A outra margem do Guaíba
Por Roberto Villar Belmonte
A
família de Salomão Oliveira tenta diariamente sobreviver
da pesca no Guaíba, apesar da redução do estoque
de peixes. Chamado de rio pela população, o lago é estudado
pelo pesquisador Carlos Tucci há três décadas.
As belezas da região, irrigada pelo Delta do Jacuí,
inspiram as letras e o som de Paulinho Pires. A luta contra o caldo
de poluição estruturou o movimento ecológico
gaúcho e até hoje mobiliza o ambientalista Flávio
Lewgoy. Para o irmão marista Antônio Cecchin, as ilhas
são motivo de grande preocupação social. O
pescador, o cientista, o músico, o ecologista e o religioso
são unânimes em alertar: as águas que garantem
a vida em Porto Alegre precisam de ajuda.
Manhã de pescaria em plena Capital
– Seu Salomão, vocês pescam até no feriado
de Tiradentes?
–
A rede já está no canal de navegação
há duas noites. Temos que puxar esta manhã para não
prejudicar a qualidade dos peixes – explica o pescador de
66 anos quase feitos. A sexta-feira do dia 21 de abril amanheceu
com cara de inverno em Porto Alegre. Ainda era madrugada quando
a chuva começou a cair. A força do vento no barco
ameaçava causar estragos nos 1.400 metros de rede mergulhados
a 20 metros de profundidade, bem na frente da Usina do Gasômetro.
Se a malha, ao ser retirada, prendesse em alguma pedra ou “cachopa” de
mexilhão dourado, a nova praga do Guaíba, ela seria
rasgada. De dentro d’água, mal dava para avistar os
prédios da cidade encobertos pela nebulosidade. Poucos carros
circulavam nas avenidas centrais.
Por volta das 9h, o Paz no Vale, movido por um pequeno motor de
popa, saiu da Ilha da Pintada em direção à bóia
que mostra aos navios o lugar exato do canal de navegação.
Em poucos minutos, o barco de chapa de ferro de apenas 7,40 metros
chegou ao local de maior profundidade escolhido pelos pescadores.
Dois jovens foram escalados para o trabalho na chuva, Douglas,
de 21 anos, um dos seis filhos do seu Salomão, e um adolescente
de 17 anos, amigo da família. Antes de conferir os peixes,
eles lançaram ao fundo do lago mais 800 metros de rede de
nylon, com malha de 75 mm e altura de 3,5 metros. Ela é formada
por pedaços de cem metros, atados um ao outro. Para manter
a rede submersa, são usadas pedras e uma espécie
de âncora feita de ferro de construção, chamada
por eles de fatecha. Pequenas bóias são colocadas
na parte de cima para manter a rede em pé.
| Fotos:
Tânia Meinerz |
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Douglas
(boné branco) em uma manhã
de pescaria abaixo de chuva no Guaíba.
Acima, Vinícius exibe o espeto de taquara |
Salomão de Souza Oliveira nasceu na Ilha da Pintada em julho
de 1940, dez meses antes da grande enchente que inundou Porto Alegre
fazendo com que os moradores das ilhas fossem levados para Guaíba.
Ele aprendeu a pescar com o avô e com o pai, e agora repassa
os conhecimentos da família ao neto Vinícius, de
8 anos, que o acompanha faceiro e com ar de aventura nas andanças
de barco, até mesmo nos dias de chuva. Salomão mora
com a família em duas casas de madeira construídas
próximas da água, bem pertinho do local onde o rio
Jacuí, quase sem poluição, encontra o Guaíba,
ajudando a diluir o caldo de poluentes químicos e orgânicos
do lago que abastece a capital gaúcha. Do atracadouro do
pescador, dá para ver os prédios do Centro, o Cais
do Porto e a Usina do Gasômetro.
