e não lhe fornece, dirige-se diretamente ao espaço
sagrado do gabinete, onde julga que estão todas
as possibilidades: o emprego, um lote de tijolos, a cadeira
de rodas e a dentadura. Em retribuição,
o voto, essa migalha, tão fácil de conceder.
O assistencialismo é uma prática medieval que
sobrevive até os dias de hoje e
|
Fotos:Tânia
Meinerz
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funciona, na prática,
como uma campanha eleitoral permanente com uma relação
custo-benefício comprovada. Os deputados que utilizam ou
utilizaram essa ferramenta política não casualmente
são ou foram também os mais votados nos pleitos em
que participaram. Muito embora não se admita, trocam-se
votos por favores. Vários políticos já construíram
carreiras sólidas utilizando-se desse expediente, passando
o legado aos seus correliginários, que por sua vez, deixarão
de herança aos seus sucessores.
Liége Copstein

parlamentar moderno sabe que tal prática não é saudável
nem própria da democracia. É uma
deformação. Assistencialismo, essa palavra o ofende. Por outro
lado, convive diariamente com esse mar de mãos estendidas. É o
caso do homem pobre do interior, que quando doente é obrigado a procurar
um centro maior. Sozinho num lugar estranho, ao temor da dor, muitas vezes da
morte, somam-se a solidão, a fome, a humilhação.
Muitos deputados estaduais gaúchos, de diversos partidos e ideologias,
há mais de uma década mantêm albergues em Porto Alegre e
em outras cidades estratégicas, que acolhem e encaminham essas pessoas.
O fato de que entre eles sejam também os campeões de votações
do parlamento gaúcho não é, segundo eles próprios,
uma simples coincidência, porém não aceitam o rótulo
de populistas.
| Foto: Tânia
Meinerz |
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Usuários
chegam do interior e não têm
condições financeiras para custear o
transporte para a Capital
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Tomemos o exemplo do deputado estadual João Osório, do PMDB. O
mais votado de seu partido nas três últimas eleições,
tendo recebido quase 70 mil votos em 2002. Conta a biografia oficial que “seu
sonho (de criar um albergue) se fez realidade em 1995, no dia de seu aniversário,
com recursos próprios e auxílio de funcionários”.
Ainda: “O albergue Casa Maria da Conceição levou o nome de
sua mãe, falecida por falta de atendimento médico”. Nomeado
para o Tribunal de Contas do Estado, Osório abdicou do sonho, passando
a Casa a outras mãos. Primeiro foi o jovem deputado Márcio Biolchi,
26 anos, 36 mil votos. Fontes de gabinete afirmam que Biolchi prometeu em campanha
a criação do albergue. Mas acabou preferindo algo que tivesse sua
marca desde o início: hoje mantém a Casa de Apoio à Saúde.
Com a saída de Biolchi, três outros deputados assumiram a Casa Maria
da Conceição: Edson Brum, Fernando Záchia e Mendes Ribeiro
Filho (deputado federal), PMDB.
| Foto: Tânia
Meinerz |
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Fachada
de albergue
localizado em Porto Alegre
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Todos os albergues citados nesta reportagem, com capacidades que variam de 35
a 140 pessoas, oferecem basicamente o mesmo tipo de auxílio: alojamentos
coletivos e transporte rodoviária/hospital/pousada. Associações
ou fundações, seus recursos são doações de
particulares, principalmente dos próprios deputados, garantem eles. E
nada é pedido em troca. Muito menos votos. Mas eles vêm, de qualquer
forma.
Os legisladores benemerentes
“ Não
sou hipócrita,
sei que isso me traz votos. Mas eu faria
mesmo que não trouxesse um sequer”, afirma o deputado Giovani
Cherini, PDT, fervoroso admirador de Leonel Brizola. Cherini criou as Casas
Solidárias
em Porto Alegre, Santa Maria e Passo Fundo. Defensor da ecologia e das terapias
alternativas – como complemento das tradicionais, ressalva –, ele
pratica semanalmente em suas casas as Rodas de Cura, sessões coletivas
que incluem princípios do xamanismo, reiki (cura pela imposição
das mãos) e outras formas de tratamento da escola holística.
Nelas,
o deputado ou um assessor próximo convida os participantes, em círculo à sua
volta, a dizer orações e mensagens de esperança. Cherini
conta que tudo é mantido por ele. “A primeira geladeira da pousada
eu tirei da minha casa.”
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Foto:
Tânia Meinerz

Cherini: cura pela
imposição das mãos |
Sobre os recursos financeiros para manutenção da Casa, o deputado
diz serem reduzidos por não haver despesas com pessoal, pois os funcionários
são CCs do seu próprio gabinete. Além disso, apesar de não
oferecer alimentação aos seus hóspedes-eleitores, costuma
disponibilizar os alimentos não-perecíveis que ele próprio
recebe em troca de palestras que concede no interior.
