À procura
de um projeto de nação
Procura-se um conjunto de idéias e concepções
que estabeleça uma estratégia de desenvolvimento
econômico e
social para o Brasil. A primeira constatação é a
de que nenhum partido político tem hoje um projeto nacional. “A
gente
até pensava que o PT tinha, mas depois viu que não.
Quando chegou ao poder, deu continuidade à política
econômica de
Fernando Henrique Cardoso”, afirma Elimar Pinheiro do Nascimento,
diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável
(CDS) da Universidade de Brasília. “Não significa
que eles (os partidos) não se preocupem em levantar bandeiras
ou fazer
proposições políticas. Mas nenhum
apresenta uma estratégia de médio ou
longo prazos para o país”, acrescenta.
No caso do PT, as bandeiras estão concentradas
nas políticas sociais adotadas
pelo governo Lula. Na época de FHC,
os tucanos se preocuparam mais com
a regulação do aparelho estatal através
de agências como Aneel (energia
elétrica) ou Anatel (Telecomunicações),
enquanto a turma do DEM (ex-PFL) prega
há bastante tempo o encolhimento
do Estado e condições mais favoráveis
para os investimentos privados.
Por Paulo César Teixeira

e
o espectro partidário não
revela um projeto nacional
bem definido, algo parecido
pode ser identificado na voz de
personalidades políticas, como o
ex-governador do Distrito Federal
e ex-ministro da Educação, Cristovam
Buarque, ou do economista
Mangabeira Unger, que ocupa
desde abril de 2007 o cargo (com
status de ministro) de secretário
especial de Ações de Longo Prazo
do governo Lula. Cristovam defende
com unhas e dentes a priorização
dos investimentos na área da
Educação, mas não encontra apoio
sequer em seu partido, o PDT (leia
entrevista à p. 13). Já Unger sustenta
que a Amazônia poderia ser usada
como laboratório de um novo modelo
econômico, que mais tarde seria
transplantado para todo o país,
com base no fortalecimento do capital
humano e na convivência sem
agressões com o meio ambiente.
Ligado ao Partido Republicano
Brasileiro (PRB), a exemplo do
vice-presidente da República José Alencar,
Mangabeira Unger (professor de Direito da Universidade
de Harvard) era um ferrenho crítico
de Lula na campanha eleitoral
de 2002, quando assessorou o
então candidato Ciro Gomes.
Hoje, em tese, seria o responsável
pelo planejamento de programas
governamentais com vistas a 2022,
quando o Brasil completará 200
anos da Independência. Na prática,
sua secretaria tem escassos recursos
e nenhuma influência efetiva
nas decisões do governo. “Personalidades
como Cristovam e Unger
não contam com um aparato
partidário robusto para que suas
idéias possam tornar-se factíveis”,
afirma Elimar, da UnB.
BARCO SEM RUMO – O
professor da UnB compara o país a
um barco que, na ausência de um
plano de navegação, desloca-se à
deriva no oceano à espera de
alguém que decida o rumo a ser
tomado. Bem ou mal, cumpre
uma trajetória que precisa ser decifrada
pelos especialistas. “Se a
gente olhar para trás, verá que
desde 1989, com a eleição de Fernando
Collor de Mello, o país
optou por uma política econômica
liberal com feições brasileiras,
isto é, impregnada de compromissos
sociais. Mudam presidentes,
ministros da Fazenda, moedas,
mas a política econômica continua
centrada em três itens principais:
ampliação da lógica de
mercado, controle da inflação e
inserção do Brasil na economia
globalizada”.
Os alicerces desse projeto nacional
não escrito estariam fincados
nas instituições do Estado e
da própria sociedade brasileira,
conforme o diretor do CDS: “As universidades
públicas, por exemplo,
são hoje mais mercantilistas que há 20 anos e até por essa razão
surgem os escândalos em suas fundações.
Elas estão possuídas pela lógica
do mercado”. Também a religião
se apropria da visão mercantilista,
tanto que a Igreja Universal
do Reino de Deus (proprietária
da Rede Record de Televisão) se
comporta como uma corporação
multinacional.
Segundo o professor da UnB,
até no futebol impera a lógica de
mercado, com o surgimento de
times sem tradição ou torcida,
comandados por empresários,
como o Guaratinguetá, que quase
chegou às finais do Campeonato
Paulista deste ano. E o técnico
de maior prestígio do país,
Wanderley Luxemburgo, raciocina
e age fora das quatro linhas
como um
empresário.
Quando assina
contrato
com um
clube, exige
obter lucros
sobre a valorização
de
jogadores
por ele indicados,
o que
lhe garante
rendimento
superior ao
salário fixado.
