MICHAEL APPLE
Cultura,
poder e Educação
Doutor em estudos curriculares pela Universidade
de Columbia (EUA), Michael
Apple leciona atualmente na Universidade de Wisconsin a disciplina
Currículo
e Estudos de Políticas Educacionais. Profundo pesquisador
da área
curricular, seus livros constam na bibliografia de grande parte
dos cursos
de graduação e pós-graduação
em Educação. Sua área de maior interesse
são as relações entre cultura, poder e Educação.
Em seu livro Ideologia
e Currículo, aborda os perigos da imposição
ideológica nas escolas e
as relações de poder envolvidas no que é ensinado.
O lançamento da
segunda edição de Educating the “Right” – Way:
Markets, Standards,
God and Inequality, em 2007 (que será traduzido no Brasil
com o título
Educando à Direita), atualizou as informações
de Ideologia e Currículo,
com profunda análise de questões como os grupos sociais
dominantes e oprimidos e os modelos educacionais
pautados na lógica de mercado. É sobre esses
temas que ele fala nesta entrevista concedida
por telefone, de Wisconsin – primeiro
estado norte-americano a abolir a pena
de morte e pioneiro na adoção de direitos
trabalhistas e reformas sociais, econômicas
e educacionais.
Por Grazieli Gotardo e César Fraga
Extra Classe – Quem são os
subalternos no mundo da escola e
na voz de quem eles falam?
Michael Apple – Esta é uma
questão muito difícil, pois é muito
claro que as pessoas mais pobres,
trabalhadores, mulheres e negros
são marginalizados no mundo da
escola. E isso acontece tanto aqui
nos EUA como no Brasil, com as
pessoas que vivem em favelas, por
exemplo. É fato que essas pessoas
não progridem nos estudos. Esta é uma
questão muito séria que precisa
ser resolvida. Uma mudança
será muito difícil e só poderá ser
feita com a combinação de movimentos
sociais organizados, cidadãos
conscientes, ações de governo
e ações econômicas. Só assim
será possível fazer transformações
no mundo da escola para que os
subordinados tenham seus direitos
reconhecidos e uma escola que
represente sua cultura, sua história
e desenvolvimento.
EC – Nos EUA também existem
essas grandes diferenças entre
escolas públicas e privadas?
Apple – Não há dúvida hoje de
que temos grandes diferenças.
Como no Brasil, nós temos um setor
privado muito pequeno. No
Brasil, como sabemos, pessoas de
classe média e acima nunca colocariam
seus filhos na escola pública.
Nos EUA o sistema público atende
aproximadamente 90% dos estudantes,
ou seja, existe um grande
esforço aqui para manter o sistema
público. Mesmo com a diferença
econômica entre a classe média e os
pobres, que é grande, mas não tão
grande quanto no Brasil, ainda temos
subsídios para defender a escola
pública. Isso pode ser temporário,
mas estamos lutando, como também
acontece no Brasil, para manter
o sistema público de ensino
para a maior parte da população.
EC – Quem são os novos oprimidos
e como a Educação ajuda a
reproduzir essa opressão?
Apple – Muitos grupos se apoderaram
do título de oprimidos
como, por exemplo, os cristãos
fundamentalistas nos EUA. Dizem
que sua religião e história não são
representadas nas escolas.
Demograficamente, essas pessoas
têm um rendimento familiar muito
acima da média e eles alegam
que estão fazendo por eles o que
Martin Luther King fez pelos negros
norte-americanos durante os
anos de segregação. Isso é totalmente
absurdo. Eles nunca foram
linchados, assassinados, nunca sofreram
segregação. E se dizem oprimidos. É
algo que está crescendo
em todo o mundo. Pessoas com elevada
posição social, economicamente
dominantes, estão reivindicando
questões de raça, gênero e
classe e se intitulando oprimidos.
Isso está crescendo relativamente
entre as pessoas de classe média
ligadas à religião. No Brasil, é nítido
o crescimento de algumas políticas
em torno dos negros, oprimidos
pela classe social. Acho que
posso usar este argumento para
qualquer nação que tenha uma
população muito grande com diferentes
cores e raças e onde exista
um movimento reivindicatório. No
Brasil e em outros países da América
Latina, os afrodescendentes e os índios estão
tentando recuperar a História com a exigência de ações
específicas para eles, como se fosse
possível recompensá-los pelo sofrimento.
Esta é a luta de raças. Eu,
particularmente, simpatizo com esses
grupos. Sou pai de uma garota
negra e apesar de hoje ela fazer parte
da classe média, pois minha origem
também é muito pobre, mesmo
em vantagem econômica, ela
sofreu preconceito de dois professores
universitários, teve de sair da instituição
e levou muitos anos para
retornar. Hoje ela é engenheira. Mas
ficou claro para mim que questões
de raça e classe são muito difíceis
de serem tratadas da mesma forma.
EC – Aqui no Brasil se implantou
um sistema de cotas para negros
e índios nas universidades para
tentar reduzir as distorções históricas.
Como o senhor vê esse tipo de
experiência a partir do que foi feito
nesse sentido em seu país?
