Estatísticas são pouco confiáveis
Segundo a pesquisa Infância e Violência Doméstica
(Azevedo e Guerra, 2003), citando dados da Sociedade Internacional
de Prevenção ao Abuso e Negligência da Infância,
12% das 55,6 milhões de crianças brasileiras com
menos de 14 anos sofrem algum tipo de agressão em casa.
Por ano, conforme a mesma fonte, são 6,6 milhões
de vítimas de violência – em média 18
mil por dia, 750 por hora, ou 12 violações por minuto.
Números divulgados em janeiro pela Secretaria Especial dos
Direitos Humanos indicam que há exploração
sexual de crianças e adolescentes em 937 cidades brasileiras.
Destas, 298 estão na região Nordeste. Mas o problema
não está restrito ao chamado turismo sexual. O levantamento
revela que quase metade dos municípios onde existe exploração
sexual infantil é de pequeno porte, com 20 mil a 100 mil
habitantes.
Entretanto, as estatísticas oficiais são pouco confiáveis.
A maioria dos casos sequer chega ao conhecimento das autoridades
e são raros os que recebem o tratamento adequado.
Agressor e vítima quase sempre se conhecem e é comum
viverem sob o mesmo teto. Essa situação permite que
os crimes sejam encobertos e fiquem sem punição.
O artigo 13 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)
estabelece que os casos de maus-tratos contra crianças e
adolescentes devem ser obrigatoriamente comunicados ao Conselho
Tutelar. No artigo 245, o ECA atribui responsabilidade especial
aos profissionais de saúde e educação e define
como infração administrativa a não-notificação às
autoridades. A multa nesses casos pode ir de 3 a 20 salários
mínimos. O procedimento correto é fazer o comunicado
ao Conselho Tutelar mais próximo à residência
da vítima.
Causas prováveis dos maus-tratos
O que leva os pais ou responsáveis a maltratarem seus filhos?
Em artigo publicado na página da Socie-dade de Pediatria
do RS na internet, a pediatra Joelza Mesquita Pires, do Hospital
da Criança Santo Antonio, afirma que alguns dos indicadores
de risco encontrados com maior freqüência nos pais são:
história de abuso na infância, gravidez na adolescência,
promiscuidade, dro-gadição, alcoolismo, desemprego,
doenças psiquiátricas, transtornos emocionais e de
personalidade. Conforme a médica, que é especialista
em Violência Doméstica pela Universidade de São
Paulo (USP), estudos internacionais mostram que mais de 80% dos
abusadores têm em torno de 40 anos e que 70% são homens.
Coordenadora do Serviço de Proteção à Criança-Vítima,
da Ulbra, a pediatra afirma que não somente o médico
deve estar atento para a mudança de comportamento da criança “mas
também os educadores, que devem saber interceder junto à família
e fazer a notificação ao Conselho Tutelar quando
preciso”. Para ela, a atenção do professor é fundamental. “A
criança apresenta dificuldade de relacionamento, de aprendizagem, é agressiva
nas brincadeiras, tem comportamento sexualizado, vai com o corpo
coberto no verão para esconder marcas, mostra sinais por
meio de desenhos”, ensina. “O professor tem a faca
e o queijo na mão, basta ter sensibilidade e não
ter medo.” A pediatra diz que a denúncia não
pode tardar e que os conselheiros tutelares devem ouvir os professores
e trabalhar em conjunto.
Porta de entrada
“A escola funciona como porta de entrada da revelação
de situações de violência. Assim, um cuidado
especial na orientação não apenas dos profissionais
que nela atuam mas dos alunos, através de um abordagem lúdica
do tema, colaboraria para a dimi-muição das situações
de violência. A inclusão de temas conexos em currículos
universitários poderá auxiliar os profissionais da área
na detecção do problema”, opina a promotora
de Justiça Denise Casanova Villela, do Centro de Apoio Operacional
da Infância e da Juventude do Ministério Público
do RS. Em artigos publicados no site do Ministério Público
e na Revista Textual, do Sinpro/RS, a promotora e especialista
em Prevenção pela Universidade de Stanford (EUA)
sustenta que o professor, devido à sua convivência
diária com o aluno, tem condições de detectar
indícios de maus-tratos e abusos. “A criança
passa metade do seu dia dentro da escola, desenvolvendo atividades
educativas sob a orientação ou supervisão
de um professor. Este profissional tem a oportunidade de, nesse
período, observar o aluno e verificar alterações
físicas e comportamentais que poderão servir de indicadores
de maus-tratos ou violência, inclusive sexual.”
| Os
indicadores mais frequentes são: |
|
1. lesões físicas,
como hematomas, queimaduras, ruptura de hímem,
marcas de mordidas, lacerações anais,
fraturas, etc.;
2. doenças sexualmente transmissíveis;
3. negligências médicas, como doenças
não tratadas;
4. distúrbios de sono (pesadelos) e alimentação
(perda ou excesso de peso);
5. problema de aprendizagem;
6. enurese noturna;
7. comportamento muito agressivo ou rebelde, ou ainda
apático;
8. comportamento extremamente tenso, em estado de
alerta;
9. regressão a um comportamento infantil;
10. tristeza, abatimento profundo, choro constante
sem causa aparente;
11. comportamento sexualmente explícito (inapropriado
para a idade);
12. masturbação visível, contínua
e brincadeiras sexuais agressivas;
13. relutância em voltar para casa, fugas de
casa;
14. não frequentar a escola por vontade dos
pais ou faltas freqüentes;
15. ter poucos amigos;
16. não confiar em adultos próximos;
17. relacionamentos entre crianças e adultos
com ares de segredo e exclusão dos demais;
18. idéia de suicídio, autoflagelação,
baixa auto-estima; e
19. dificuldade de concentração e hiperativiade.
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Fonte:
Violência Sexual: Prevenção à Reincidência,
Denise Casanova Villela – promotora de justiça
da infância e da juventude, Revista Textual
(Sinpro/RS), maio de 2004, p. 26 a 30. |
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