
A
cartilha da carreta

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tenho uma tese sobre a razão de tanto destrambelhamento
na vida atual e o porquê do mundo andar tão desconjuntado. É
falta de carretas entre nós. Basta comparar: se no tempo
das carretas tudo funcionava nos eixos, a lógica manda trazer
esses eixos de volta. Com eles tudo se ajeita.
Mas, dessa vez, nada de metáforas. Chega do blablablá da
desobediência,
voltemos ao bê-a-bá da experiência. Que saia
a inércia
teórica e venha o aprendizado das coisas feitas no muque.
Precisamos da exemplar carreta.
Para recompor a autoridade do sistema de ensino, o projeto é simples:
uma comprida carreta, com no mínimo quatro parelhas
de bois. Sua função é fazer um circuito escolar
revolucionário.
Calma, tem fundamento.
Antes do dia aprazado da chegada da carreta, convoca-se a
comunidade para o exercício do ajuste social: a diretoria
da escola
e professores, pais e alunos, povo e, claro, as tais autoridades
políticas, civis, militares, sei lá que mais.
Com os bois reunidos à parte e a carreta num canto, as autoridades
teriam a manhã para orientar a multidão na primeira
montagem
da carreta, conforme os ditames da desordem hoje em dia:
o negócio é pôr a carreta adiante dos bois
e conferir como a coisa
funciona.
Como não há liderança ou bom senso, a confusão
será geral:
vão perder tempo com papeladas, discussões intermináveis
sobre
a seqüência das parelhas, análise da simbologia
das cangas, tudo à
luz das leis de proteção aos animais. As horas vão
passar, a
exaustão virá, mas, enfim, a carreta ficará pronta.
Então uma autoridade
local será convidada a dar o eia! inicial.
Os bois vão atender o apelo. Mas com a carreta estática
lá na
frente, como um obstáculo irremovível, nada conseguirão.
Nenhuma
viagem acontecerá. Aí já é hora do
intervalo do exercício.
Na segunda parte, os educadores assumem os postos. Eles têm
liberdade para impor métodos e está combinado que
haverá disciplina
e suas ações serão inquestionáveis.
Tudo pelo bem da
remontagem da carreta. A instrução agora é pôr
os bois onde sempre
estiveram. O mutirão segue a orientação dos
professores e a
pacífica tarefa é concluída.
Uma antiga professora sobe na carreta para guiar o veículo.
Nem precisa gritar ou usar a vara: os oito bois fazem a carreta
ranger e se movimentar. Aplausos.
A lição foi dada, a carreta segue para nova escola.
Aposto que
num ano a política educacional melhora.
Ou arranjem outra tese.
