Reluzia
A saga do silencioso sentido II

Foi me dando uma tristeza morna. Me subia do fôlego a sensação
de faringe quando finge a melancolia em forma de azia. Alguma coisa
me perturbava com a mesma inquietude com que a premonição
queima por dentro uma bruxa. Algum fim parecia aproximar-se. Fosse
que fim fosse, era vasto, perto e mergulhante.
Meu corpo sempre fora sensível aos rios do desejo, e acalmar-me
era uma providência a começar pelo lado de fora. Então,
estendi-me na cama, na escuridão do quarto, no mormaço
do corpo, na harmonia intencionada das mãos acostumadas
a mim, aos meus mais sutis segredos e fiz amor comigo. Minhas mãos
pareciam me amar muito aquela noite. Dormi, enfim, profundo, antes
que o temporal destinado à minha vida caísse.
“
Luzia, Luzia..., adivinha quem chegou?”
Meu sono sumiu para dar lugar à música do caxixi
das chaves. Chegou meu São Pedro, meu porteiro generoso
abrindo as portas do meu céu. Quis correr ao seu encontro,
mas tive medo de tropeçar, cair. Minha casa era cheia de
objetos sempre perto de mim no afeto da utilidade, por isso não
havia pista de corrida que desse, sem margem de erros, aos braços
firmes do meu amor. Raimundo me achou e me abraçou apertado: “hum...
essa camisola, em matéria de beleza, só perde para
esse tambor de quadril...”
Ri logo.
“Luzia, minha santa, você está ouvindo o canto da Araponga?
Vai chover sabia?”
“ Mundo, confessa logo: por que você sumiu? Promete não
ir nunca mais pra onde eu não possa alcançar, promete?” “Prometo!” E
chorou. Chorou horas e muito no meu colo molhando cambraia e camisolice.
Ensopou a fala. Da metade do choro pra lá, ele começou
a me beijar miudinho, passava a língua quente e o rosto
molhado nas minhas virilhas: acabou alcançando logo com
a boca “a flor mais preciosa do jardim mais próximo”,
ele mesmo dizia. Nos amamos solenes com uma nobreza de linho. O
gozo foi dourado dentro de mim. A noite passou toda dentro do quarto:
nós enfiados no dentro de nós mesmos do outro; nada
fora do lugar. Tudo dentro do lugar.
Deu-me uma fita cassete de presente e disse pra que eu ouvisse
depois no rádio-gravador que ele mesmo me dera Natal passado. “Ah,
Mundo, Mundinho querido..., não sabe vir me ver sem me trazer
uma lembrança qualquer, são oferendas que, pela quantidade
delas, mais parecem pedrinhas com as quais marcara o caminho para
não perder a rota desse amor. Eu te amo, Mundo meu.”
Manhã: beijos manteiga, beijos mel, língua mate,
barulho de casquinha de pão ou torradas nos molares de Rai. “Ai,
isso é uma felicidade! Luzia, você é a mulher
mais linda que meus olhos já tocaram. E eu nunca fui tão
amado nem serei.”
“ Será sempre sim, amado por mim, meu mago Merlim.” E
gargalhamos, gargalhamos... eu me sacudia muito, mas ria quase
sem som, ria pra dentro, muito dente, muita dobradura de corpo
e nenhum som. Ficava com o rosto vermelho, eu acho, porque ele
me dizia: “Luzia cê parece uma bomba, meu amor, solte
isso, solte...” e gargalhava ele caindo gostoso em cima de
mim. “Te ligo, te proclamo rainha.” Me beijou como
um corisco e foi.
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