WANDERLEY DOS SANTOS
Uma nação sem bandeiras
Lançada em março
deste ano, a primeira edição
do livro Horizonte do desejo: instabilidade,
fracasso coletivo e inércia
social, do carioca Wanderley Guilherme
dos Santos, esgotou nas livrarias.
O tema, aparentemente banal, toca o
dedo na ferida das classes média
e alta que costumam creditar apenas
aos governos a causa de tanta miséria
e aponta pistas sobre as raízes
da manutenção da desigualdade
social no Brasil. A partir da análise
histórica sobre a evolução
da democracia no país, o cientista
político contesta suposições
comumente repetidas sobre os obstáculos às
mudanças sociais. Para Santos,
não é a ignorância
ou a falta de vontade política
que faz a população mais
carente se calar, mas os prejuízos
ainda maiores a que está sujeita
após a tentativa de mudar essa
realidade, caso ela falhe.
Graduado em Filosofia e com ph.D. em
Ciência Política pela
Universidade de Stanford (Estados Unidos),
Santos ocupa atualmente o cargo de
diretor do Laboratório de Estudos
Experimentais e de Pró-Reitor
de Análise e Prospectiva da
Universidade Cândido Mendes,
no Rio de Janeiro. Também é professor-pesquisador
do programa de pós-graduação
do Instituto Universitário de
Pesquisas do Rio de Janeiro e membro
titular da Academia Brasileira de Ciências.
O cientista político preferiu
não opinar quando o assunto
foi a política nacional atual,
e qualquer comentário sobre
o governo de Luiz Inácio Lula
da Silva e sua relação
com a perspectiva de mudanças
sociais no futuro foi evitado nesta
entrevista por telefone.
Por Clarinha Glock
Extra Classe – Por que não
acontece uma revolução no Brasil considerando os
problemas graves de miséria que existem? Seria porque as
pessoas são dóceis e aceitam a miséria?
Wanderley Guilherme dos Santos – Eu não me
pergunto por que não existe uma revolução,
a não
ser nos casos extremos, mas a minha questão é por
que não existem movimentos reivindicatórios normais
próprios de uma democracia, não necessariamente movimentos
de tomada do poder. Lemos nos jornais todos os dias sobre grupos
que se organizam e se manifestam para reclamar contra medidas que
acreditam ser negativas em relação a eles ou alternativamente
para fazer demandas positivas. Não obs-tante no Brasil nos últimos
20 anos ter havido um crescimento razoável no número
de organizações voluntárias, privadas, o número
de manifestações e de participação
sob toda forma, seja de abaixo-assinado ou de chamada para um comício
ou passeata, comparado com o nível de carências – e
também em comparação com outros países –,
deixa muito a desejar.
A minha pergunta é por que isso acontece. Uma das pistas
que eu exploro e que me parece bastante persuasiva é que
não se trata exatamente de conformismo da população.
Não é porque ela é dócil, mas porque,
ao contrário, ela é arguta e faz um cálculo
muito preciso dos custos implícitos da mobilização
e das reivindicações. Há os custos iniciais
de organizar a ação coletiva que para a população
carente são bem maiores do que para a população
mais rica: de fazer uma bandeira, faixas, transporte, comprar jornal
para se informar. Mas, além destes, que existem em todo
o mundo, há um custo extra no Brasil que é quando
os movimentos das classes subalternas não obtêm sucesso. É uma
espécie de vingança social. As populações
ou aqueles grupos que se mobilizaram para a ação
coletiva e que não obtiveram êxito pagam o preço
sob a forma de perda de emprego, perseguição e, inclusive,
em certas regiões do país como na faixa de fronteira
econômica do Centro-Oeste ou do Norte, pagam com a própria
vida. De modo que, enquanto nos países já estabilizados
o “fracasso” de uma ação coletiva – ou
seja, não conseguir o que desejar – é simplesmente
a manutenção do
status quo (continua tudo como antes),
no Brasil a situação piora.