Apple – Eu sou contra e a favor
de cotas. Deixe-me explicar o que
quero dizer: eu sou a favor do que
nos EUA nós chamamos de “reparação”.
Por exemplo, não haveria
indústria nos EUA se não fosse a
escravidão, qualquer um que dirige
um carro hoje, ou vai ao supermercado
para comprar comida, ou
tem todos os benefícios do capitalismo,
não teria tudo isso sem a
escravidão. Então minha posição é de
que precisamos restituir o mal
que fizemos aos afrodescendentes
e aos índios. E tenho a mesma opinião
sobre o Brasil. Embora, seja
muito perigoso fazer isso sem considerar
as classes sociais. Em países
de economia neoliberal, onde
os sindicatos estão sendo destruídos,
as pessoas estão perdendo seus
empregos, têm dificuldades para
comer e para morar, e essa é uma
situação muito trágica no Brasil,
no México e nos EUA. Por causa
da escravidão histórica, uma das
coisas que a classe dominante está fazendo é dizer
para os pobres que não são negros nem índios,
que eles, negros e índios, estão ganhando
benefícios sem dar nada em troca,
ou seja, a classe dominante está colocando
duas classes oprimidas uma contra a outra. Nos EUA, esses
dois grupos estão reivindicando
seus direitos. Por isso, digo que
nunca devemos subestimar o poder
das classes dominantes. Colocar dois grupos oprimidos um contra
o outro os faz ficar focados na
pergunta: quem realmente tem o
poder e o dinheiro? Portanto, eu
insistiria em políticas que combinem
raça e classe social.
EC – Como as minorias podem
resistir à dominação cultural das
camadas hegemônicas da sociedade?
Apple – Eles resistem todos os
dias. Resistem quando têm que produzir
mais com menos dinheiro, resistem
através da cultura como o
hip hop, da dança, da música, da
forma como reagem. Muitos professores
em muitos países enfrentam
isso todos os dias. Eles vêem alunos
que não prestam atenção, dormem
nas aulas, não fazem as tarefas.
Como um formador de professores
e como ex-presidente de um sindicato
de professores, não gosto de
falar isso. Mas entendo que há diversas
formas de resistência. No
Brasil é muito duro para as crianças
completarem a escola primária.
Então, temos que perguntar: por
que essas crianças resistem? Eles entendem
pelo menos parte dos problemas
econômicos e sociais? E então
nos perguntamos o que deve ser
feito com o currículo, com os professores,
se eles já trabalham tanto
e com tantas dificuldades. O que
devemos fazer nas escolas, na economia,
na saúde. Sem isso, teremos
apenas resistência, até mesmo da
parte dos professores. Em toda a
América Latina os professores têm
se tornado os novos pobres, pois não
têm o suporte que precisam. Criase
uma resistência de toda a sociedade à
s mudanças. É nesse momento
que julgo importante o papel dos
sindicatos de trabalhadores e de
professores, que no Brasil têm uma
longa história de conquistas.
EC – Qual o papel da escola
nesse conflito?
Apple – É uma instituição contraditória.
As escolas são vitoriosas
e derrotadas ao mesmo tempo. Os
grupos dominantes preferem que as
classes trabalhadoras simplesmente
repitam o que eles dizem. E durante
anos, no meu país, no seu, e
em muitas nações, os grupos dominantes
não queriam sequer que as
classes trabalhadoras soubessem ler.
Eles foram forçados a criar escolas
para esses trabalhadores, porém,
com a condição de que as escolas
deveriam ensinar o que eles pregam,
sem respeitar a história e a
cultura das classes trabalhadoras.
Quando olho para as escolas e suas
crises em muitas nações, lembro
que a escola tem uma vitória parcial.
Por que muitos neoliberais falam
sobre a escola? Eles atacam a
escola constantemente. Eles defendem
o setor público, querem
privatizar, eles querem jogar. Comparo
a um jogo de futebol entre
oprimidos e dominantes. Mas dentre
o que está acontecendo no Brasil
destaco Porto Alegre, com o
Escola Cidadã. Com este exemplo,
Porto Alegre se tornou professora
do mundo, e eu falo muito sério.
(Nota: o conceito Escola Cidadã
implantado pelas administrações
do PT foi desativado em Porto Alegre
pela atual administração).
EC – Como o senhor define o
conceito de escola cidadã?
Apple – Uma escola cidadã na
minha opinião age contra as definições
neoliberais que vêem o cidadão
como um consumidor que
faz escolhas num supermercado.
Uma escola cidadã é um lugar
onde as pessoas constroem e defendem
uma Educação mais forte,
crítica e democrática. Este é o primeiro
passo. A segunda coisa é a
compreensão da dialética da Educação.
As pessoas nas favelas, os professores
e as crianças nas escolas também
devem ter voz e, por isso, exercer
liderança. Vi isso especialmente
na administração do PT em Porto
Alegre com a eleição de pessoas representativas
para as comunidades
para sugerir políticas, tendo uma voz.
EC – Como foi sua experiência
como sindicalista e qual a importância
das organizações sindicais na
democratização da sociedade?
