MANUEL CASTELLS
O Caos e o Progresso
Autor de mais de duas dezenas de livros e centenas de artigos,
Manuel Castells escreveu a célebre trilogia A Era da Informação,
que inclui A Sociedade em Rede (1997), O Poder da Identidade (1998)
e Fim de Milênio (1998). A obra, considerada uma bíblia
para a compreensão das transformações sociais
recentes, é resultado de 12 anos de estudos sobre os mais
variados aspectos da nova sociedade tecnológica, da história
da informática às transformações no
trabalho e nos costumes sexuais.
Embora o tema tecnologia sugira consultas à bola de cristal,
Castells é avesso a prognósticos. “A razão é que
acho que não há bases sérias e analíticas
para fazer prognósticos.” Defensor do exercício
da liberdade de conhecimento, expressão, criação
e difusão, o cientista social é favorável à “ética
hacker”, “entenda-se por hacker alguém que cria
tecnologia pela paixão de inventar, pelo prazer de criar
e compartilhar”, explica e propõe à mídia
esclarecer ao grande público sobre as diferenças
entre “hacker” e “cracker”, “software
livre” e “software proprietário” e entre “pirataria” e “não-pirataria”.
Para ele, entender o software livre não é tão
complicado. “É como o alfabeto. O alfabeto tem acesso
livre de todo mundo.” Defensor do lema “caos e progresso” durante
a 5ª edição do Fórum Social Mundial,
em Porto Alegre, Manuel Castells participou, ao lado do ministro
da Cultura Gilberto Gil, da mesa de debates “Revolução
Digital: software livre, liberdade de conhecimento e liberdade
de expressão na sociedade da informação”,
promovida pela organização Projeto Software Livre
Brasil e pelos idealizadores do Creative Common (CC). Ao lado deles,
os ícones do pensamento libertário no ciberespaço
John Perry Barlow, ex-letrista da lendária banda Grateful
Dead e um dos fundadores da Eletronic Frontier Foundation (EFF) – organização
de defesa da liberdade de expressão na internet; o advogado
Lawrence Lessig, idealizador do Creative Commons (CC); e Christian
Ahlert, da BBC de Londres e do CC do Reino Unido.
À
tarde, após o painel, Castells conversou com a imprensa
numa concorrida coletiva na qual os ávidos repórteres
tiveram direito a uma única pergunta cada. O Extra Classe
esteve lá para conferir as idéias e bandeiras do
sociólogo que afirma que, ao contrário do que a Microsoft
tenta propagar, o movimento software livre não ataca as
corporações multinacionais e o capitalismo. “Há muitas
pessoas que fazem parte do movimento que são anticapitalistas,
mas o software livre como tal não é anticapitalista.
Pode funcionar com capitalismo ou sem capitalismo, é algo
que transcende a isso.” As perguntas a seguir são
de autoria do Extra Classe e de representantes dos inúmeros
veículos presentes aqui transcritas.
Keli Lynn Boop
As estatísticas apontam que hoje existe no mundo em torno
de 900 milhões de usuários da internet. Mesmo assim,
alguns pesquisadores subestimam o papel da rede e negam o seu caráter
de meio de comunicação de massa. Qual a sua opinião?
Manuel Castells – A internet é fundamental na atividade
econômica de todas as empresas e todos os países.
Fundamental na política, nos movimentos sociais, na comunicação
de todos os tipos de atividades. Os sistemas de telecomunicações
e a internet, que são o mesmo, são equivalentes à eletricidade
da Era Industrial, o que se pode observar diante dos fatos e da
análise de como funciona a economia, as sociedades, etc.
Eu acredito que, quando há resistência (isso não é uma
opinião, é empírico), se deve sobretudo a
uma pouca compreensão do que é realmente a internet.
A internet não é simplesmente uma tecnologia a mais, é um
sistema de comunicação sobre o qual está baseado
um conjunto das atividades da sociedade atual. A subestimação/rechaço à internet
provêm da não-consideração da internet
como um meio para todos e da idéia de que a internet é uma
atividade especializada, é como um setor; mas não,
a internet está no todo, sobretudo se por internet entendemos
a rede de computadores. Diria, por outro lado, que é um
tema em que há uma reação sã, eu diria
compreensível, a ideologia dos futurólogos pela tecnologia,
principalmente os futurólogos que no final dos anos 90 previam
que a internet estaria acessível a todos, resolveria todos
os problemas do homem, trazendo felicidades a todos. Como reação
sã a esta idéia estúpida de que com uma tecnologia
se acabariam todos os problemas, muitas pessoas, especialmente
intelectuais de esquerda, reagiram a essa afirmação.
