UNICRUZ – A Universidade de Cruz Alta (Unicruz) empossou
no início
de abril sua primeira reitoria eleita pelo voto de professores,
alunos e funcionários.
Há dois anos e meio a instituição sofreu uma
intervenção do Ministério
Público por suspeita de corrupção. Uma administração
judicial foi nomeada
e conduziu a reforma estatutária e as eleições
da presidência da Fundação
e da Universidade. O processo teve ampla participação
do Sinpro/RS que,
representando os professores, encaminhou denúncias a partir
de uma auditoria
e manteve negociações com o Ministério Público
e a administração judicial,
além de pressionar para que o cronograma do processo eleitoral
fosse cumprido.
A cerimônia de posse da reitoria eleita foi realizada no
Ginásio 1 do
Campus Universitário. A programação iniciou
com a posse do Conselho Diretor
da Fundação, feita pelo Administrador Judicial, Luiz
Lenio Gai. O Conselho é
composto por José Ricardo Libardoni dos Santos (presidente
da Fundação),
José Carlos Severo Correa (Vice) e o funcionário
da Universidade, o
contador Eduardo Müller Reck (conselheiro titular). O presidente
da Fundação
empossou a nova Reitoria, Elizabeth Fontoura Dorneles e as vice-reitoras
de
Graduação, Sirlei De Lourdes Lauxen, de Pós-Graduação,
Pesquisa e Extensão,
Patrícia Dall’Agnol Bianchi, e o vice-reitor de Administração,
Fábio Dal-Soto.
Em entrevista ao jornal Extra Classe, a reitora Elisabeth Dorneles
afirma que a reforma estatutária impõe mudanças
e mais transparência na gestão da instituição,
mas não há perspectiva de fim da crise financeira
vivida pela universidade.
| Foto:
Divulgação |
 |
Elizabeth
foi empossada pelo presidente da
Fundação, José Libardoni
|
Extra Classe – A eleição é considerada
histórica na Unicruz por ter sido realizada após
dois anos e meio de intervenção judicial e por
ser o primeiro processo democrático de eleição
na instituição, com a participação
dos professores e dos alunos. O que representa para a instituição
essa nova realidade e o que deve mudar (para a Unicruz e para
quem assume), com a posse da reitoria eleita?
Elisabeth Dorneles – O momento que vivemos, oportunizado
pela eleição onde o voto universaliza-se para toda
comunidade acadêmica, foi e está sendo muito fértil
para que se instaure uma nova cultura nas relações
internas e externas na Universidade. Todo processo tem sido orientado
pelas decisões consensuadas o que resulta no engajamento
da maioria. Até o respeito que foi se construindo em relação às
divergências na campanha eleitoral decorre da convivência
fundamentada na observância do regramento. A vitória
da chapa Acreditar simboliza o estágio da maturidade institucional.
Isso me deixa muito orgulhosa, pois o que estamos fazendo é fruto
de um projeto que vem de longa data. Cheguei até aqui
sem abrir mão dos meus princípios éticos
e de minha concepção de universidade. Nós
apresentamos uma proposta de gestão onde nos propusemos
a dar continuidade aos ajustes necessários para que a
instituição seja viável ainda que com 3.500
a 4.000 alunos. Assim, em relação às mudanças,
entendemos que elas serão muito mais de ordem da nova
estrutura imposta pela reforma estatutária do que pela
mudança de orientação em relação
ao que já foi feito nos últimos dois anos.
EC – Haverá alguma mudança de projeto de
gestão em relação à administração
do período de intervenção? Quais?
Elisabeth – O que muda é por força estatutária.
Embora tenhamos agora a divisão da gestão com o
Conselho Diretor da Fundação, onde se dão
decisões financeiras e a administração da
dívida, atuaremos conjuntamente no sentido de continuarmos
tendo o pagamento de salários como prioridade. A gestão
ganha também outros contornos à medida que temos
a reitora eleita, legitimada por quase 70% dos votos, que exercerá seu
papel de articuladora política da Universidade. Sabemos
que os problemas são muitos e que a solução
para os mesmos depende muito da nossa capacidade de fazermos
ajustes internos, mas também teremos que intensificar
articulações com instituições externas
e representantes políticos da sociedade. A gestão
estará assim muito atenta ao seu público interno,
mas sintonizada sempre com a comunidade externa.
EC – A universidade vem atrasando salários e descumprindo
o acordo com os professores. Qual a perspectiva de pagamento
em dia dos salários?
Elisabeth – A questão dos atrasos salariais ainda
vai nos perseguir por algum tempo, uma vez que temos assumido
o pagamento de parcelamentos de dívidas fundamental para
a continuidade da Instituição. Saliente-se bem:
dívidas geradas por gestões do passado. O pagamento
dos salários em dia está relacionado aos ajustes
na própria política de oferta de cursos cuja demanda
hoje é muito baixa. Desse modo não temos como precisar
o tempo quando não haverá atrasos salariais.
EC – Quais os mecanismos existentes na universidade para
fiscalizar eventuais procedimentos ou operações
ilícitas ou favorecimentos, a exemplo do que ocorreu anteriormente?
Elisabeth – Os mecanismos de fiscalização
estão mais no âmbito da Fundação,
que tem hoje o conselho fiscal. Fora isso entendemos que a vigilância
constante de toda comunidade acadêmica será um dos
mecanismos para inibir atos administrativos impróprios.
Nossa visão é de que a gestão compartilhada
entre Fundação e Universidade, onde os conselhos
assumem seu papel com responsabilidade, e a observância
dos princípios da ética na condução
do bem comunitário é fundamental. Outro mecanismo
importante é o da vigilância constante para que
seja banida de uma vez por todas da Unicruz a cultura da pessoalidade.
O que tem que prevalecer é a competência e o mérito
acadêmico. Nosso propósito é de criar todas
as condições para que assim o seja.
EC – Como se dará a relação entre
a Reitoria e a Fundação Unicruz com base nos novos
estatutos?
Elisabeth – As relações entre a Reitoria
e a Fundação estão prenunciadas para serem
muito produtivas. Temos perfeita sintonia com o Presidente da
Fundação, não só a Reitora, mas todos
os Vices-Reitores. Neste momento estamos construindo caminhos,
além dos estabelecidos pelos dois estatutos, para que
haja fluxo perfeito entre mantenedora e mantida. Os estatutos
colocam a Reitoria no Conselho Curador assim como esse conselho
está representado no CONSUN. Claro que isso não é suficiente,
mas entendemos que já se estabelece uma relação
de compartilhamento das decisões e de responsabilidades.
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