Sem
candidaturas postas além do
projeto de reeleição do presidente Lula
e da decisão do PMDB de concorrer com candidato
próprio,
a próxima campanha eleitoral promete ser pródiga
em alianças, conchavos, traições
e acomodações de interesses dos partidos
e das velhas e novas lideranças políticas.
Na falta de um projeto de mudanças estruturais
para o país, uma vocação da classe
política brasileira que parece ter contaminado
essa primeira experiência do PT no poder federal,
o debate já dá sinais de que ficará restrito à política
partidária. No caminho de Lula para a reeleição,
os obstáculos se multiplicam. Além de Anthony Garotinho,
Foto:
Renê Cabrales
que já desponta
como o principal adversário, Lula enfrenta insurgentes do
PMDB como o senador Pedro Simon, que defende a candidatura do governador
gaúcho Germano Rigotto ao Planalto, e uma rebelião
de setores insatisfeitos do PT.
Gilson Camargo
umprir as projeções de
crescimento econômico e
produzir ações de impacto social para sensibilizar a parcela assalariada
do eleitorado, que é quem decide uma eleição, além
de abafar eventuais escândalos políticos que possam desgastar a
imagem do governo são os outros desafios de Lula até outubro de
2006. A avaliação é do doutor em Sociologia e Ciências
Políticas pela Universidade de São Paulo, Flávio Silveira,
diretor da Meta Instituto de Pesquisas. “O desgaste do PT poderá ser
abafado por uma série de compensações. Se a economia estiver
bem é muito provável que esse desgaste não adquira uma importância
muito grande”, analisa. Segundo ele, os setores médios da sociedade,
parcela do eleitorado com maior nível de escolaridade que inclui o funcionalismo
público, tendem a retirar o apoio ao governo à medida que não
estão ocorrendo mudanças de grande impacto. “O governo tem
uma série de ações em andamento, mas nada de grande impacto
até agora. As reformas foram incompletas e geraram descontentamento. Essa
base de apoio cresceu porque votava por uma concepção de mudança
social. Uma vez que o governo não está sendo ‘mudancista’,
criou uma frustração, decepcionou alguns segmentos. Os funcionários
públicos se mostram muito incomodados”, acrescenta. Quem acaba decidindo
uma eleição, observa Silveira, é a parcela do eleitorado
com pouca escolaridade, movida por questões mais imediatas como a salarial
e os programas assistenciais.
As expectativas geradas nesses primeiros anos de governo estão conferindo
ao PT um status de “partido de grotões”, forte no interior
e fraco nas capitais, diz Flávio. “Se a eleição fosse
agora, o desgaste provocado no PT pelo exercício do poder seria pequeno,
mas ele tende a crescer no decorrer da campanha a exemplo do que ocorreu com
o PMDB logo depois do fim do regime militar. O partido era fortíssimo,
mas sofreu uma ‘arenização’”. Por conta desse
movimento para a direita, em direção à Arena, o PMDB acumulou
um desgaste “que se mantém até hoje e se reflete no número
de deputados e senadores que o partido perdeu ao longo das últimas décadas”.
Além de uma provável aliança do PT com o PMDB na indicação
do candidato a vice de Lula, Flávio projeta uma coligação
entre PSDB e PFL. A decisão sobre coligação com Lula ou
candidatura própria deve ser definida na convenção do PMDB,
em junho de 2006. “O problema do PMDB é que o partido tem diversas
realidades regionais e não tem um nome nacional. A exemplo do vice de
Lula, José Alencar, como se trata de um vice, poderia ser alguém
de peso político equivalente”, pondera. “Pode ser a hora de
termos um gaúcho na disputa presidencial e Rigotto é o mais indicado
para assumir esse papel”, propôs o presidente estadual do PMDB, o
senador Pedro Simon, ao lançar o nome do governador do RS durante encontros
com filiados pelo interior do Estado. O próprio governador defende a sua
candidatura para o PMDB nas prévias da escolha do representante do partido
na disputa de 2006.
Farinhas diferentes, mas
no mesmo saco
Para a deputada
federal do Psol, Luciana Genro, a polarização entre
petistas e tucanos nas eleições é falsa. “O
PT e o PSDB são farinhas de origens diferentes que foram
parar no mesmo saco. São irmãos siameses”,
ironiza Luciana, expulsa do PT junto com outros parlamentares por
votar contra as reformas. “Com a candidatura da senadora
Heloísa Helena, o Psol quer mostrar que existe um outro
caminho para o Brasil que não esse escolhido pelo Lula,
o mais fácil, mais cômodo, que prefere se aliar ao
capital financeiro a enfrentá-lo. Para Luciana Genro, é necessário
mudar os parâmetros de estabilidade econômica do país. “O
governo Lula se transformou numa derrota para a classe trabalhadora
ao se tornar instrumento para os interesses neoliberais. Vale a
pena ganhar a eleição se for para sucumbir?”
Sobe a tensão pré-campanha
Rigotto não descarta a
possibilidade de concorrer ao cargo e vê com naturalidade a especulação
de seu nome no Estado e em algumas regiões do país.
Outro aspecto que fez subir a tensão pré-campanha é a batalha
pela presidência nacional do PT. “Sabemos que governar é difícil,
mas o governo está descompen-sado. Essa política só trouxe
derrotas ao partido. Não conseguimos avançar na reforma política
nem aprovar a tributária. A reforma da Previdência ficou incompleta”,
dispara Raul Pont, da Democracia Socialista, que se lançou candidato ao
diretório nacional no final de abril. Para o deputado e ex-prefeito de
Porto Alegre, o PT tem que ser propositivo e manter autonomia em relação
ao governo. “O diretório nacional virou um órgão homologatório”,
critica. Pont vai rivalizar com a deputada federal Maria do Rosário, do
Movimento PT e com Valter Pomar, da Articulação de Esquerda. “Nesse
processo de escolha da direção nacional do PT, estabelecemos um
pacto de unidade pela reeleição”, compara a deputada.
Foto: Tânia
Meinerz
Os
três candidatos à presidência do PT
num momento amistoso em 2004
Para Maria do Rosário, as alianças são necessárias
para governar, mas o partido “não consegue dar conta da vontade
das classes dominantes de tomar o poder”. Para Rosário, a participação
do PMDB no governo não poderia estar condicionada às alianças
nos Estados, mas vinculada a um projeto nacional. “O leque de alianças
deve ser pautado segundo critérios. É certo que temos que dialogar
com o PMDB. Já o PP e o PFL são partidos que estiveram do outro
lado, estão identificados com o que há de mais retrógrado”,
compara. A parlamentar afirma também que uma experiência como essa,
de governar o país, exigiria solidariedade e compreensão pela complexidade
das relações políticas e econômicas existentes.
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