Então, a razão pela qual o número
de manifestações no Brasil é inferior
ao que se esperaria é que existe uma carência
específica de proteção constitucional
em relação àqueles que se
utilizam do direito democrático de protestar.
Este custo é elevadíssimo. Não é por
conta de indiferença, apatia ou ignorância;
ao contrário, é um cálculo
racional muito arguto que faz com que as populações
subalternas só participem de uma ação
coletiva com um grau de segurança muito
elevado. De outro modo, não participam.
EC – E qual seria a saída então? É preciso
modificar a Constituição ou garantir
os direitos?
Santos – Entre outras coisas, há uma
responsabilidade enorme por parte dos governos – tanto
o Central, quanto os estaduais e locais – de
assegurar o cumprimento da Constituição
e garantir a proteção a essas
populações no direito de se organizar
e de manifestar sua opinião sem represálias,
desde que dentro das leis, como normalmente
acontece. Um dos problemas centrais de tudo
isso é o fato de que o Brasil, de certa
maneira, se desconstitucionalizou. Quero dizer
com isso que aquelas garantias fundamentais
dos direitos políticos e civis da Constituição
têm perdido vigência, valor e eficácia
ao longo das últimas duas décadas
em várias regiões do país.
O direito de ir e vir, de opinião e de
organização não vale na área
rural, nem nas áreas deterioradas urbanas
do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Recife,
de Belo Horizonte, onde quem determina quando
as coisas funcionam, quem pode sair, quem não
pode, é o tráfico. Lá a
Constituição não vale,
como não vale nas regiões de fronteira
ou nas terras devolutas no Norte do país
ou no Centro-Oeste. Isso é responsabilidade
fundamental das autoridades que são eleitas
e fazem o juramento de garantir e de proteger
a Constituição.
Os conservadores pensam que os movimentos populares
são antidemocráticos. Ao contrário,
um dos pontos principais das agendas dos movimentos
subalternos é o cumprimento da Constituição,
sem o quê estarão desprotegidos.
EC – Há alguma perspectiva de
mudança a curto prazo? Estamos em véspera
de eleições e com muitos escândalos
políticos. O senhor cita no livro a importância
da participação político-partidária.
Mas o que se ouve ultimamente é que as
pessoas vão votar em branco ou anular
o voto, porque não acreditam em partidos
ou políticos.
Santos – Não é o que tem
aparecido nas pesquisas. Isso se supõe.
O que acontece, e é normal no período
antes das eleições, é que
muitas pessoas ainda não têm candidato.
Quanto à desmoralização
dos políticos, comparativamente ao que
sempre foi, eu, pessoalmente, acho que essa
legislatura em particular é pessimamente
servida de parlamentares. Mas não confunda
a minha opinião com a da população
que, historicamente, pelas perguntas que os
institutos e os jornais fazem, dizem que os
políticos são péssimos.
Por enquanto, a única novidade é uma
reação grande da classe média
que sempre foi muito reagente ao noticiário
de imprensa. Fora daí, até agora
não surgiram indicadores de que tenhamos
nas próximas eleições resultados
diferentes das taxas históricas do país,
tanto do ponto de vista de votos válidos
quanto de abstenção, voto em branco
ou nulo. Por enquanto...
“A desfesa
da Constituição
e a exigência
de que ela
seja cumprida não é hoje
uma bandeira conservadora ou reacionária. É,
ao
contrário, uma bandeira quase
revolucionária das classes que
estão desprotegidas” |
|
EC – As eleições seriam
uma forma de tentar fazer esta mudança
e esta exigência de direitos. Ou não?
Santos – Sim, mas seria indispensável
que houvesse uma difusão da consciência
deste problema por parte dos agrupamentos que
têm inclusive melhores condições
de reivindicação, como são
exatamente as classes médias para cima.