Já o deputado Iradir Pietroski, PTB, atual presidente da Assembléia,
não quis falar ao Extra Classe nas várias tentativas de entrevista,
alegando outros compromissos. Dono de albergues em Porto Alegre e Passo Fundo
desde 1993, ele já chegou a afirmar que uma das suas maiores conquistas
foi livrar-se do carimbo de clientelista e assistencialista. A declaração
foi feita em agosto de 2003, quando rejeitou o Projeto de Resolução
10/03, do deputado Sérgio Stasinski, PT, que tratava da regulamentação
da concessão de auxílios e subvenções sociais previstos
em dotação orçamentária da Assembléia Legislativa. “Votarei
contra esta proposta que nos retira o direito de decidir sobre a aplicação
dos recursos previstos em lei”, disse na época.
| Foto: Tânia
Meinerz |
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Covatti
cumprimenta seus
possíveis eleitores |
E há ainda o recordista de eleitores entre os deputados gaúchos.
Vilson Covatti, PP, mais de 94 mil votos em 2002. As Pousadas Covatti, em Porto
Alegre, Passo Fundo e Ijuí, teriam surgido porque o deputado é devoto
de Nossa Senhora Aparecida, a quem fez promessa depois do acidente que o deixou
72 dias na UTI e um ano em cadeira de rodas. Ele criou em 94 a Fundação
Nossa Senhora Aparecida, instituição a que pertencem as Pousadas,
e afirma que todas as suas contas são, como é de lei, disponibilizadas
ao Ministério Público. “Fazer o bem sem olhar a quem, esse é o
meu lema”, salienta Covatti, que avisa: “Se alguém vier me
pedir alguma vantagem aqui no gabinete, eu não atendo. Não sou
assistencialista”.
Todos os deputados reafirmam a imensa gratificação pessoal que
sentem com seus projetos benemerentes. Ainda assim, o tema albergues causa desconforto,
sempre associado a interesses eleitoreiros. O troca-troca e partilha de albergues
entre correligionários é visto com ironia por outros parlamentares,
que questionam tanta sintonia no altruísmo. Já surgiram denúncias,
não comprovadas, de que deputados estariam burlando filas de marcação
de consultas do SUS para privilegiar seus albergados. Na época, Sanchotene
Felice, PSDB, afirmou: “São denúncias irresponsáveis
contra aqueles que evitam que as pessoas morram nas filas de espera”.
As misérias de cada hóspede-eleitor
Alguns albergues se chamam casa, outros abrigo, outros pousada. Mas todos têm
algo em comum. Mate o dia inteiro, passando de mão em mão. Regras
para todos: não se fuma, não se bebe, nem se namora. Às
22 horas, silêncio. Todos os hóspedes-eleitores têm beliches,
de cobertas baratas e bem limpinhas dobradas iguais. Na sala comum de estofados
gastos se assiste à TV, sempre à novela. E em todos, pequenos oratórios
improvisados, cujos santos de devoção variam. Às imagens
de Nossa Senhora Aparecida, Santo Antônio ou Maria da Conceição,
cada hóspede acrescenta um santinho, uma oração, um bibelô de
R$ 1,99.
| Foto:Tânia
Meinerz |
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Enoci
Oliveira:
drama em
família |
Não é a casa da gente, mas também não é uma
casa de ninguém, como os hotéis. Nas estantes, fotos de pessoas
reais, bebês, grupos alegres. Há também fotos dos deputados
doadores, sozinhos e sorridentes em pôsteres e adesivos. Quem vive lá,
para cuidar e organizar, não são os deputados, mas pessoas de sua
confiança, gente muito especial.
Como Irena, 52, uma morena bonita que mora e trabalha na Pousada Covatti. Auxiliar
de enfermagem, é uma pérola de eficiência que o deputado
encontrou depois de muito procurar. Irena gosta de gente e do que faz, canta
músicas gauchescas que ela mesma compõe e declama sem inibições
seu obituário, que ela própria escreveu. Já escolheu também
seu ataúde e túmulo. Parecem precauções obsessivas,
mas a morte muitas vezes entra em seu dia-a-dia. A doença que predomina
entre os hóspedes é o câncer. “Se acontece com um,
os outros ficam desesperados. Quando ligam do hospital, sou eu que aviso o acompanhante
e ajudo nas providências.”
Outro que ama seu trabalho é Mario de Oliveira, 54, há nove na
Casa Solidária de Porto Alegre, do deputado Cherini. Antes ele era cabeleireiro
em uma badalada estética da cidade. “Eu lidava com a beleza, hoje
lido com a doença. E é muito mais gratificante.” Ali, os
três irmãos Perondi, naturais de Marema, em Santa Catarina, encontraram
abrigo e simpatia enquanto se revezam nos cuidados com a mãe, internada
numa UTI. “Ela nos deu tudo, agora é a vez de devolver”, afirma
Agostinho Perondi, que veio do Mato Grosso, onde vive há 23 anos, deixando
família e trabalho. Poucos fariam isso, ainda mais que em Marema a estiagem
secou as modestas lavouras dos Perondi. Eles chegaram à Casa por sugestão
do amigo Neri Chitolina. Neri tem sua própria odisséia, e cicatrizes
para prová-la. Quatro meses depois de uma intoxicação coletiva
no refeitório do frigorífico em que trabalhava, em Chapecó,
começou a sofrer de infecções no sistema digestivo que lhe
custaram anos de cirurgias e internações em Porto Alegre. Os médicos
disseram que era cirrose. Ele acha que foi a comida estragada. Tanto viveu e
sofreu por aqui, que Porto Alegre virou seu lar.