Divisor de águas
Não existe consenso entre os especialistas,
entretanto, quanto à semelhança das políticas
adotadas por Lula e FHC. “Não há como compreender
a política externa de Lula sem perceber
uma concepção diferente da que prevaleceu
no governo anterior. Não por acaso, a conduta
internacional do Brasil tem sido muito criticada
pela oposição”, afirma Sebastião Velasco
e Cruz, professor de Ciência Política da Unicamp.
Detalhes como papel do BNDES, políticas
solidárias e gestão da dívida externa diferenciariam
a política econômica adotada por um
e outro. “Desconhecer esse fato é um enorme
equívoco”.
A maior parte dos analistas concorda que não
há um projeto nacional no horizonte partidário. “Com
uma formulação conceitual de ações
coordenadas,
não conheço nenhum, o que não
impede que as várias camadas da população
possam aderir a diferentes visões políticas”,
diz
Wanderley Guilherme dos Santos, diretor do
Laboratório de Estudos Experimentais da Universidade
Cândido Mendes, do Rio de Janeiro.
Conforme ele, a passagem do poder de FHC para
Lula coincidiu com o esgotamento de uma era “oligarquizada
e seletiva”. “Nem sempre os políticos
se despedem do poder com aquela sensação
mortuária do segundo mandato de Fernando
Henrique. Basta lembrar que não havia clima
de velório e sim de euforia no final do governo
de Juscelino Kubitschek”.
Autor de obras como Horizonte do desejo: instabilidade,
fracasso coletivo e inércia social (Editora
FGV, 2006), Wanderley Guilherme entende
que o ingresso das classes mais pobres no circuito
da produção e do consumo, a partir do governo
Lula, representa “uma grande novidade na
História do país”. “O Brasil mudou e
continua
mudando muito rápido. O percentual da população
com acesso ao consumo saltou de 10%
para 60%, o que estabeleceu uma clivagem
entre os que tendem a propor novos avanços e
os que resistem e imaginam ser possível retornar à
situação anterior”. Para ele, esse divisor
de águas não se limita à disputa partidária,
porque se trata de um debate entranhado em
todos os partidos, tanto no governo quanto na
oposição.
Temas pontuais predominam no debate eleitoral
Eduardo Corsetti, professor de Ciências Políticas
da Ufrgs, acredita que a eleição presidencial
de 2010 não será pautada pelo debate em torno
de projetos nacionais. “As questões tópicas
terão maior peso do que um programa que diferencie
uma ala política de outra”. O especialista
destaca que o desafio da oposição será mostrar
de forma eficaz para a população as mazelas do
atual governo, citando escândalos de corrupção,
gastos excessivos e aparelhamento do Estado pelos
partidos da base de apoio parlamentar. “Até a
crise do desenvolvimento econômico se configura
como problema, à medida que o crescimento
não deslancha”. Em contraposição, Lula
terá pela
frente a espinhosa tarefa de transferir para o candidato
oficial a aprovação popular de seu governo
e, mais do que isso, o carisma pessoal junto à população. “A
dificuldade é que essa
transferência
não se dá em um plano racional, por isso, ele
não tem a segurança de que fará o sucessor
com tranqüilidade, a menos que se engaje fortemente
na campanha, correndo o risco de assumir o ônus
de uma derrota”.
Para Corsetti, o candidato governista terá que
possuir duas virtudes, aparentemente contraditórias:
de um lado, ser capaz de beneficiar-se da
popularidade de Lula e, de outro, mostrar-se isento
de responsabilidade pelos equívocos do atual governo. Apontada
como favorita do presidente para
a sucessão, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma
Rousseff, sempre se caracterizou como boa
gestora, mas ainda não expressou um discurso
capaz de sensibilizar camadas amplas da população.
O deputado Ciro Gomes (PSB) encontra espaço
exíguo para deslanchar sua candidatura, segundo
Corsetti, porque seu partido está em segundo
plano na base governista. Velasco e Cruz,
da Unicamp, porém, não descarta um crescimento
de Ciro até 2010: “Em 1998, com apenas um
minuto na propaganda eleitoral, ele obteve mais
de 10% dos votos e surgiu como nome nacional.
Se vai se apresentar ou não daqui a dois anos, e
que espaço terá, hoje ninguém sabe”.
No lado oposto do ringue, o PSDB enfrenta
não apenas divisões internas, com a feroz disputa
entre os governadores José Serra (SP) e Aécio
Neves (MG), mas também o peso de FHC. “A figura
de FHC cria embaraços e até anula iniciativas
de lideranças como Serra e Aécio, produzindo
uma ação desorganizadora no campo da oposição”,
aponta Velasco e Cruz. Outro obstáculo para
os oposicionistas é a política de ataques pontuais
ao governo. “Não produz o efeito desejado. Há seis
anos, a oposição gasta toda sua munição
no
varejo sem arranhar a imagem do presidente”. No
espaço à esquerda de Lula, partidos como PSTU
e PSOL carecem de engates com a sociedade que
os leve a viabilizar projetos de longo prazo, conforme
o professor da Unicamp. “Esses grupos se contentam
com uma política meramente pragmática,
fragmentada, de curto prazo”.