O vento impediu o fim do trabalho matinal dos jovens pescadores
no feriado de Tiradentes. Após retirar alguns peixes da água,
eles desistiram para não danificar a rede. Voltaram no dia
seguinte, com céu azul, e puxaram 30 quilos de pescado,
uma colheita gorda para os padrões do Guaíba. Entre
os troféus, uma piava de quase quatro quilos, pescada bem
na frente do centro de Porto Alegre. A maioria dos porto-alegrenses
talvez não saiba, mas tem muita gente tentando sobreviver
da pesca. Ainda existe vida no lago. Alguém arriscaria dizer
até quando?
Subsistência
ameaçada
Quatrocentas famílias ainda tentam sobreviver da pesca
no lago e na região do Delta do Jacuí, calcula
Salomão Oliveira, o pescador da Ilha da Pintada com nome
bíblico de rei que faz parte da diretoria da Colônia
Z5. A família dele, formada por seis pessoas, pesca por
mês cerca de 450 quilos de peixe, o que lhes garante uma
renda entre dois e três salários mínimos.
Os filés, já limpos, são vendidos na porta
de casa.
–
Agora a gente não tem mais uma ligadura só com
o Guaíba. Ao longo dos anos as coisas vêm mudando.
Hoje temos que subir o Jacuí e descer a Lagoa dos Patos
para pescar. E mesmo assim a sobrevivência está ameaçada.
Dos anos 80 pra cá o peixe começou a escassear.
A principal razão da escassez de peixes, segundo Salomão, é a
extração de areia. Nos meses de novembro, dezembro e janeiro, os
pescadores não podem pescar por causa da desova. Nestes três meses,
algumas espécies de peixes como a piava, o grumatã, o pintado,
o jundiá e o dourado (que hoje já está praticamente extinto)
sobem para botar os ovos nos areais e no cascalho, onde eles têm refúgio.
Na piracema, as bombas de sucção dos mineradores não param.
Elas sugam tudo em um diâmetro de 60 metros. A desova que passa por este
processo não eclode, e o processo termina ali.
Além da mineração, o pescador identifica mais quatro motivos
para o desaparecimento crescente do pescado. Um deles são as lavouras
de arroz irrigado, que “de Porto Alegre até São Jerônimo
vamos encontrar de 400 a 500 bombas. Elas puxam e matam os peixes pequenos”,
constata Salomão. Outra causa do desaparecimento dos peixes é a
pesca predatória. Alguns pescadores ainda usam redes ilegais, com malha
de 30 mm, e assim pescam também os filhotinhos.
| Fotos:
Tânia Meinerz |
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A
extração de areia e o lixo nas margens aniquilam
a reprodução dos peixes |
Tem ainda a poluição, principalmente o lixo jogado no Guaíba.
Muitas das espécies, como a traíra e o cará, não
estão conseguindo mais se reproduzir. O lixo, como garrafas e sacos plásticos,
encosta-se nas margens e destrói o plâncton usado como refúgio
das espécies para a desova. Por fim, há o impacto ambiental do
mexilhão dourado, espécie invasora trazida para a região
nos cascos dos navios.
–
Quando a rede chega na cachopa dos mexilhões, ela entranha. Como eles
têm uma enzima muita forte e não se desgrudam, a rede arrebenta.
As autoridades estão tentando combater a praga com veneno. Só que
os peixes também morrem.
Seu Salomão Oliveira, como a maioria dos pescadores, tem dificuldades
para sobreviver só da pesca. Para complementar a renda, há quatro
anos ele se dedica ao peixe na taquara, prato que oferece em eventos cobrando
dez reais por pessoa. Na Semana Santa, a sua banca foi um dos destaques no Largo
Glênio Peres pela qualidade dos peixes assados (tainha, enchova e piava)
no centro de Porto Alegre. “Eu criei um tempero especial, e também
um espeto adaptado”, conta o pescador-cozinheiro todo orgulhoso.
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Serrote para fazer música
O serrote ganha vida na mão de Paulinho Pires. Quando o músico
de 72 anos roça a lâmina de aço dentada com um arco de violino,
ela produz um som infinito que parece vir do espaço sideral, é um
lamento profundo, doído. É como se a natureza nesta hora falasse
através do menino que passou a infância brincando entre as Ilhas
da Pólvora e das Flores. E muitos anos depois, na Oitava Califórnia
da Canção Nativa, em 1978, apresentou uma composição
musical na forma de um pedido de socorro – Súplica do Rio – em
nome do Jacuí, responsável por mais de 70% das águas que
formam o Lago Guaíba.