Apple – Eu não posso imaginar
nenhum movimento para uma sociedade
democrática sem os sindicatos.
Eles são absolutamente
cruciais para a voz dos professores,
dos oprimidos, dos trabalhadores.
Uma das coisas que temos que lembrar é
que as pessoas estão perdendo
seus empregos. E é crucial que
os sindicados mobilizem as pessoas
que têm e que não têm emprego.
Eu quero sindicatos que trabalhem
com movimentos sociais e acho que
eles são o eixo da democratização.
Em muitas nações os sindicatos estão
sofrendo ataques freqüentes.
EC – Existe uma relação da
qualidade das condições de trabalho
dos professores das escolas privadas
com a qualidade do ensino
ofertado por essas instituições?
Apple – Na minha opinião nenhuma
instituição pode ser considerada
boa e democrática se as
pessoas que trabalham nela não são
tratadas com respeito, autonomia
e um salário decente. Eu conheço
instituições em que os alunos vão
muito bem em exames nacionais, o
que pode parecer uma boa escola,
mas os professores são desrespeitados,
ganham mal e não têm autonomia
sobre seu trabalho, como se
estivessem trabalhando em uma fábrica.
Para mim, essas escolas não
são boas. Portanto, combinando respeito,
autonomia e salário decente
ao professor com a participação em
movimentos sociais é muito mais
fácil ter uma escola que progrida.
EC – No Brasil existe uma crescente
tendência de mercantilismo da
Educação privada. Esse modelo existe
também nos EUA e em outras
partes do mundo? Como o senhor
avalia essa tendência da Educação
ser encarada como um business a
partir de uma visão empresarial?
Apple – Não há sentença grande
o suficiente que comporte a palavra
Educação e a palavra Negócios
na mesma frase. O que eu quero
dizer é que nós destruímos o significado
da Educação olhando para
ela através dos óculos do mundo
dos negócios. Escolas não são lugares
para geração de lucro. É isso
que eu penso, pois o objetivo da
Educação é transformado na sua essência.
O objetivo da Educação
deveria ser formar cidadãos críticos,
intelectuais livres, desejosos de
aprender mais, de dar retorno para
a sociedade. Os valores que guiam
essa Educação devem proporcionar
a participação de todos, além de formar
líderes que questionem a economia
e a política. Estes são os objetivos
da escola ética. Transformar
escolas em negócio as reduz a uma ú
nica coisa: lucro.
EC – Quem é a nova direita e
como ela pode ser definida nos EUA
e no mundo?
Apple – No meu livro mais recente
chamado Educando à Direita
identifiquei quatro grupos que eu
chamo de modernização conservadora.
O primeiro são os neoliberais,
que acreditam que tudo que é público é
ruim e tudo que é privado é bom. O segundo é o
que chamo de
neoconservadores. Estes têm um
projeto cultural e econômico próprio
e não querem o multiculturalismo.
Neoliberais e neoconsevadores
estão trabalhando
juntos, pois os neoliberais
privatizam a Educação e os
neoconservadores podem escolher
como consumidores. Estes são os
grupos dominantes. O terceiro grupo
que está crescendo no Brasil,
Guatemala, São Salvador e outros
lugares no mundo, chamado de
populismo autoritário, são os religiosos
evangélicos. Muito conservadores,
eles acreditam que o problema
das escolas é que a sociedade
está longe de Deus. E que todos
os problemas seriam solucionados
se todos levassem a religião da
mesma forma que eles. Temos ainda
os chamados de
homeschooling (instrução em casa), que é quando
os pais tiram seus filhos das escolas
e os educam em casa. Então,
eles não precisam ter contato com
pessoas de outras religiões, cultura
ou raça. Temos hoje cerca de 2 milhões
de crianças nos EUA sendo
educadas desta forma. A maioria por
motivos religiosos. Esta é uma tendência
que está crescendo em muitos
países. O quarto grupo é chamado
os novos gestores. Estas pessoas
são da classe média e querem
mostrar que estão agindo da maneira
certa, usam modelos importados
e têm poder econômico.
EC – As direitas religiosas devem
ser temidas por suas posições e
influência na Educação?
Apple – Não, devemos apenas
respeitá-las. Eu trabalhei para movimentos
religiosos na América
Latina e com pessoas que diziam: “Jesus trabalha
para os pobres, então é
o que eu devo fazer”. Não
sou contra religião, mas sou contra
conceitos muito conservadores
que dizem que apenas eles estão
seguindo as palavras de Deus e as
outras pessoas não.
EC – De que forma o currículo
escolar está ligado à questão de ideologia
política?
Apple – O currículo faz parte
do que eu chamo de seleção tradicional
que deveria abordar o
vasto mundo do conhecimento
acadêmico, popular, de diferentes
culturas, raças e classes sociais.
Quando você olha e diz: isso é um
conhecimento importante, oficial,
ele pode ser conservador ou popular,
mas é sempre ideologia. Mas
se formos olhar para os livros didáticos
em todo o mundo, quase sempre
eles vão trazer a ideologia dos
grupos dominantes.