
Reparação

á pouco,
na França, discutia-se a idéia de incluir nos currículos
escolares, como matéria obrigatória, os anos da ocupação
nazista
do país e a cumplicidade do Estado francês na perseguição
aos
judeus, no período.
Não sei no que deu. Não parecia uma idéia muito
boa submeter a
garotada aos horrores de outra época. Ainda mais uma época
que, se
não é mais contemporânea, ainda não foi
totalmente desarmada pela
distância histórica. Mas o objetivo era não esquecer,
para não repetir, e
passar para as novas gerações uma memória nacional
inteira, sem rasuras.
Embutida na idéia estava a questão do que um Estado
culpado deve
fazer com sua culpa. Como reconhecer o que fez com a nação
e os seus
cidadãos num tempo de exceção, e como reparar
o que fez.
A questão da reparação foi tratada de formas
diferentes quando
acabou o último ciclo dos governos militares na América
do Sul. No
Chile, Pinochet foi ameaçado até morrer com processos,
para que pagasse
pelo menos judicialmente pelos anos de repressão e terror
que
comandou. Na Argentina, a responsabilização criminal
de torturadores
e seus mandantes, dos tempos da ditadura, se repete. No Brasil, preferiram
a anistia. Nem os mais notórios criminosos do regime nem seus
mais radicais opositores precisaram se preocupar em pagar à nação
pelo
que fizeram. Mas para não dizerem que ninguém pagou
por nada, que o
Estado brasileiro não reconheceu sua culpa e a memória
nacional simplesmente
deletou esta parte da nossa história, está havendo
reparações,
sim. Em reais, para quem se sentiu prejudicado pelo Estado desvairado.
Indenizações por carreiras interrompidas, vidas alteradas,
saúde
abalada, dinheiro perdido ou vexame sofrido. Justiça em espécie
em
vez de justiça bíblica.
Os critérios e as quantias das reparações são
para outra discussão,
mas é curioso que em meio a toda essa furiosa indignação
com o que o
Jaguar e o Ziraldo vão receber, ninguém apreciou a
troca pacífica que
isto representa – a indenização deles e de outros
pelo Estado substituindo
formas de retribuição mais violentas, e menos brasileiras.
Há até uma justeza poética no fato
de Jaguar e Ziraldo, dois dos maiores exemplos
da criatividade e da excepcionalidade brasileiras, estarem no centro
dessa tempestade de opiniões. Pois somos excepcionais e criativos
até nos nossos acertos de contas com a História.
(Há quem prefira o velho olho por olho a qualquer outra forma
de
justiça, claro. Mas isso também é assunto para
outro dia).