Porque esta sempre foi uma bandeira muito chegada
ao conservadorismo – a salvaguarda da
Constituição – na suposição
de que os representantes das classes subalternas
estavam sempre querendo alterá-la. A
defesa da Constituição e a exigência
de que ela seja cumprida não é hoje
uma bandeira conservadora ou reacionária. É,
ao contrário, uma bandeira quase revolucionária
das classes que estão desprotegidas.
Que se cumpra a Constituição é uma
bandeira bastante progressista, eu diria.
EC – Hoje há um grande número
de voluntários e ONGs que estão
cada vez mais abordando temas sociais. Este é um
movimento legítimo de uma classe média
em busca de mudanças?
Santos – Também de classe média.
São organizações, em grande
parte, de profissionais liberais, mas não
só eles. Há também setores
da sociedade com carências específicas
como, por exemplo, associações
para atender crianças com Síndrome
de Down, e várias outras. São
organizações que têm mais
facilidade de surgir porque os custos iniciais
de constituição são mais
facilmente atendidos, já que são
organizações de classe média.
Mas, ainda assim, também é crescente
o número de organizações
de trabalhadores manuais e não-manuais
e até de trabalhadores rurais com outros
tipos de associações à parte
do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra).
Em particular, gostaria de enfatizar o papel
importante que a Pastoral da Terra da Igreja
Católica está desempenhando, como
organização, de ombudsman em relação
aos problemas do campo, na difusão da
informação e, portanto, mostrando
que o problema existe e a sua extensão. É pena
que não tenhamos a mesma coisa por parte
de alguma organização laica, de
preferência, na área urbana.
EC – E estas instituições
podem influir na defesa dos direitos dos cidadãos
para que haja uma mudança na situação
de inércia?
Santos – Claro. O que ocorre é que
as demandas são, como é natural,
muito específicas e singularizadas, em
função de interesses limitados
ao objetivo central dessas organizações.
Porém, o que ainda falta em grande parte é uma
percepção de que há uma
ligação muito grande entre as
condições pelas quais se fazem
demandas específicas no Brasil, de interesse
segmentado, e a defesa de um bem comum, que
são os direitos constitucionais da cidadania
brasileira, que não pertencem exclusivamente
a um grupo em particular. O progresso dos setores
singulares e particulares da sociedade hoje
depende de um avanço universal dos conceitos
da cidadania, independentemente da sua posição
na estrutura social. Essa percepção
está faltando.
Foto:
Arte de Claudete Sieber sobre foto
de
Marcelo Carnaval/Divulgação |
 |
“Não
por indiferença,
apatia
ou ignorância,
a população
só participa de uma ação
coletiva
com um certo grau
de
segurança” |
|
EC – O senhor menciona, na análise
feita no livro, que mulheres, negros e índios
estão conseguindo mais espaço
no Parlamento e nas mobilizações
de ONGs. Pode-se dizer que houve um avanço
nesta área?
Santos – A participação
parlamentar e a renovação do Parlamento
são importantes, mas as questões
que estamos enfatizando têm que acontecer
fora do Parlamento, através das organizações,
com pressões inclusive em cima do Parlamento.
Por ser uma instituição de rotina
e por não estar exposto, como instituição,
a estes problemas que estamos mencionando, a
sua sensibilidade para esta questão é muito
pequena. E não por mérito ou demérito
dos parlamentares, é pela sua própria
posição ins-titucional. Estão
lá para fazer e debater leis. Não
há imprevisibilidade na vida de um parlamentar.
A mudança depende mais de quem vive essas
questões cotidianamente, que são
as organizações voluntárias.
EC – No livro, o senhor diz que o Brasil
enfrenta ainda a importação de
estereótipos e “enreda-se em análises
que substituem a empreitada de revelar os mecanismos
estabilizadores da miséria pelo registro
das representações que os miseráveis
fazem de si próprios”. O que o
senhor quer dizer com isso?
Santos – Considero que é de eficácia
igual a zero toda esta literatura de antropologia
tal como é entendida no Brasil em que,
ao invés de se tratar da miséria,
trata-se da representação da miséria.