Não deixem morrer meu rio
Me ajudem por favor
O biguá que mergulhava já morreu
Aguapé não dá mais flor
A estréia do serrote ocorreu no cinqüentenário do Colégio
Rosário, há mais de meio século. De lá para cá,
Paulinho Pires ganhou notoriedade no mundo nativista como serrotista, gaiteiro,
compositor e defensor da natureza. É famoso também pelo nó criativo
que dá no lenço gaudério usado nos momentos que exigem o
traje a rigor. Este detalhe na vestimenta sintetiza o modo de ser minucioso e
cuidadoso deste ex-ilhéu, que canta para colaborar com as pessoas para
melhorar o mundo. “Dentro daquilo que eu escrevo, tu vais sempre encontrar
o rumo de uma mensagem positiva.”
Hoje olhando as águas turvas a rolarem para o mar
Que vontade de voltar aos bons tempos que vivi
Ver mamãe lavando roupa com sorriso de bonança
No seu rosto a esperança dos meus cantos de guri
Sentado em um banquinho, Paulinho Pires coloca de lado o violão que usa
quando canta suas músicas e pega o serrote. O cabo ele prende entre os
joelhos para que o balanço das pernas ajude na vibração
do aço. A outra ponta ele segura com a mão direita. A esquerda
desliza o arco do violino e também “dedilha” a superfície
plana da ferramenta de corte transformada em instrumento sonoro. Com o dedo anelar,
ele bate, e com o dedo mínimo ele abafa o som. As notas dependem da posição
do serrote, próprio para acompanhamentos e melodias de notas longas, extensas
como o Jacuí, o Guaíba, a Lagoa dos Patos.
Sinto sede de água pura
Quando a natureza chora
O silêncio das barrancas
Me pedindo pra cantar
Paulinho Pires mora com a sua “baixinha”, a esposa-companheira com
quem vive há 37 anos, em uma casa na zona leste de Porto Alegre, mais
perto do Arroio Dilúvio do que do Lago Guaíba. O seu “rancho” é simples,
aconchegante e com verde por todos os lados. “A natureza é música
pra mim.” Quando precisa recarregar as energias, visita uma irmã que
ainda mora em uma das 28 ilhas do Delta do Jacuí. Lá ele reencontra
as memórias da infância e reafirma a sua convicção
ambiental expressa também numa frase escrita com letras verdes no seu
cartão de visitas: “Não serre a natureza, faça música!”.
| Foto: Tânia
Meinerz |
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Paulinho
Pires reproduz melodias
da natureza
no serrote transformado
em instrumento
musical |
Lago
da razão, rio do coração
O Guaíba é um lago de 50 quilômetros de comprimento
e até 14 quilômetros de largura, localizado no lado
oeste de Porto Alegre, entre a Lagoa dos Patos e o Delta do Jacuí.
A enorme caixa d’água da capital gaúcha é abastecida
pelas águas do Jacuí, Caí, Sinos e Gravataí.
Qual a dinâmica hidrológica destes quatro rios? Para
responder a esta pergunta, Carlos Eduardo Morelli Tucci, 58 anos,
pesquisador do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Ufrgs,
escreveu uma tese de doutorado em 1978.
Em seus estudos, ele descobriu que as águas do lago, além
de descerem para o sul na maior parte do ano, também sobem
em direção a Novo Hamburgo, principalmente no verão.
Este fenômeno, chamado pelos especialistas de seiche, ocorre
quando as estiagens reduzem a descarga dos quatro rios do sistema
Delta do Jacuí. “Se não fosse a oxigenação
do Guaíba, o Sinos, um dos rios mais poluídos da
região, já estaria morto”, garante o Engenheiro
Civil Carlos Tucci, com mestrado e doutorado na área de
Recursos Hídricos.