| Foto:
Tânia Meinerz |
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Propaganda
política é comum
nas pousadas
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Enquanto isso, na Casa Maria da Conceição, instituição
atualmente mantida em parceria por três deputados, a voluntária
Jô de Oliveira, que chegou há quatro meses e já é amada
por todos, causa comoção ameaçando ir embora. “Só pra
implicar”, porque adora estar ali. Entre os mais antigos, João da
Luz, ex-pedreiro, de São Luiz Gonzaga. Perdeu as duas pernas num acidente
de trem. Cadeira de rodas, já teve cinco. A última, ganhou de uma
vizinha. Sabe que tem gente que se nega a ajudá-lo quando precisa subir
uma calçada? “Dizem que estão com pressa.” Nesse dia, é o
cozinheiro: ensopado de aipim no cardápio.
José Marino Vargas, 61 anos – “pintor e construtor, gosto
muito de rebocar também”–, tem uma sinusite crônica
que comprometeu seu olho direito. Por medo de tomar friagem, usa um gorro de
lã com um boné por cima. “Tem dia que ponho três chapéus.”
Brincando na sala está Amanda, 6 anos. Ela operou um tumor na cabeça;
agora faz quimioterapia e radioterapia. E se distrai pintando as unhas do pé com
esmalte nacarado e estrelinhas. Felipe, dez meses, brinca com um pequeno objeto. É uma
prótese ocular, que ele aprendeu a tirar da cavidade do olho. “Tenho
que cuidar para ele não colocar na boquinha”, reclama a mãe,
Sandra de Souza. O bebê sofre de retinoblastoma, um tipo de câncer
que afeta os globos oculares. Sandra, que é adventista, está rezando
muito, pois apareceram dois cistos no outro olhinho. “Se Deus quiser, ele
vai ficar com esse olhinho, para se defender, para estudar.”
| Foto: Tânia
Meinerz |
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João
perdeu as pernas em acidente |
Nessa casa, certas palavras, a “daquela doença”, custam a
ser pronunciadas. Eloci Oliveira, porém, não usa eufemismos. “Eu
e meu filho somos HIV positivo.” Ela veio de São Francisco de Paula
e dormiu na rodoviária até saber da Casa. Mas não veio só pelo
tratamento. O marido, também HIV positivo, está preso em Porto
Alegre. Mesmo assim, ela quer um lar, uma família. Escreve uma carta para
ele, Sebastião. A carta diz: “Você precisa de mim e eu de
você. Preciso de suas palavras de conforto e carinho. Vamos criar nosso
filho, os dois juntos. Cuidar da casa, do piá e um do outro até morrer.
Sem raiva, sem remorso, sem estupidez”. Nos albergues, as pessoas sonham
como todas as outras.
| Política feudal em pleno
século XXI |
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Segundo o filósofo,
ensaísta e professor Ricardo Timm de Souza, da PUCRS, autor
de Ética como fundamento – uma introdução à ética
contemporânea, o termo “política” deriva
do grego “pólis”, que designa uma comunidade
de homens livres e iguais. “Portanto”, afirma ele, “temos
uma indicação muito clara de que este tema não
se refere ao favorecimento de algumas pessoas ou grupos...”.
No entanto, o assistencialismo que permeia a prática política
brasileira, de conotações feudais, contraria essa
proposição de igualdade. Ele cria duas categorias
de homens: aquele que tem o poder, e barganha com isso, e aquele
que solicita seus favores. Observa o autor do livro citado que: “Viver
na cidade e não viver eticamente significa aquilo que temos
visto a cada dia nas grandes cidades, bem como na situação
micropolítica e macropolítica do mundo. Porque se
pensou que se podiam estabelecer, cientificamente, estruturas políticas
que, por alguma espécie de geração espontânea,
dessem lugar ‘naturalmente’ a relações éticas
necessárias, é que vivemos os atuais dilemas (como
exemplos contundentes, a violência e a corrupção)...”.
Para Timm, relações desequilibradas não podem
ser corrigidas por paliativos; a sociedade deve ser “refundada” sobre
bases humanas, e não sobre bases procedimentais que oscilam
conforme a capacidade de negociação ou a força
de uma das dimensões disputantes. Esse pressuposto, evidentemente,
não exclui nenhum cidadão do exercício da
participação política e da responsabilidade
social. Ainda segundo o autor “é claramente perceptível
que o exercício da responsabilidade social de todos e de
cada um se constitui na possibilidade de concretização
de uma sociedade onde as tensões causadas pela injustiça
estrutural possam dar lugar à construção de
um futuro socioecológico viável”.
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"No entanto, o assistencialismo
que permeia a prática política brasileira, de conotações
feudais, contraria essa proposição de igualdade. Ele cria
duas categorias de homens: aquele que tem o poder, e barganha
com isso, e aquele que solicita seus favores."
Ricardo Timm de Souza
Filósofo, ensaísta e professor da PUCRS |
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