Em vez de tratar do problema, estudam a imagem
que os vitimados têm de seus problemas.
Isso não quer dizer nada. Estudam, por
exemplo, como é que os mutilados no norte
do país falam para eles próprios
o que aconteceu com eles, e não falam
quem fez, como fez, por que fez. Acho que essas
pesquisas são um desperdício de
recursos públicos na medida em que são
financiadas pelo CNPq.
EC – No livro O ex-Leviatã brasileiro:
do voto disperso ao clientelismo concentrado,
o senhor fez uma pesquisa sobre o Estado Nacional
Brasileiro e a Era Vargas. O que é o
ex-Leviatã?
Santos – É o Estado Nacional que
foi criado por Vargas, responsável por
essa modificação em prazo curtíssimo
do Brasil que tinha uma economia atrasada, puramente
agrícola, para uma potência. Obviamente
que não estou falando de Justiça
Social, mas de poder econômico e político.
EC – Que herança
de Vargas o senhor aborda em sua pesquisa?
Santos – O livro é sobre a construção
do Estado Nacional Brasileiro a partir da Revolução
de 30 e o papel de Vargas, que é associado
a um período de crescimento e de expansão
capitalista. Também é sobre o
papel que as burocracias públicas desempenham
nesse processo e, por conta disso, a tese do
clientelismo. Fiz uma pesquisa com cerca de
70% do aparelho de Estado brasileiro centralizado
e descentralizado – tenho todos os dados
das pessoas que ocupavam os postos importantes
do primeiro escalão e a renovação
ao longo do tempo, desde 1945 até o final
da década de 70. Fiz um estudo de quase
1.800 nomes da elite burocrática brasileira,
das taxas de renovação ao longo
do tempo, buscando ver se existe alguma relação
entre mudança do Parlamento nas eleições,
se o Estado brasileiro estava exposto ao sistema
de espólio em que os postos são
modificados em função das forças
públicas do Parlamento, e também
em relação a eleições
presidenciais.
Evidentemente, há um pedaço do
aparelho de Estado brasileiro que é exposto à prática
de clientelismo, mas são alguns órgãos.
Há um número descabido de ascensoristas,
de choferes de ambulância, de porteiro,
de empregos da política “distributiva”,
mas cujos salários são ínfimos,
não comprometem em nada em matéria
de contas públicas. O que responde realmente
pela operação do Estado Brasileiro
são as grandes empresas.
EC – Como se situa o Brasil
no problema do clientelismo?
Santos – O clientelismo tem várias
facetas, ele pode ser chamado de corrupção.
Está muito ligado a uma competição
entre os interesses econômicos privados.
Quando se fala em clientelismo se pensa logo
em empregos, em deputado que bota uma bica d’água,
que reclama para o seu município um posto
de saúde. Isso não é nada
do ponto de vista econômico, é prestação
de serviço que tem que ser controlada,
transparente. Mas o clientelismo comprometedor
de uma economia, de uma sociedade, é aquele
feito por grandes corporações
que buscam obter de conselhos burocráticos
uma legislação protecionista,
buscam criar barreiras à concorrência
para a entrada no mercado e ter privilégios
cambiais e fiscais. É o clientelismo
concentrado.
EC – E esses seriam os Leviatãs
atuais?
Santos – Sem dúvida, o Leviatã contemporâneo
são os grupos privados.
Livros mais recentes:
Horizonte
do desejo: instabilidade, fracasso coletivo
e inércia
social (Editora FGV, 2006)
O
ex-Leviatã brasileiro: do
voto disperso ao clientelismo concentrado
(Civilização Brasileira,
2006)
O
cálculo do conflito: estabilidade
e crise na política brasileira
(UFMG, 2003)
Razões
da desordem (Rocco, 1992)
Décadas
de espanto e uma apologia democrática
(Rocco, 1998) |
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