O seiche, uma espécie de maré, é causado pelos
ventos em contato com a enorme área da Lagoa dos Patos,
com 200 quilômetros de extensão e uma distância
de até 60 quilômetros entre uma margem e outra, e
também com a grande superfície hídrica do
Guaíba, que tem um volume de água de pelo menos 2
mil km³, o equivalente a 2 milhões de hectômetros,
de acordo com cálculos aproximados feitos por Carlos Tucci
para o jornal Extra Classe.
O principal problema a enfrentar é a falta de tratamento
de esgotos. Os pesquisadores, segundo o professor Tucci, já conhecem
bastante sobre o funcionamento hidrográfico do Guaíba,
apesar da falta de melhores medidas em alguns pontos e a necessidade
de mais conhecimento sobre o impacto humano.
–
Não sabemos ainda o tamanho da carga de pesticidas usada
pela agricultura, e nem os riscos da petroquímica. Quais
os produtos químicos que estão sendo depositados
no fundo do lago? Conhecer e diminuir os impactos ambientais é o
que falta.
Para quem ainda duvida que o Guaíba é um lago, o
Doutor das águas tem dois argumentos. No rio há predominância
longitudinal do fluxo da água. No lago que banha Porto Alegre
existem fluxos transversais e longitudinais. Além disso,
ele tem uma grande superfície, pois a largura varia de um
quilômetro, na Ponta da Cadeia, na altura da Usina do Gasômetro,
até 14 quilômetros. Se dependesse apenas da hidrologia,
o nome do estádio do Internacional deveria ser Gigante da
Beira Lago. Estranho, né?
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O detetive da poluição

Um maluco decidiu virar terrorista e começou a explodir bombas em Porto
Alegre no início dos anos 50, até que um químico novato
da polícia técnica gaúcha descobriu o tipo de pólvora,
pouco conhecida e bastante instável, que estava sendo utilizada. A partir
desta informação, o criminoso foi preso. Ex-aluno do curso técnico
do Júlio de Castilhos, o trabalho do jovem Flávio Lewgoy, recém-formado
em Química Industrial na Ufrgs, era colher indícios materiais que
levassem a identificar os autores dos crimes.
Após 30 anos de serviços prestados à força policial,
ele olha para trás e lembra com orgulho que foi o responsável pela
prisão e soltura de muitas pessoas, mas principalmente pela criação
do laboratório de química forense. Com personalidade científica,
Lewgoy também especializou-se em Genética e passou a dar aulas
na Ufrgs, onde trabalhou na estruturação do laboratório
inicial do curso e criou, em 1990, a disciplina de Ecogenética, que hoje
foi incorporada por outras matérias.
Foi em 1971 que o policial-geneticista descobriu elementos químicos muito
poluentes no carvão gaúcho e passou a dar entrevistas e mais entrevistas
sobre o assunto. Neste ano, estava nascendo em Porto Alegre a Associação
Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, de José Lutzenberger.
Três anos depois, Flávio Lewgoy reforçou os quadros da entidade
com o seu olhar arguto de pesquisador. “As lutas que diziam respeito à poluição
química sempre me empolgavam, pois aí eu podia dizer alguma coisa.”
As lutas químicas que empolgavam Lewgoy, até hoje engajado no movimento
ecológico, ajudaram a estruturar o ambientalismo gaúcho e até brasileiro.
Depois das denúncias solitárias sobre a poluição
do carvão, veio a briga contra o cheiro de ovo podre da fábrica
de celulose Borregard, em Guaíba, que depois passou a ser Riocell e agora
Unidade Sul da Aracruz. Outro momento definitivo foi o anúncio da construção
de um Pólo Petroquímico águas acima de Porto Alegre no final
dos anos 70.
Os resíduos tóxicos do empreendimento seriam lançados primeiro
no Guaíba e depois na Lagoa dos Patos através de um tubão.
A grita foi tão grande que gerou a construção de uma central
de tratamento de efluentes, hoje motivo de orgulho dos petroquímicos.