Mas a internet não é uma solução, é uma
infra-estrutura, é uma comunicação – e
essa comunicação envolve todos, envolve todos que
fazem parte da sociedade –; a internet é a sociedade, é como
a sociedade, expressa tudo o que ocorre nela. Como meio de comunicação,
a internet é o meio mais potente que os indivíduos
e a sociedade têm hoje em dia para incrementar a sua autonomia.
"É difícil alfabetizar
os cidadãos; agora,
alfabetizar governos,
isto sim é que é difícil
(risos). Eu acredito
que os governos só
mudam quando não
há outra
possibilidade."
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Vivemos
hoje um processo semelhante ao processo da acumulação
primitiva (expressão cunhada no século XIX, por
Karl Marx, em O Capital) caracterizada pelo monopólio
agrário ocorrido nos séculos XIV e XVI. Ou seja,
passamos do monopólio agrário para o monopólio
tecnológico das grandes corporações. Quais
as formas de desmontar esse monopólio, se é que é possível?
Castells – Gosto da comparação com o monopólio
agrário. Chamo de latifundiários da Era Tecnológica
os controladores da tecnologia. O que se deve fazer para evitar
o controle do monopólio da tecnologia? A primeira coisa é dar-se
conta da importância da questão e de que não é um
assunto para especialistas. Isto é um assunto que a sociedade,
entretanto, não sabe. Por que é importante o software
livre? Porque a vida das pessoas pode ser determinada por quem
controla e se apropria da tecnologia. Então, é preciso
dar-se conta de que não é um problema tecnológico, é um
problema de controle das forças produtivas da sociedade
e da capacidade de comunicação autônoma da
sociedade e da liberdade de expressão da sociedade. Ou
seja, é todo o mundo. É economia, é comunicação, é política, é cultura.
Segundo ponto, em função disso, é um movimento
contra as grandes corporações e burocracias administrativas
que não entendem e vão sempre pelo mais fácil.
E terceiro, falta que os governos tomem consciência do
que está acontecendo, que tenham inteligência e,
em alguns casos, a coragem de apoiar seriamente o software livre.
E nisso o governo do Brasil está se transformando num exemplo no mundo pelo
apoio a uma autêntica transformação tecnológica
e cultural que é o software livre, mas não está ganha
a batalha, porque há uma parte do governo atual do Brasil
que não entende isso.
O que o senhor destacaria como vantagens
do software livre em relação aos que são
comercializados?
Castells – Podemos constatar que a qualidade técnica é superior
e, além disso, a flexibilidade de sua utilização é muito
maior. A possibilidade de utilizá-lo para aplicações
avançadas para cada pessoa, cada empresa, cada país, é muito
melhor; também por ser um movimento de elaboração
cooperativo, aberto, feito com milhares de pessoas que possuem
interesse e a paixão de descobrir algo novo e que contribuem
voluntariamente. É evidente que, tanto como produto
quanto como processo, o software livre é muito superior
ao software comercial. Não sou eu apenas que penso isto,
mas a Microsoft. Lembro que em 1998, em um memorando interno
da Microsoft, chamado documento Halloween (porque é um
documento de horror), um alto executivo da empresa citava/relatava
que o software livre era pelo menos tão robusto, ou
mais, que o deles (da Microsoft) e que, por conseguinte teriam
uma batalha perdida, mas ao mesmo tempo organizavam uma estratégia
para atacá-lo. Hoje em dia, há mais governos
que dizem apoiar o software livre do que os que estão
na alternativa somente dos produtos de mercado da Microsoft.
Isso não é um prognóstico; já se
pode constatar, entretanto (sem embargo), que não é exatamente
assim, pois a Microsoft é uma das empresas mais poderosas
do mundo, tem enormes recursos, influências, conexões
políticas com o atual governo dos Estados Unidos e,
por conseguinte, a batalha é duríssima, sangrenta.
Não está ganha. A Microsoft representa um obstáculo
muito sério à evolução tecnológica
e à utilização livre do software.
Como
o senhor define hacker?
Castells – Por hacker entendemos, ou pelo menos eu entendo,
que é alguém que crê, assim como creio,
na tecnologia pela paixão de criar, pela paixão
de inventar. Acredito que hackers há em todos os âmbitos
da civilização humana. O hacker não age
para ganhar dinheiro, ficar rico, mas fundamentalmente pela
paixão de criar. Devemos criticar as generalizações
feitas sobre o termo.
