Ano 11 - nº 102
MAIO de 2006



Luis Fernando Verissimo
Em poucos minutos, uma cabeça jovem vai se deteriorando. Os cabelos embranquecem e caem, a pele fica enrugada e se solta do osso, e surge a caveira descarnada. Isto é uma cena de horror. A mesma coisa acontece, mas em muitos anos em vez de poucos minutos.



Elisa Lucinda

Muito pontuais as flores chegaram ao teatro
vindas de um cavalheiro.
Eram rosas vermelhas com flores mistas
do campo ao cerrado cheirosíssimas,
variadas e vindas de uma ordem dada
a três mil quilômetros daqui. Cinco mil, talvez, não sei.
Sei que isso é o poder da vontade!



Fraga

O entomologista, apaixonado por insetos, e a etimologista, apaixonada pelas palavras, apaixonaram-se. Casados, tiveram um filho. Entre as paixões, apaixonou-se por ambas e nenhuma. Tornou-se entiomologista. Ele amava o vôo sem asas das palavras.



José A.F. Alonso

A persistência das desigualdades regionais e a busca de soluções para atenuá-las constituem temas que pertencem a uma só problemática, a do desenvolvimento em sentido amplo. Na verdade, o desenvolvimento desigual no plano inter-regional e local é uma face das...





Escândalo seletivo

m poucos minutos, uma cabeça jovem vai se deteriorando. Os cabelos embranquecem e caem, a pele fica enrugada e se solta do osso, e surge a caveira descarnada. Isto é uma cena de horror. A mesma coisa acontece, mas em muitos anos em vez de poucos minutos. Exatamente o mesmo processo, com uma única diferença: a sua duração. Isto se chama vida. O primeiro caso é excepcional e – seja ele obra do Demônio ou do departamento de efeitos especiais – aterrorizante. O segundo caso é natural, acontece com todos nós. Seu terror é diluído pelo tempo e atenuado pelo corriqueiro.

Um ato de violência escandaliza, uma rotina de violência banaliza. A rotina da miséria brasileira acaba se integrando no cotidiano, se funde com a paisagem e desaparece no nosso relativismo moral. É lamentável, e lamentada em todos os discursos e programas de governo, mas não é aterrorizante, pois quem pode viver em estado permanente de horror? E, no entanto, só o que diferencia a violência de uma invasão de terras da violência constante, rotineira, banalizada, que a situação fundiária do país impõe aos sem-terra é o tempo. Uma é uma quebra de normalidade, a outra é a normalidade. As duas são reprováveis, mas a segunda é absolvida pela indiferença. Não tem o mesmo efeito espetacular, o mesmo horror concentrado.

Isto não é uma justificativa para atos de violência como alguns praticados pelos que lutam pela reforma agrária, mesmo porque a violência sempre acaba favorecendo a reação. É só um comentário sobre o escândalo seletivo de quem demoniza os sem-terra mas não se horroriza com a violência diária, antiga, arraigada nos seus costumes e valores, praticada pela sociedade mais injusta do mundo. Ou só se horroriza com a retribuição.







Manual de sobrevivência na selva das verdades
Por Gilson Camargo
O professor de filosofia britânico Simon Blackburn confronta valores e comportamentos da sociedade moderna para dissecar um conceito universal em Verdade: um guia para os perplexos (Civilização Brasileira, 336 p. Tradução de Marilene Tombini).





Pobres moços...
Como já dizia Salomão, nada de novo sob o sol. A não ser o que já havia, porém pior. Conforme estudo divulgado neste abril de 2006, da Fundação de Economia e Estatística – FEE, a mortalidade por causas...

Cabeça a prêmio
O preço da cabeça do paraense Tarcísio Feitosa, militante ambiental, que já recebeu várias ameaças de morte, ficou mais caro. A inflação no mercado de matadores se deve ao fato de ele ter recebido o Prêmio Goldman (US$ 125 mil) pela luta por...







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