Foi também por esta época que restos de agrotóxicos começaram
a aparecer no Guaíba. Daí nasceu em 1982, com a ajuda do policial-geneticista,
a primeira legislação estadual para regular o uso dos venenos agrícolas,
que acabou inspirando a legislação nacional.
–
Eu não tenho uma visão sentimental do ambiente. Eu vejo o lago
como um patrimônio natural. O Delta do Jacuí é um manancial
para Porto Alegre. O Guaíba já estava em estado muito ruim nos
anos 70, hoje está pior. No entanto, ele ainda não é um
caldo podre. Tem futuro. Rios em estado pior já foram recuperados. Eu
nunca fui banhista. Mas o que me dói é ver este manancial aos poucos
se convertendo em uma massa d’água que talvez um dia não
tenha mais condições de uso.
Aos 80 anos, o perito policial aposentado Flávio Lewgoy ainda acompanha
com grande interesse as ameaças químicas ao Guaíba. Ele
participa de reuniões, estuda artigos científicos na internet,
troca informações com outros ecologistas, e alerta que a presença
de organoclorados, gerados pela indústria e pela cloração
da água potável, é grande no lago. Meio resignado, constata: “O
crime ambiental é diferente dos outros crimes. Todo mundo sabe quem são
os criminosos. Mas eles nunca vão presos”.
Refúgio
de espécies
Quando os açorianos começaram a ocupar
as ilhas do Delta do Jacuí, em 1752, índios
guaranis já pescavam na região há pelo
menos 140 anos. O acesso rodoviário intensificou
nos anos 70 a construção de habitações
populares e de residências luxuosas de fim
de semana. Estima-se atualmente uma população
de 14 mil pessoas.
De acordo com a Fundação Zoobotânica,
58 espécies de peixes (de 78 conhecidas)
foram recentemente coletadas. Nas quase três
dezenas de ilhas tentam sobreviver espécies
ameaçadas de extinção como
o gato-do-mato-grande, a lontra e o jacaré-do-papo-amarelo,
além de outras 17 espécies de répteis,
24 de anfíbios e 193 de aves.
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Irmão comprometido com a purificação
das águas*
Por André Pereira
- Não quero mais saber de reza, irmão. Me bastou o período
em que fui seu aluno. O senhor me empanturrou de religião. Agora, chega
- declara, sorridente, o jovem e bronzeado empresário, vestindo bermudas
brancas, imaculadas como a camisa Lacoste e o alvo boné imitando quepe
de oficial da Marinha, com aba azul e o dístico com monograma dourado.
Com
olhar esperto, o velho irmão vasculha a cabine de comando do iate do ex-aluno
do Colégio Rosário, em Porto Alegre, onde lecionou nos anos 60
antes de ser preso pelos militares que golpearam a nação em 1964.
E encontra, ao lado do leme, a imagem da santa, pequenina mas que se impõe,
colorida e impávida estatueta. Então, interroga o dono da embarcação
com expressão irônica.
- Irmão, com ela eu me agarro quando estou
no meio do rio e o tempo muda, inesperadamente, trazendo tempestade, susto
e mau agouro. Aí, rezo
mesmo com a santinha... - rebate o empreendedor, pego na contradição
de maneira tão
singela.
- Ah! Desgraçado. Nesta horas a reza te convém...- diz, em tom
de severidade brincalhã que não surpreende mais o antigo estudante
rosariense, o irmão Antônio Cechim, santa-mariense de 79 anos
que veio para Porto Alegre com 10 anos para estudar no internato do Colégio
Champagnat e, depois, virar religioso da congregação dos Irmãos
Maristas.
Irmão Cechim está aproveitando para completar mais um passinho
da missão a que se dedica desde 1985 trabalhando com comunidades nas
ilhas do Guaíba, lutando pela preservação das águas
e pela despoluição ambiental.