O que é ser um excluído
digital?
Castells – Um excluído digital tem três
grandes formas de ser excluído. Primeiro, não
tem acesso à rede de computadores. Segundo, tem acesso
ao sistema de comunicação, mas com uma capacidade
técnica muito baixa. Terceiro, (para mim é a
mais importante forma de ser excluído e da que menos
se fala) é estar conectado à rede e não
saber qual o acesso usar, qual a informação buscar,
como combinar uma informação com outra e como
a utilizar para a vida. Esta é a mais grave porque amplia,
aprofunda a exclusão mais séria de toda a História; é a
exclusão da educação e da cultura porque
o mundo digital se incrementa extraordinariamente.
Qual a sua
opinião sobre os Telecentros?
Castells – Os telecentros são fundamentais tanto
em São Paulo como no conjunto do mundo, por oferecerem
a possibilidade de acesso à internet a uma grande parte
da população, pois é totalmente irrealista
pensar que essa população terá internet
em sua casa ou na escola; sobretudo os telecentros com banda
larga, pois o problema hoje em dia não é apenas
ter acesso à internet, mas ter acesso com suficiente
capacidade. O que me parece fundamental é que os telecentros,
especialmente em São Paulo, estão implantando
o software livre. A maior demonstração de que
o software livre pode servir para que as pessoas dos setores
mais populares tenham acesso não só à tecnologia
mas ao mundo da comunicação, ao mundo da informação,
pode ser conseguida com seu baixo custo e aumento de sua qualidade.
Os
governos em geral não têm estrutura preparada
para abarcar a revolução cultural que a tecnologia
da informação traz. Qual a sua opinião
sobre isso?
Castells – Estou totalmente de acordo e sou bastante
pessimista. É difícil alfabetizar os cidadãos;
agora, alfabetizar govenos, isto sim é que é difícil
(risos). Eu acredito que os governos só mudam quando
não há outra possibilidade. Neste sentido, creio
que, por exemplo, se pode demonstrar através de pesquisas
recentes que a introdução de um câmbio
tecnológico e um câmbio administrativo na administração
permite aumentar a produtividade, a eficiência e a relação
de satisfação com os cidadãos e, portanto,
manter os postos de trabalho dos políticos. Neste momento,
há, não só no Brasil, uma forte crise
de eficiência administrativa em todos os governos, de
legitimidade democrática e de relação
entre os próprio governos, pois há uma complexidade
de relação que só se pode manejar tecnologica-mente.
As condições são criadas para que pelo
menos os governos comecem a pensar no câmbio tecnológico
e administrativo, mas, para isto, é primeiramente importante
o câmbio cultural. As administrações governamentais
devem ter inovadores culturais que tomem a iniciativa de modernizar
e alfabetizar os governos. Mas aqui se tem que ter um cuidado
com uma coisa: os governos aprenderam a ter interesse pela
ideologia da modernidade, o poder da internet vai muito bem
nos programas eleitorais. A internet é muito interessante
porque reflete muito bem a sociedade em que se vive.
"A
internet não é
simplesmente uma
tecnologia a mais, é
um sistema de
comunicação sobre o
qual está baseado um
conjunto
das
atividades da
sociedade atual."
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Quais as
características da internet brasileira hoje?
Castells – É a sociedade mais desigual do mundo.
O Brasil é um país extraordinário; sempre
se fala na sua grande potencialidade, mas que nunca acontece.
A internet no Brasil se divide em duas partes, em ser e não
ser. Há uma comunidade pequena de 8% de internautas
concentrada em Ipanema e nos Jardins, em São Paulo,
culturalmente inovadora e abastada em software livre. O Brasil,
em termos de criatividade no setor da comunidade de internautas, é semelhante à Califórnia.
Em princípio, parece que grande parte da população
brasileira está excluída da internet, mas não
está. Há núcleos muito ativos, pobres
por um lado, em nível social, mas educados, que tem
uma grande atividade na internet e, sobretudo, há um
enorme potencial. O importante é que haja uma política
de uso inteligente de internet com linhas de banda larga, conexão
de baixo custo, conexão na escola, liberdade de no trabalho
as pessoas acessarem os seus correios eletrônicos. Nesse
sentido, tenho esperança de que este governo atual entenda
que a internet é tão importante hoje em dia como
alfabetizar tradicionalmente a população do país.