Ano 10 - nº 91
Maio 2005



Luis Fernando Verissimo:
Depois do enterro, as três filhas ficaram lembrando coisas da dona Nininha.
– Lembra quando ela quis olhar atrás das orelhas do Saul?
Helena, a filha mais velha, tinha levado o namorado Saul para a mãe conhecer. E a dona Nininha insistira em...




Nei Lisboa:
Ainda não se sabe qual vai ser a declaração do Lula para o próximo dia das mães, mas a correria entre os assessores já é grande, assustados com a possibilidade de ele fazer alguma referência a traseiros ou lembrar novamente a sua...



Elisa Lucinda:

Foi uma noite profunda. Deve ser assim o sono da morte. Abri os olhos e doeu abrir os olhos. Uma luz quente mostrava uns panos num tom que tinha a maior cara do que eu sempre pensei que fosse a cor azul. Não é que eram minhas cortinas? As cortinas do meu quarto, Mãe do céu!





Dona Nininha no céu

epois do enterro, as três filhas ficaram lembrando coisas da dona Nininha.
– Lembra quando ela quis olhar atrás das orelhas do Saul?
Helena, a filha mais velha, tinha levado o namorado Saul para a mãe conhecer. E a dona Nininha insistira em olhar atrás das orelhas do Saul. Dizia que se sabia tudo sobre um homem olhando atrás das suas orelhas. Sujeira atrás da orelha era sinal de desleixo e, por alguma razão, de falta de ambição. A Helena, horrorizada, tivera que empurrar o Saul, que concordara com a inspeção, para longe da mãe, e ao mesmo tempo pedir às irmãs:
– Segurem essa mulher!
Helena casara com o Saul, depois de jurar para a mãe que ele não tinha sujeira atrás da orelha. Mas a dona Nininha nunca se convencera. E ele não era, mesmo, muito ambicioso.
– O que vocês acham que ela vai dizer pra Deus quando se encontrarem?
As três ficaram pensando. Foi Hilda, a do meio, que sugeriu a frase que dona Nininha diria quando visse Deus pela primeira vez.
– Há quanto tempo esse camisolão não vê um sabão?

Ana Paula
Esse negócio de impressionar namorada... Quando a Carol perguntou pro Daniel:
– E essa cicatriz na testa?
O Daniel não disse que fora uma queda na banheira quando ele era pequeno. Disse:
– Briga.
– Briga? Você?
– É. Faz tempo.
E elaborou. Brigara para defender uma menina. Uma namorada. Pensou num nome. Ana Paula. Sempre gostara do nome Ana Paula. Quando a Carol perguntou como se chamava a namorada que ele brigara para defender, estava com o nome pronto.
– Ana Paula.
– Você gostava dela?
– Gostava. Já faz tempo.
– Como foi a briga?
– Nem lembro mais. Eram dois.
– Você brigou com dois para defender a Ana Paula?
– É.
E o Daniel continuou a inventar. Contou como era a Ana Paula. Morena, cabelo escorrido. Fazia balê. Isso, fazia balê. Tinham tido um caso forte. Paixão mesmo. Pela Ana Paula ele enfrentaria três. Quatro. Um batalhão.
– Ela era mais bonita do que eu?
De repente, ele tinha a Ana Paula inteira na cabeça. De biquíni. Não, de vestido. Linda. Sorrindo para ele, seu herói. Agradecendo a sua bravura. A mulher mais bonita que ele jamais vira ou imaginara.
A Carol interpretou o silêncio dele como um “Sim”. Ainda perguntou se ele brigaria para defendê-la como tinha brigado para defender a Ana Paula. Ele continuou em silêncio. Precisava ser sincero.
– Hein? – insistiu a Carol.
– Você quer que eu minta?
A Carol levantou-se e foi embora, não sem antes esborrachar o sorvete de casquinha (flocos) que tinha na mão contra a testa do Daniel. Bem em cima da cicatriz.
O Daniel nem limpou a testa. Continuou onde estava, pensando na Ana Paula. O sorvete escorrendo pelo seu rosto e ele pensando Ana Paula, Ana Paula. Ela ainda fazia balê? Não, fazia trabalho social. Ensinava balê em favela, isso. Tinha o nariz da Nicole Kidman e um jeito doce de dizer “Danielzinho”. E covinhas. Decididamente, covinhas.




Gilson Camargo

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