Uma nova tempestade armada no céu do deserto. Doze anos
depois, os Estados Unidos preparam-se* para atacar mais uma vez
o Iraque a fim de depor o presidente Saddam Hussein. Em 1991, George
H. Bush, pai do atual presidente dos EUA, chamou de tempestade
no deserto a operação que praticamente aniquilou
a infra-estrutura do país situado no Golfo Pérsico,
com uma população de 24 milhões de habitantes,
dono da segunda maior reserva mundial conhecida de petróleo,
calculada em mais de 113 bilhões de barris estima-se
que outros 220 bilhões estejam ocultos sob o solo. Agora,
George W. Bush justifica a intervenção militar em
nome da democracia e da luta contra o terrorismo. São 210
mil militares americanos e 40 mil britânicos, com o arsenal
mais poderoso e sofisticado do planeta, contra 420 mil soldados
iraquianos agarrados a equipamentos obsoletos. Cabe a pergunta:
por que o Iraque representa uma ameaça tão grave,
a ponto de provocar a primeira guerra do século XXI?
Paulo César Teixeira
s
mísseis só não cruzaram ainda antes o céu
de Bagdá por causa da reação da opinião
pública mundial. Em fevereiro, cerca de 6 milhões
de pessoas foram às ruas em protesto contra a guerra, em
150 cidades e 60 países. Vale lembrar que as manifestações
populares que ajudaram a empurrar os EUA para fora do Vietnã,
no final dos anos 60, só começaram após o envolvimento
no conflito. Depois, ganharam fôlego graças à
cobertura da mídia, em especial às imagens da televisão.
As manifestações de fevereiro de 2003, ao contrário,
ocorreram antes do primeiro disparo. Adepto da doutrina da guerra
preventiva, segundo a qual os EUA se arrogam o direito de
atacar qualquer nação que, supostamente, abrigue ou
favoreça a ação de terroristas, Bush foi surpreendido
por uma onda de protestos de caráter igualmente preventivo,
que mobilizou todos os continentes.
O saldo dos atos de contestação é o fato
de que elevaram imensamente o custo político da ação
militar, sobretudo, no âmbito dos países aliados dos
EUA, particularmente Inglaterra e Itália e, em menor medida,
Espanha, Portugal e Austrália, afirma o professor do
Instituto de Relações Internacionais da PUC-RJ, Luís
Fernandes. Às voltas com quedas acentuadas dos índices
de pesquisa eleitoral, o primeiro-ministro britânico Tony
Blair assistiu, de camarote, à reunião de 1 milhão
de manifestantes, em Londres. A guerra no deserto terá
que ser rápida e fulminante. Caso contrário, as condições
políticas de apoio a um conflito prolongado ficarão
a cada dia mais difíceis, completa Fernandes.
Um presidente sem estatura de estadista
Alguns
analistas entendem que Bush tem motivos de sobra para atacar o Iraque.
É o caso do professor de Pós-Graduação
em Economia da Ufrgs, Ronald Hillbrecht, para quem Saddam é
mau e cruel, talvez o pior ditador da face da Terra.
Entretanto, ele salienta que o presidente do Iraque é extremamente
racional e, como tal, só acredita em ameaças
críveis e concretas. Cita como exemplo a mensagem enviada
por Bush pai, na Guerra do Golfo, indicando que revidaria com um
ataque nuclear, caso Saddam jogasse bombas químicas ou biológicas
nas tropas dos EUA. Outros especialistas, no entanto, custam a crer
que a iniciativa americana tenha como justificativa a natureza autoritária
do regime iraquiano. Há ditadores aos montões
na África, causando morte e violência. Quando bate
a fome, morrem 1 milhão de africanos em dois ou três
anos e ninguém se incomoda, ressalta Maria Aparecida
de Aquino, professora de História Contemporânea da
USP.
Para ela, a atitude bélica de Bush se explica por razões
políticas. Antes dos atentados de 11 de setembro de 2001,
contra Nova York e Washington, o presidente enfrentou séria
crise de legitimidade, com a contestação da sua vitória
nas urnas diante de Al Gore. Sem espessura e densidade de
um estadista, era como se ele não tivesse uma razão
de ser. A reação contra o terrorismo da organização
Al Qaida, de Osama Bin Laden, garantiu sustentação
interna a Bush, observa a professora da USP. A guerra é
também o meio de desviar a atenção do desempenho
da economia americana, que, em janeiro de 2003, fez soar o alarme
do gabinete oval da Casa Branca. A inflação de 1,6%
foi a pior em 13 anos as previsões eram de 0,5%. Só
o preço da gasolina aumentou 13,7% no mês, o que representa
um escândalo para o consumidor americano. O déficit
das transações com o exterior é o maior de
todos os tempos, na ordem de US$ 435,2 bilhões, valor equivalente
ao PIB do Brasil.
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