Eleição municipal é prévia
de 2010
Para Elimar, da UnB, o PT deve
se fortalecer nas eleições municipais
deste ano, ampliando o movimento
de interiorização no mapa das urnas. “Há 25
anos, quem dominava o Nordeste era o PFL. Atualmente, graças à
popularidade de Lula, o PT avança
cada vez mais sobre os grotões”.
O PMDB e o PTB também ampliarão
seu espaço, assim como partidos
fisiológicos como PTB e PRN, que
igualmente integram a base do governo.
Todos tendem a navegar no
prestígio do presidente e, principalmente,
nas verbas do governo federal
destinadas a áreas estratégicas
do mapa eleitoral.
Na oposição, quem sair vitorioso
no pleito municipal amplia sua
chance de apresentar-se como candidato à
sucessão de Lula. Em abril,
o governador mineiro sofreu dura
derrota com o veto do PT nacional à
coligação com o PSDB para a prefeitura
de Belo Horizonte. Há bastante
tempo, Aécio tenta mostrarse
como o tucano com maior capacidade
de agregação, flertando
também com o PMDB. Enquanto
isso, na capital paulista, Serra tratava
de matar dois coelhos com uma
só cajadada, ao costurar aliança
com a ala do PMDB chefiada por
Orestes Quércia para apoiar a reeleição
do prefeito Gilberto Kassab,
do DEM, puxando o tapete de Geraldo
Alckmin, unha e carne com
Aécio.
Nascido em 1942, Serra tem idade
para ser pai de Aécio Neves, que
completou 48 anos em março passado.
O governador paulista poderia
argumentar que a sucessão de
Lula será sua última chance de
apresentar-se como um candidato
competitivo à Presidência da República. “A
questão é que argumentos
sentimentais não valem
muito na disputa política”, repara
Elimar. Para Lula, tanto Serra como
Aécio podem ser boas alternativas,
desde que a reeleição fosse extinta. “Muito
se fala em terceiro mandato
de Lula, mas esta seria uma situação
perigosa para ele. O receio
de Lula é a reeleição, que restringiria
suas possibilidades de voltar ao
poder em 2014 ou 2015”. Na visão
do professor da UnB, o quadro ideal
para Lula é que o próximo presidente
tenha mandato de cinco anos
sem a possibilidade de reeleger-se. “Neste contexto,
Lula não perde
muito com Serra e Aécio no poder,
porque nenhum deles teria facilidade
de transferir votos ao sucessor.
Por outro lado, um candidato do PT
vitorioso em 2008 poderia atrapalhar
o retorno do atual presidente, se for
um desastre. Como todo bom político,
Lula avalia os riscos que corre e
joga em várias frentes”.
| "O
PDT não assumiu o meu projeto" |
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Em 20 de abril passado, após
participar do congresso nacional
do PDT, em Brasília, o senador
Cristovam Buarque concedeu
entrevista ao Extra Classe,
mostrando-se desanimado
com a falta de apoio do partido
a seu projeto nacional de absoluta
prioridade à Educação.
Extra Classe – Qual é o projeto
que o senhor defende para o
país?
Cristovam Buarque – O projeto
está focado na transformação
da sociedade brasileira, com
redução das desigualdades, aumento
da riqueza nacional e
equilíbrio ecológico. A diferença
em relação a outras propostas é
que, em minha concepção,
tudo isso só virá a partir da Educação.
Alguns acham que crescimento
econômico é suficiente.
Penso que, sem Educação, o
desenvolvimento fica paralisado
e o país não consegue dar o
salto necessário.
Extra Classe – O senhor vê projetos nacionais na oposição
ou no governo?
Cristovam – A oposição
está perdida. Não faz crítica
ideológica ou propositiva. Fala
só em corrupção. É uma
oposição
oportunista e não programática.
Por outro lado, o
governo acha que a popularidade
do Lula basta para construir
um novo país e fica administrando
o cotidiano. Ninguém
está pensando no longo
prazo.
Extra Classe – O PDT defende
o projeto do senhor?
Cristovam – Nenhum partido
tem programa. Pessoas de
partidos é que têm. Reconheço
que o PDT não assumiu o
meu programa, embora ele tenha
tudo a ver com a história
do trabalhismo. Brizola e Darcy
Ribeiro sempre disseram que a
Educação é importante.
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