Em 1985, já afamado pelo trabalho de organização dos
movimentos populares na Grande Porto Alegre, onde liderou ocupações
urbanas em condomínios residenciais, irmão Cechim foi convidado
pela freira belga Marie Eve para substituí-la na tarefa que executava
com os moradores das ilhas. Com 90 anos, quase cega, a freira passou-lhe o
bastão na Ilha Grande dos Marinheiros onde fazia trabalho de catequese
e estimulava a geração de renda, ensinando a ciência do
artesanato em lã. Sem os mesmos dotes, irmão Cechim viu que das
toneladas de lixo que as águas carregavam - principalmente durante as
enchentes antes costumeiras - os ilhéus poderiam retirar sustento e,
ao mesmo tempo, contribuir para a despoluição. Foi assim que
em 1987 nasceu a primeira associação de catadores, depois recicladores
de lixo, de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Em 1989, quando o Partido
dos Trabalhadores de Olívio Dutra assumiu a prefeitura da capital propôs
ao irmão Cechim a transformação daquela prática
em um elemento da política pública da municipalidade em relação às
ilhas. Ali na Ilha Grande dos Marinheiros, entre o povo de recicladores, areeiros
e pescadores, instalou-se o primeiro Centro Administrativo Regional (CAR) de
Porto Alegre nos primórdios da descentralização administrativa
que o governo dito da Frente Popular praticou por 16 anos com o sistema do
orçamento participativo (OP). "Enxameei as ilhas com outros galpões
de reciclagem que hoje somam 18 associações só na cidade
e cerca de 100 no estado", festeja Cechim.
Agora, diante do feliz proprietário do iate, como faz com todos potenciais
cúmplices de jornada, especialmente aos que têm alguma ligação
com o lago (de dependência, afeto ou lazer), também Cechim pede
ajuda, para que se incorpore, da forma como puder, e propague a idéia
de resgate do Guaíba que tem águas tão impuras hoje quanto
sagradas na origem da vida. ("A gente não nasce de uma bolsa de água?" simplifica
o religioso).
Do ponto de vista institucional, esse apelo à conciência ambientalista
dos gaúchos com relação à importância do
Guaiba, foi consolidado com a realização das Romaria das Águas
no dia 12 de outubro, que é data consagrada à Nossa Senhora Aparecida,
padroeira do Brasil.
O evento nasceu em 1994 como uma espécie de afirmação
da devoção ao lago, que a parte oficial da procissão de
Nossa Senhora dos Navegantes despreza no dia 2 de fevereiro, preferindo o percurso
terrestre, desde a Igreja do Rosário no centro da capital até a
igreja de Navegantes, no bairro da zona norte. Pois com outra santa, o irmão
Cechim tratou de institucionalizar esta Romaria das Águas de outubro.
Mas hoje já não tem o auxílio do atual governo estadual
- que encontrava na gestão anterior em parcerias solidárias do
Programa Pró-Guaíba. (Em 1999, a romaria do lago passou a abranger
toda a Região Hidrográfica do Guaíba, com 84,7 mil km2,
formada por nove bacias hidrográficas e mais de 250 municípios,
beneficiando uma população de mais de seis milhões de
habitantes." De nada adiantaria se apenas o lago Guaíba fosse despoluído
pois ele recebe diretamente as águas dos rios dos Sinos, Gravataí,
Caí e Jacuí", sentencia Cechim).
Mesmo assim renegado pelo
poder público, ele vai realizar a Romaria
das Águas, neste ano de 2006 com os recursos que obtiver e com o voluntariado
que puder atrair. Conta que vai recorrer às dioceses da igreja católica
que circundam as nove nascentes de rios Gravataí, Caí, Sinos,
Pardo, Taquari, Antas e os baixo, médio e alto Jacuí que desaguam
no Guaíba.
Vai pedir apoio para repetir o ritual feito na Usina do Gasômetro quando,
no auge da cerimônia, na celebração ecumênica que
reúne de católicos e a umbandistas, são misturados os
líquidos límpidos recolhidos em cada uma das nove nascentes formando
a água pura que então é jogada no escurecido e imundo
Guaíba, simbolizando o compromisso de todos com a luta pela purificação
do lago.
* Este texto, apesar de não ter sido incluído na reportagem publicada na versão
em papel por falta de espaço, é parte integrande da reportagem e será
publicado em nossa próxima edição (em junho).