A polêmica
mudança
de vocação da Uergs
No dia 10 de julho deste
ano, a Universidade Estadual
do Rio Grande do Sul
(Uergs) completa dez anos
de existência. Na comparação
com a universidade estadual
almejada pelos movimentos
sociais que se mobilizaram
pela sua criação, a
Uergs está transfigurada e se
distanciou da sua missão original:
oferecer Ensino Superior
público e gratuito a quem
não tem acesso à universidade,
com ênfase nas vocações
regionais. Em março, a
Comissão de Educação da
Assembléia Legislativa criou
uma subcomissão para analisar, em encontros regionais, os
problemas enfrentados pela universidade, alguns deles
crônicos. Temas como cortes orçamentários,
redução de vagas, não-realização
de eleição para reitor, carência de professores
e a alteração da vocação da instituição
de Ensino Superior para um mero centro de formação
de tecnólogos são
debatidos nas audiências públicas, nas quais não
faltam denúncias sobre estratégias para inviabilizar
a Uergs – que tem
postos de comando ocupados por CCs e dirigentes ligados a instituições
privadas.
Por Grazieli Gotardo

a
verdade, estão discretamente
destruindo a Uergs”, denuncia
a deputada Marisa
Formolo, presidente da subcomissão.
A Associação de Docentes da
Uergs (Aduergs) teme o “desmonte”
da universidade e critica as
constantes ações “ou a falta delas”
por parte da atual gestão. “A
Aduergs não concorda com a forma
como a atual reitoria tem atuado
e quer a ampliação dos fóruns
de discussão através da participação
mais efetiva da comunidade
acadêmica e da sociedade na
reestruturação e consolidação da
ú
nica instituição pública estadual
de Ensino Superior”, alerta
Magnólia da Silva, diretora da
entidade e do curso de Tecnologia
em Agropecuária da Uergs, em
Santa Cruz do Sul.
O reitor Carlos Alberto
Callegaro concorda que a Uergs
precisa de ajuda, mas reclama que
herdou problemas estruturais. “Não temos
sequer regimento interno para fazer eleições, pois
não
há regras. Falta investimento financeiro
para laboratórios, existem
convênios vencidos e mal feitos,
compra de vagas em universidades
particulares que estamos pagando,
entre outros problemas antigos que
estão sendo resolvidos aos poucos”,
enumera. “O que está acontecendo
na Uergs é um descumprimento
da Lei. Para não fazer eleição e
manter os CCs, não consolidam os
conselhos, não chamam os
concursados, nem fazem vestibular”,
rebate Amarildo Cenci, diretor
do Sinpro/RS.
DESMONTE – Além da precariedade
do quadro de docentes,
agravada com a extinção dos contratos
temporários de 101 professores,
o que praticamente
inviabiliza 20 das 23 unidades espalhadas
pelo estado, a polêmica
mudança de vocação da Uergs
para um centro de tecnólogos é vista
como mais uma estratégia de
esvaziamento da instituição. “Isso é
um absurdo, fora de cogitação. E
o que vamos fazer com os 15 Cefets
que estão sendo criados pelo governo”?,
reage Callegaro. “A Uergs
nasceu com duas áreas prioritárias:
tecnologias e licenciaturas. Ela precisa
voltar a atuar nessas frentes,
pois é assim que atende as necessidades
do estado, tanto no ensino
público, que é carente de professores,
quanto na formação de mãode-obra qualificada
para o setor
produtivo”, rebate Marisa Formolo.
Uma audiência pública da
subcomissão em Guaíba, no mês de
abril, reafirmou a importância da
Universidade continuar oferecendo
cursos superiores. Há dois anos
sem vestibular, a Engenharia em
Sistemas Digitais, da unidade da
Uergs no município mobiliza alunos
e a comunidade, que temem
o seu fechamento. A carência de
profissionais qualificados em
Tecnologia da Informação é consenso. “Dos
13 formados até agora,
cinco foram admitidos no
mestrado em microeletrônica da
Ufrgs, seis estão empregados com
salários iniciais de R$ 8 mil, um
foi contratado pela única fábrica
de circuitos integrados da América
Latina, situada em Porto Alegre,
e outro montou uma empresa
própria”, exemplifica o professor
Rodrigo Warzak, coordenador de
Ensino na Escola Técnica Sólon
Tavares, de Guaíba. “Muitos alunos
em formação trabalham como
professores de contrato temporário
em escolas técnicas, inclusive na
nossa”, relata Warzak.
Para o empresário do setor de
TI, Julio Anjos, a Uergs “é um problema
político” e a Universidade “não
deveria estar refém de um
governo”. Diretor da empresa
Compy Network, de Guaíba, ele
confirma que o setor de TI tem
carência de mão-de-obra em todos
os níveis. “Uma universidade
estadual forte pode colaborar muito
no sentido de suprir essa carência”,
aponta. O Centro de Excelência
em Tecnologia Eletrônica
Avançada (Ceitec), empresa pública
que pesquisa e desenvolve circuitos
integrados com investimentos
de R$ 260 milhões do governo
do estado, tem dificuldades em
montar seu quadro de recursos humanos
e, inclusive, repatriou profissionais
brasileiros que estavam no
exterior para suprir a falta de especialistas. “O
Ceitec é foco para
atração de investimentos ao RS
que vão demandar recursos humanos.
A continuidade da Uergs e a
aposta em cursos como o de Engenharia
de Sistemas Digitais, principalmente
por ser uma universidade
pública, é fundamental”, avalia
Sérgio Dias, presidente do Ceitec.
Mais do que a formação de
mão-de-obra, a universidade estadual
tem um papel imprescindível
no desenvolvimento econômico
e social do estado, assim
como a USP em relação a São
Paulo, enfatiza Amarildo Cenci.
Ele afirma que o trabalho da
subcomissão e a pressão dos movimentos
sociais e sindicais serão
intensificados no sentido de cobrar
do governo o cumprimento
da Lei e de uma política para a
instituição. “A Uergs é estratégica
para o estado e não pode ser
tratada como troco no jogo político
dos governos. Precisa de uma
definição urgente”, alerta o dirigente.
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