Uma Reforma Polêmica
Até o final de junho, o governo vai encaminhar ao Congresso
Nacional o anteprojeto da reforma universitária. Os principais
objetivos são ampliar o acesso das classes médias
e pobres à educação superior, garantir o refinanciamento
das universidades públicas e estabelecer um marco regulatório
para todo o sistema universitário do país. A proposta
coloca em lados opostos o MEC, com apoio da maior parte das instituições
da sociedade civil, e o setor privado de ensino, capitaneado pelo
Fórum Nacional pela Livre Iniciativa na Educação.
Afinal, quem é contra a reforma universitária e por
quê?
Paulo César Teixeira

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debate há dois anos, a reforma universitária causa
polêmica às vésperas de ser enviada ao Parlamento – pressionado
por representantes das universidades particulares, o governo prorrogou o prazo
para receber sugestões ao anteprojeto até o final de março. “Queremos
que, após as contribuições da sociedade, ele seja entregue
aos parlamentares com a força de uma proposta consensual ou, pelo menos,
apoiada por ampla maioria”, afirma o ministro da Educação
Tarso Genro, em entrevista ao Extra Classe.
A reforma universitária tem o apoio de entidades como a Confederação
Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), União
Nacional dos Estudantes (UNE), União Brasileira dos Estudantes Secun-daristas
(Ubes), Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições
Federais de Ensino (Andifes), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC), Academia Brasileira de Ciências e Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB), entre outras. “As críticas só parecem majoritárias
porque a mídia é contra a proposta e acolhe predominantemente artigos
e entrevistas contrários ao anteprojeto”, destaca o ministro.
Até os mais ferrenhos opo-sitores ao anteprojeto admitem que a discussão é democrática: “Não
sou petista e não votei em Lula, mas reconheço que o governo nunca
esteve tão aberto e disposto a discutir a questão como agora”,
diz o secretário executivo da Associação Nacional das Universidades
Particulares (Anup) José Walter Pereira dos Santos. A entidade reúne
48 universidades com fins lucrativos, comunitárias e filantrópicas,
abrangendo 1/3 dos universitários do país.
Para o diretor do Sinpro/RS e membro da executiva nacional da Contee Amarildo
Cen-ci, a reforma é necessária, ainda que possa ser aperfeiçoada.
Entre os avanços, cita o estabelecimento de um marco regulatório,
a exigência de qualidade nos serviços prestados e a fixação
de critérios rígidos para a abertura de novos cursos e faculdades.
Vale lembrar que, de 2002 a 2004, foram criados em média 4,5 novos cursos
por dia. Com a proliferação desenfreada de novas instituições
particulares nos anos 90, o percentual de universitários matriculados
no setor privado pulou de 59 para 70%. “O crescimento desarticulado com
um compromisso de desenvolvimento social não incorporou a parcela da população
historicamente excluída. Na verdade, o que ocorre é uma disputa
pela clientela das classes A, B e C”, afirma Cenci.
Romantismo revolucionário
e metritocraicia
Há pelo menos três focos de resistência à reforma da
educação superior. O primeiro é o das lideranças
da extrema esquerda, para quem o anteprojeto do MEC é pura e simplesmente
uma encomenda do Banco Mundial (BIRD) e Fundo Monetário Internacional
(FMI). “Há um grande descontentamento com a traição
de Lula”, declara o presidente nacional do PSTU José Maria de Almeida.
Para Tarso, embora legítima, a posição reflete um “romantismo
revolucionário”, que rechaça de antemão qualquer projeto
que parta do governo. “A extrema esquerda ficou sem argumentos, uma vez
que não há como apontar onde está o dedo do FMI no anteprojeto.”
O segundo foco de oposição está encravado em áreas
acadêmicas que defendem o princípio da meritocracia tanto no acesso à educação
superior como nos critérios de escolha dos dirigentes universitários.
Um dos alvos da crítica é a política de cotas, que reserva
50% das vagas nas instituições estatais para alunos egressos das
escolas públicas do ensino médio. Nesse universo de estudantes,
os negros e os índios seriam contemplados com os respectivos percentuais
populacionais, conforme o Censo do IBGE em cada região.
Para a pró-reitora de graduação da Universidade de São
Paulo (USP) Sonia Penin, a política de cotas é assistencialista
e compromete a qualidade da formação educacional. O ministro da
Educação contrapõe que as cotas são necessárias
num país onde pobreza e negritude andam de mãos dadas. “Além
disso, têm durabilidade limitada (dez anos) e não dissolvem o mérito,
uma vez que há a exigência de nota mínima no vestibular.”
O anteprojeto obriga que ao menos um dirigente universitário do setor
privado, em nível de pró-reitor ou equivalente, seja escolhido
por eleição direta com voto paritário e secreto de todos
os membros da comunidade acadêmica. “Quando um pai decide em qual
escola matricular o filho, não pergunta à cozinheira ou ao motorista
qual é a melhor opção. Na universidade, que representa a
sociedade do saber, deve prevalecer a meritocracia. Quem sabe mais tem que mandar
mais”, dispara o representante da Anup.
Para o ministro, os críticos confundem elite intelectual, filosófica,
científica e cultural com elite econômica. “A universidade é um
espaço de elite, sim, mas precisa ter a participação de
todas as classes sociais, e não só das classes média e superior,
como acontece hoje.” Já a Contee quer ir mais longe: sugere a eleição
direta de dois pró-reitores ou, na hipótese de se manter apenas
um, que este seja o pró-reitor acadêmico.
