Promotoria investiga desvio de dinheiro
e caixa dois na
Urcamp de Alegrete
A comunidade acadêmica da Universidade da Região da
Campanha e Fronteira Oeste (Urcamp), no Campus de Alegrete, está vivendo
momentos de turbulência desde o início de março
por conta do surgimento de indícios de fraude contábil
e desvio de dinheiro. Um escândalo financeiro que envolve
a direção do Campus e a tesouraria acabou em denúncia-crime
no Ministério Público a partir de constatações
decorrentes de inquérito administrativo e de sindicância
promovidos pela Reitoria de Bagé, que interviu no Campus,
desligando a tesoureira e substituindo os membros da direção
local. O fato provocou manifestações de estudantes
e tem mobilizado a atenção da comunidade universitária
e da sociedade alegretense.
(No dia 16 de maio, quando a edição
em papel do EC já circulava, uma ação do MP com a Polícia Federal,
apreendeu
documentos e computadores nas residências do ex-diretor do
campus Mário Thompson Flores e da ex-tesoureira Tânia Nair
Batista, em Alegrete. Um grande contingente de policiais armados
de
sub-metralhadoras participaram
da operação "cinematográfica", segundo moradores próximos.
- NE.: Atualização em 17/06/2006 - )
Por César Fraga, de Alegrete
udo
começou bem antes, mas foi em 13 de março, quando
a Reitoria da Urcamp emitiu portaria criando uma comissão
de sindicância para investigar irregularidades na tesouraria
do Campus de Alegrete a partir de denúncias de funcionários
do próprio setor, que o caso começou a vir à tona.
Supostas irregularidades já haviam sido denunciadas por
professores ao Sinpro/RS e repassadas à Reitoria, durante
negociações, ainda em 2005.
Integraram a comissão de sindicância Lúcia
Regina Bolson Loebler, Carlos Henrique Silveira Hens (que assumiu
a tresouraria) e Jacinta Angelina Veiga, que preside a OAB local.
A equipe teve assessoramento da Empresa Juenemann – Auditores
e Consultores, contratada pela Urcamp para auxiliar no projeto
de rees-truturação e recuperação financeira
da instituição.
A partir de amostragens, a comissão constatou a existência
de desvio de dinheiro dos cofres da FAT/Urcamp, o que culminou
na demissão por justa causa da tesoureira, Tânia Nair
Batista, no dia 10 de abril, e no pedido de afastamento do cargo
de diretor do Campus, do pró-reitor Mário Thompson
Flores, nos dias seguintes. “A partir de discrepâncias
com cheques de alunos percebidas pelo Campus Central e de alertas
de funcionários, demos início a um inquérito
interno, sendo instalada uma sindicância para apurar irregularidades
na tesouraria do Campus de Alegrete. A apuração feita
resultou primeiro no afastamento temporário e depois total
da tesoureira. Agora queremos reaver os recursos desviados da Universidade”,
diz o reitor Arno Cunha.
O caso foi parar no Ministério Público Estadual de
Alegrete e está nas
mãos do procurador de Justiça Rodrigo de Oliveira (leia entrevista
abaixo), que decidirá com base no que será apurado pela abertura
ou não de inquérito criminal até o dia 10 de maio. (Nota
do editor em 15/05/2006: após
o fechamento da edição em papel, o MP prorrogou o prazo
por mais 30 dias)
Os docentes procurados por nossa reportagem preferiram não se manifestar
publicamente sobre o assunto, mas, de acordo com o diretor do Sindicato dos Professores,
Marcos Fuhr, “o fato evidencia a fragilidade dos mecanismos de controle
que vigiam na Universidade até bem pouco tempo em função
da administração multicampi descentralizada. O que começa
a ser revertido, inclusive, pela iniciativa acertada da Reitoria de apurar irregularidades
e buscar o ressarcimento do que foi desviado”.
Os cheques da polêmica
O Jornal Extra Classe teve acesso a cópias de alguns desses documentos
no escritório do advogado Martin Jorge Rizk, que representa Tânia,
onde foram mostradas cópias de cheques dos dois últimos pró-reitores
administrativos que teriam sido utilizados para saldar empréstimos com
a Universidade e que nunca teriam sido descontados. Os valores ultrapassam os
150 mil reais e datam de 2001 e 2002. Além dos cheques, foram apresentadas
várias notas fiscais de fornecedores que teriam sido pagas com recursos
do caixa dois.
| Foto: Comunicação
Social/Sinpro/RS |
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Rizk
critica o Ministério Público |
O advogado critica o Ministério Público, que, mesmo após
petição colocando a ex-tesoureira à disposição
para esclarecimentos e fornecimento de documentação, a mesma jamais
teria sido chamada, tampouco os documentos solicitados, uma vez que já são
de conhecimento público devido às reportagens locais. Martin alega
que o MP, conforme artigo 66 do Código Civil das Fundações, é responsável
pela fiscalização das mesmas, e deveria ter percebido essas irregularidades
antes, mas agora reluta em apurar.
