Crise
ronda TVE e FM Cultura
A tentativa de transferência do controle da Fundação
Piratini para uma Organização da Sociedade Civil
de Interesse
Público (Oscip), e a frustrada tentativa do governo de retirar
a TVE e a FM Cultura do âmbito da Secretaria de Cultura,
se somam à rotina de deterioração dos equipamentos,
de denúncias de censura e restrições à programação
das
emissoras. Para os funcionários, está clara uma estratégia
para enxugamento da estrutura da Fundação por parte
do
governo que, por sua vez, silencia sobre o assunto.
Por José Weis

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projeto de lei que previa a transferência
da Fundação Piratini da Secretaria de
Cultura (Sedac) para a Secretaria Geral
de Governo, entre outras medidas, enviado
pelo governo à Assembléia Legislativa em abril,
agravou a crise que ronda os cerca de 200 servidores
da TVE RS e da Rádio FM Cultura – 107.7
nos últimos 18 meses. A mudança de
secretaria não foi aprovada pelos deputados,
mas a tentativa do Executivo de retirar a Fundação
do âmbito da cultura e passá-la para a
orientação de outra secretaria de governo só serviu
para piorar o clima de insegurança
nas emissoras. De acordo com o representante dos
funcionários junto ao Conselho Deliberativo,
Alexandre Leboutte, a falta de uma política
clara de governo para a Fundação se soma à deterioração
dos equipamentos, ao fim do
radiojornalismo na Cultura FM e ao afastamento
de diretores, gerando uma desmotivação generalizada
no conjunto dos funcionários. “Há um
movimento coordenado por parte do governo que visa ao enxugamento
da estrutura
da TVE e da FM Cultura a ponto de enfraquecer,
quase extinguir as emissoras”. Ele cita
ainda medidas administrativas que seriam um
indício “do desgoverno” em relação à Fundação. “
Estamos há um ano sem direção-geral,
sem diretores de programação e sem diretor
técnico. O presidente da Fundação Piratini,
Airton Nedel, ocupa o cargo interinamente há seis meses”,
diz Leboutte, lembrando que os funcionários têm alternativas
para apresentar ao governo.
PRÉDIO-FANTASMA – Problemas a serem
enfrentados não faltam. Há fatos
emblemáticos de uma crise que sempre rondou
as emissoras de tevê e rádio públicas do
estado como, por exemplo, a regularização do
prédio ocupado pela TVE e a FM Cultura.
Originalmente, o local sediou a pioneira das
emissoras no Rio Grande do Sol, a TV Piratini –
Canal Cinco, que por sua vez pertencia à Rede
de Emissoras Associadas, de Assis
Chateaubriand. No final dos anos 70, o espólio
do império de Chatô ruiu de vez e o prédio
foi
entregue ao INSS como pagamento de dívidas.
A partir de 1981, a TV Educativa, Canal
7, passou a ocupar as históricas dependências,
alugadas pelo governo do estado. Atualmente,
a locação custa R$ 25 mil por mês. Passadas
diversas administrações, somente agora o governo
constatou que não existe escritura e nem
mesmo o registro do prédio, ou seja, legalmente
ele não existe. “Não temos nem mesmo o
Habite-se”, admite o presidente interino da
Fundação Piratini, Aírton Nedel. Sobre as
ameaças de mudanças nas diretrizes da emissora
e mesmo a possibilidade de entrega do
prédio, Nedel argumenta que “toda e qualquer alteração
em relação à TVE
RS deverá passar por um projeto de lei a ser
enviado ao Legislativo”. A secretária de Cultura, Mônica
Leal, não retornou às solicitações
de entrevista
encaminhadas à sua assessoria. A assessoria
do Palácio informou apenas que o governo só se manifestará após a conclusão
de um estudo que está sendo realizado por um grupo de trabalho
criado para analisar a situação da Fundação
Piratini.
Sobre a proposta de mudança de endereço,
o INSS teria oferecido a alternativa de permuta
do prédio por outros imóveis de propriedade
do governo. Caso um acordo não se concretize,
o Instituto estaria disposto a leiloar o prédio.
Para os funcionários, esta hipótese selaria
o futuro da TVE, pois o prédio ocupado pela
Fundação Piratini é cobiçado pelas
empresas
de comunicação da iniciativa privada pela sua
posição estratégica no Morro Santa Tereza.
Para o deputado estadual Raul Pont (PT),
autor da emenda que impede a mudança da
TVE da Sedac para outra secretaria, a operação de
permuta seria facilitada por ser entre
um ente público estadual e outro federal. “Nesse
caso, o valor do aluguel poderia ser revertido
em receita para a própria Fundação”,
sugere Pont. Leboutte argumenta que o INSS
não manifestou interesse na desocupação do
prédio e que a mudança teria sido cogitada
pelo governo para economizar o valor da locação. “O
INSS não quer o prédio de volta”, afirma.
CENSURA – No dia 3 de abril, a Comissão
de Serviços Públicos da Assembléia
Legislativa realizou uma Audiência Pública
para discutir a situação da Fundação
Cultural
Piratini Rádio e Televisão, em especial a proposta
do governo de reestruturar as emissoras. “Como
não poderia deixar de ser, o
telejornalismo enviou uma equipe de reportagem
para fazer a cobertura do evento. A matéria
foi editada, mas estranhamente não foi ar,
supostamente por problemas técnicos na gravação
da entrevista com o presidente Aírton
Nedel, fonte fácil de se recuperar”, denunciou
uma nota do Sindicato dos Jornalistas. O presidente
da entidade, José Nunes, afirma que
as ações de censura e interferência na programação
da TVE por parte dos governos nunca
foram tão explícitas.
O presidente do Conselho Deliberativo da
Fundação Piratini Rádio e Televisão,
Ercy
Torma, empossado em janeiro, afirma que vem
tentando encaminhar soluções para os problemas
das emissoras e gostaria de tratar do assunto
com a governadora Yeda Crusius, mas
até agora não foi recebido no Palácio. “Queremos
ouvir da governadora que futuro ela
reserva à TVE”, diz Torma, lembrando que
cabe ao Conselho orientar o trabalho da Fundação
de acordo com os interesses da sociedade
e criar as diretrizes da programação.
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