Um país esfacelado pela guerra
A Guerra do Golfo, em 1991, e o posterior embargo econômico
imposto pela ONU destruíram a infra-estrutura econômica
do Iraque, afetando dramaticamente os índices de alimentação,
saúde e educação da população.
Antes, 4,5% das crianças nasciam abaixo do peso mínimo
aceitável. O percentual subiu para 24,7%. A taxa de mortalidade
infantil até os cinco anos de idade, que era de 26 por 1000
nascidas vivas, pulou para 131. Em outras palavras, cerca de 13%
dos pequenos iraquianos morrem antes de completarem cinco anos de
idade.
Entre os dias 2 e 7 de fevereiro deste ano, uma comitiva de quatro
deputados federais do PT e do PC do B viajou até Bagdá
para conhecer de perto as condições de vida do povo
iraquiano. Lá, visitou hospitais, escolas e abrigos antiaéreos
destruídos pelos bombardeios, além de manter contatos
com autoridades locais. A visita ao Al-Mansur Hospital Pediátrico,
em Bagdá, foi um dos momentos mais dolorosos de nossa agenda.
Não há como conter o espanto e a indignação
ao ver como seres humanos são condenados a morrer, quando
já existem todas as condições de cura das enfermidades
que os atingem, afirma o deputado Tarcísio Zimmermann
(PT-RS), que integrou a comitiva.
O isolamento do país afetou a mesa dos iraquianos. A cesta
básica distribuída a famílias de cinco membros
sofreu drástica redução de proteínas
e calorias. Atualmente, ela é composta apenas por 45 kg de
farinha, 25 de arroz, 7,5 de açúcar, 2,5 de leite
em pó, 1 de chá, 2 de detergente e 12 de sabão.
A guerra deixou também graves seqüelas no sistema de
ensino. Cerca de 60% dos prédios escolares foram danificados.
Há carência de canetas, cadernos e livros escolares.
Para agravar o quadro, o analfabetismo que havia sido debelado
na população com menos de 45 anos, entre 1975 e 1985
voltou a preocupar. A falta de infra-estrutura escolar e
a situação miserável das famílias obrigam
muitos jovens a abandonarem os estudos. De acordo com o Ministério
da Educação do Iraque, entre 1991 e 2002, mais de
1 milhão de crianças em idade escolar deixaram de
freqüentar as escolas antes de alfabetizarem-se.
A partilha do Iraque custará bilhões
de dólares
Não custa lembrar que a região do Oriente Médio
é o calcanhar de Aquiles da política externa
americana, de acordo com o coordenador do Núcleo de Estudos
Estratégicos da Unicamp, Geraldo Cavagnari. Nos anos 70,
era responsável por 90% do abastecimento de petróleo
dos países desenvolvidos. Hoje, corresponde a 65%, com o
ingresso no mercado das nações do Leste Europeu, que
pertenciam ao bloco comunista. Os EUA é o maior importador
e trata de poupar as próprias reservas, que devem esgotar-se
em cinco anos, se o consumo interno continuar crescendo. Por isso,
manter o controle sobre as fontes energéticas no exterior
é questão prioritária. Além disso, o
Golfo Pérsico representa importante passagem da Europa para
a Ásia. Quem não gostaria de entrar nos gigantescos
mercados da China e da Índia?, indaga Maria Aparecida.
Os interesses econômicos estão por trás também
das posições de França, China e Rússia
no Conselho de Segurança das Nações Unidas,
em favor da via diplomática, de longo prazo, como estratégia
para desarmar o Iraque, em contraposição à
intervenção militar. Na aparência, o que
motiva esses países é um comportamento moral inatacável.
Na realidade, a razão é puramente comercial,
afirma o professor Cavagnari, da Unicamp. Há um ano, eles
assinaram pré-contratos de exploração do petróleo
iraquiano no valor de US$ 45 bilhões o embargo econômico
imposto pela ONU impede que sejam colocados em prática. Além
disso, está em jogo a reconstrução do país
após o cessar fogo. No conflito com o Irã, a indústria
petrolífera do Iraque sofreu danos significativos. Na Guerra
do Golfo, foi praticamente destruída. Agora, tudo indica
que não restará pedra sobre pedra. Embora seja um
investimento de risco, a reconstituição da infra-estrutura
iraquiana envolve algumas dezenas de bilhões de dólares.
Como até agora os EUA não deram indícios
de que realizarão a partilha do Iraque, franceses, chineses,
russos e alemães endureceram o jogo.
De outra parte, França e Alemanha não querem a solução
das armas porque não desejam pagar a conta. Na Guerra
do Golfo, os americanos forneceram ¾ dos meios militares
e apenas ¼ dos recursos investidos na operação
militar. Tudo indica que, agora, a ocupação do Iraque
terá um preço ainda mais salgado, pondera o
professor Paulo Fagundes Vizentini, diretor do Núcleo de
Relações Internacionais da Ufrgs. Ao mesmo tempo,
ao afrontar França e Alemanha, Bush ergue uma barricada contra
o avanço do euro, que a cada dia torna-se um concorrente
mais aguerrido do dólar. Não podemos esquecer
que a supremacia americana está baseada em três pilares:
o arsenal superior, o controle sobre as organizações
internacionais e o dólar, moeda que domina os mercados mundiais.
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