CONTRAPONTO – A pró-reitora acadêmica da Urcamp, Virgínia
Brancato de Brum, que dirigiu o
Campus de Alegrete durante oito anos, entre 1996
e 2004, rebate as acusações da ex-tesoureira de que esta agira
sob sua orientação para realização de um caixa dois. “Isso
simplesmente não é verdade.” Quanto aos cheques, contrapõe: “Os
meus cheques são pessoais, dados como garantia ao Banrisul para a folha
de pagamento e datam de 2001 e 2002 e faziam parte do arquivo da tesouraria.
Não há nada de errado com eles. A situação é inversa,
trata-se de eu emprestar minha credibilidade para a Universidade poder honrar
folhas de pagamento e não de um empréstimo. Tanto que os cheques
são nominais e cruzados ao Banrisul. O que está errado é o
fato de documentos que são da Universidade estarem sendo usados para infâmias”.
A pró-reitora alega que durante sua gestão o
Campus nunca foi deficitário
e que Tânia só trabalhou à frente da tesouraria durante os últimos
três meses da sua gestão, sendo mantida no cargo pela gestão
posterior. “Essas informações têm o objetivo de tirar
o foco do que realmente está sendo investigado pelo Ministério
Público, como uma medida desesperada de quem quer se defender acusando”,
conclui Virgínia.
| Foto:
Comunicação Social/Sinpro/RS |
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Ato
realizado no dia 18 de abril
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| A versão de
ex-tesoureira |
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Em reportagem
do Jornal Em Questão, de Alegrete, publicado no dia 15 de
abril, a ex-tesoureira rebateu as denúncias que lhe foram
imputadas, alegando existir “dois caixas dois” na instituição,
e que isso sempre foi de conhecimento do Campus Central. Segundo
ela afirmou ao Jornal, a prática existia desde a gestão
do reitor anterior e que sempre trabalhou sob as ordens do pró-reitor
Mário Thompson Flores e da ex-diretora geral do Campus,
Virgínia Brancato de Brum, que atualmente é pró-reitora
acadêmica no Campus Central. De acordo com as afirmações
da ex-tesoureira, o dinheiro arrecadado nas matrículas dos
cursos intensivos, palestras, seminários, taxas de biblioteca
e matrículas do colégio Raymundo Carvalho, também
pertencente à FAT/Urcamp, estaria contabilizado “por
fora” e não era repassado para Bagé, bem como
o destino, que teria como alvo o pagamento de fornecedores e outras
despesas locais. Ela também afirma possuir farta documentação
para comprovar suas afirmações e diz que membros
do alto escalão da Urcamp fizeram empréstimos que
nunca foram ressarcidos à instituição e que
podem ser provados por meio de cheques, inclusive de dirigentes,
que estariam em seu poder.
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Relação deteriorada
Nossa reportagem tentou ouvir a ex-tesoureira pessoalmente, mas ela indicou seu
advogado para dar suas declarações à imprensa. Ele, por
sua vez, confirma as alegações de sua cliente sobre o caixa dois
e diz que Tânia se sente um arquivo vivo e que teme por sua segurança.
O advogado também dá a entender que o rompimento da relação “próxima” existente
entre sua cliente e o diretor licenciado do
Campus, Mário Thompson Flores,
tenha contribuído para que ela queira “abrir o jogo”, principalmente
depois que Tânia publicamente atribuiu a Flores responsabilidade pela morte
de sua mãe. O ex-diretor do
Campus teria enviado, segundo ela, um carro
oficial da universidade para buscar documentos (as comprovações
de caixa dois) na residência da ex-tesoureira em um sabido momento de ausência
desta por problemas médicos. No local, estava apenas a mãe de Tânia,
que sofria de graves problemas cardíacos e teria morrido em decorrência
do tensionamento causado pela visita.
A relação entre Tânia e Mário já estava deteriorada
pelo fato da amizade entre ambos ter azedado meses antes da fraude vir à tona,
o que se agravou pela morte da mãe da ex-tesoureira. De acordo com Rizk,
as conversações entre Tânia e Mário vinham normais
até então.
Apuração total
O pró-reitor de Administração do Campus Central de Bagé,
João Paulo Lunelli, afirma estar claro que essas declarações
unilaterais à imprensa de Alegrete mostram a linha de defesa, que aposta
na divisão da culpa e na alegação de que ela agia sob ordens
superiores. “Tivemos conhecimento do caixa dois pela imprensa de Alegrete”,
afirma. Segundo Lunelli, o importante é que o MP apure até as últimas
conseqüências e que os culpados sejam punidos, seja quem for, e a
Universidade possa reaver de alguma maneira os recursos desviados. No que se
refere aos cheques dos dois ex-diretores do
Campus de Alegrete, Lunelli
confirma tratar-se de procedimento normal. Seriam cheques ao Banrisul dados como
garantia
de operações bancárias e que não haveria nada de
irregular, sendo prática normal na instituição.