Mantenedoras rejeitam projeto "soviético e estatizante"
Com maior poder de fogo na mídia, a principal voz contra a reforma universitária é a
das instituições privadas, entrincheiradas no Fórum Nacional
pela Livre Iniciativa na Educação, que reuniu, no início
de fevereiro, em Brasília, representantes de 24 entidades. Sem meias palavras,
eles firmaram um documento no qual qualificam o anteprojeto de “intervencionista,
inoportuno, inadequado tecnicamente, eivado de inconstitu-cionalidades e ilegalidades
e preconceituoso em relação à iniciativa privada”.
Alguns diretores de universidades particulares classificaram a proposta governista
de “soviética e estatizante”.
Eles entendem que, ao exigir que as universidades particulares cumpram uma função
social, o anteprojeto submete as instituições a linhas de ensino
e pesquisa determinadas pelo governo. Também garantem que não há na
Constituição artigo que os obrigue a se adequar a um projeto de
nação, o que é negado pelo ministro da Educação: “O
item I do artigo 209 da Carta Constitucional determina que as universidades cumpram
as normas da educação nacional. No item II, está escrito
que estão sujeitas à autorização e à avaliação
do poder público.”
Guerra de preços degrada condições de ensino
Mais radical é a oposição à formação
de um Conselho Comunitário Social nas instituições universitárias,
de caráter consultivo, com a participação de entidades da
socie-dade civil. Conforme o anteprojeto, teria a função de estabelecer
laços de interação com os grupos sociais, sem ferir a autonomia
das universidades. Nele, os dirigentes das mantenedoras teriam assento em apenas
20% das cadeiras. “É uma intervenção que permite a
grupos como o MST ditar o que a instituição vai fazer”, reclama
o presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino
Superior (ABMES), Gabriel Mario Ro-drigues.
Para o secretário executivo da Anup, “não é concebível
que pessoas estranhas determinem os rumos de uma empresa particular com fins
lucrativos”. Também o presidente da Associação Brasileira
das Universidades Comunitárias (Abruc) e reitor da Universidade de Sorocaba,
em SP, Aldo Vannucchi faz coro: “Dar a entidades como CUT, UNE e MST livre
acesso ao campus é totalmente inconstitucional.”
É
bem verdade que, no caso das comunitárias, os conselhos já existem. “Para
nós, é chover no molhado. Mas o governo não pode adentrar
em pormenores da formação desses órgãos, sem ferir
a autonomia universitária”, diz o reitor da Universidade Católica
de Pelotas e presidente do Consórcio das Universidades Comunitárias
Gaúchas (Comung) Alencar de Mello Proença. Ele sugere que a criação
dos conselhos seja apenas uma “recomendação” do anteprojeto.
Para Tarso, o julgamento do setor privado padece de um “equívoco
na raiz”, que é o tratar a educação como bem meramente
mercantil, e não como bem público. O ministro lembra que a concorrência
e a guerra de preços ameaçam degradar as condições
de ensino, como já ocorre em alguns estados, como Rio de Janeiro. “A
reforma pretende estabelecer um marco re-gulatório absolutamente necessário
para que as instituições privadas trabalhem com visão estratégica.
Da maneira como está, elas vão se entredevorar.”
| Anteprojeto institui plano de carreira |
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Um dos itens do
anteprojeto é a
exigência de plano de carreira para docentes e técnicos
administrativos nas universidades. Além disso, a proposta do
MEC estabelece a contratação através de editais
públicos com ampla divulgação. Para o diretor
do Sinpro/RS Amarildo Cenci, as medidas garantem maior transparência
na relação dos professores com as instituições. “Entretanto,
a lei precisa exigir a homologação dos planos de carreira
junto ao Ministério do Trabalho. Além disso, eles devem
ser estendidos a todas as instituições de ensino, e não
apenas às universidades”, afirma Cenci. Outra questão
a ser aperfeiçoada é o prazo de cinco anos para a implementação
dos planos de carreira. Conforme Cenci, o ideal é que o período
seja reduzido para três anos.
O anteprojeto prevê ainda pelo menos 1/3 do corpo docente com
regime integral ou dedicação exclusiva nas universidades.
No mínimo 50% dos professores deverão ter mestrado e
doutorado. O Sinpro/RS defende que as exigências sejam igualmente
estendidas para os Centros Universitários e que, no caso das
faculdades, seja fixado o patamar mínimo de 1/5 dos docentes
com mestrado e doutorado e com regime integral.
Os trabalhadores querem também a retirada do artigo 33 do anteprojeto,
que abre a possibilidade de os estados passarem a ter a responsabilidade
de autorizar e supervisionar centros universitários e faculdades,
mediante convênio com o MEC. Por fim, sugerem que conste no corpo
da lei o impedimento de concomitância de cargos na mantenedora
e na mantida. “A não-concomitância garante maior
autonomia aos órgãos superiores das instituições
frente às mantenedoras”, conclui o diretor do Sinpro/RS.
No último dia 25 de fevereiro, o presidente da República
recebeu em audiência diversas entidades, entre elas o Sinpro/RS,
Abruc, MST, Contee, UNE, sindicatos e reitores para tratar da reforma.
No encontro, Lula garantiu que o projeto da Reforma Universitária
será resultado da participação da sociedade como
um todo. “A educação superior não pode ficar
como está e precisa de uma reforma”, afirmou o presidente,
enfático. |
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