Nova administração quer retorno à normalidade
A nova administração do
Campus e os membros da comissão
de sindicância não querem dar maiores detalhes sobre o que foi apurado. “Foram
levantadas várias situações de irregularidade pela comissão
de sindicância e pelo inquérito administrativo. Atualmente o caso
está no MP, fora da alçada da Universidade. Nossa função
agora é dar continuidade ao processo do Campus como prestador de serviços
a uma clientela de 1.400 alunos nos 11 cursos e na escola de Ensino Fundamental
e Médio”, pondera a nova pró-reitora administrativa Ely Silveira
Gonçalves Costa, no cargo desde o dia 11 de abril. “Também
queremos uma relação transparente com a comunidade, professores
e alunos”, completa.
O ex-pró-reitor Mário Thompson Flores foi procurado por nossa
reportagem e aceitou falar sobre o assunto, porém no momento da entrevista
limitou-se a entregar ao EC uma nota por escrito e assinada, em que dizia estar
se afastando do cargo “a fim de que a Universidade possa ter a total liberdade
para a apuração dos fatos”.
Alunos pedem transparência
Um grupo de alunos da Universidade, de forma independente, pois não contaram
com apoio do DCE, realizou dois atos públicos cobrando da instituição
maior transparência na divulgação dos fatos. Os alunos argumentaram
que por diversas ocasiões procuraram tanto os representantes da instituição
como sua entidade representativa, e não obtiveram maiores esclarecimentos,
o que só veio a ocorrer após a substituição da direção
do
Campus. No último ato, realizado na noite do dia 18 de abril, os alunos
cobraram das autoridades da Universidade a apuração dos fatos até as últimas
conseqüências e reiteraram o pedido de transparência na relação
da administração com os alunos e comunidade acadêmica. Os
documentos que estão de posse do advogado da ex-tesoureira foram oferecidos à comissão
de alunos para vistas no dia 4 de maio (data de fechamento desta edição).
MP não quer
ser instrumentalizado
O promotor de Justiça Rodrigo de Oliveira fala sobre o caso: |
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Extra
Classe – O
que existe de concreto no caso de desvio de dinheiro dos cofres
da Urcamp denunciado ao MP?
Rodrigo de Oliveira – O que chegou ao MP foi uma documentação
enviada pela Urcamp, resultante de um processo de apuração
feito pela própria Universidade. Houve uma comissão
de sin-dicância seguida de inquérito administrativo
para apurar o que em tese pode vir a configurar com certeza a prática
de um crime no âmbito da tesouraria e no setor de contabilidade
da Urcamp de Alegrete.
| Foto:
Comunicação Social/Sinpro/RS |
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EC – O que o MP está fazendo de
objetivo sobre o caso?
Oliveira – Foi instaurado um Procedimento Investigatório
Criminal (PIC) no dia 7 de abril, poucos dias depois da denúncia
ter chegado até nós. Já foi determinada a
coleta de uma série de informações. Essa documentação
já foi analisada, agora estamos na fase de verificação
desses indícios e de ouvir os envolvidos.
EC – E as declarações da ex-tesoureira para
a imprensa local de que havia um caixa dois de conhecimento da
administração central da Urcamp?
Oliveira – Fatos novos estão surgindo. Temos acompanhado,
inclusive pela imprensa que pessoas supostamente envolvidas têm
feito movimentos e manifestações sobre o caso. Isso
certamente levará à investigação desses
fatos, ampliando o objeto inicial de nossa ação no
sentido de aprofundar as investigações.
EC – Ela também alega que, além de ser de
conhecimento da adminsitração da Urcamp, teria sido
orientada a agir assim por seus superiores, os dois ex-diretores
do Campus de Alegrete.
Oliveira – É importante que se entenda que os ritos
da Justiça sejam seguidos e que tudo ocorrerá a seu
tempo. É preciso tomar cuidado para que a investigação
não perca o rumo por pressão seja da imprensa, seja
dos envolvidos ou de quem quer que seja. Quero dizer com isso,
que o MP não pode ser instrumentalizado a favor dos interesses
desse ou daquele envolvido no caso.
EC – Em tese, baseado no que diz a ex-tesoureira e nas evidências
apresentadas pela Universidade, que crimes foram cometidos na Urcamp/Alegrete,
sempre lembrando que os indícios levam a crer que ela ou
membros da administração anterior, talvez ambos,
supostamente tenham se beneficiado de um esquema de contabilidade
paralela?
Oliveira – O que observo a princípio, sem um comprometimento
jurídico maior de dizer algo em definitivo sobre o caso, é que
houve apropriação indébita. Ainda podem surgir
outros crimes e até mesmo outras pessoas envolvidas.
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