Em março de 1996, o jornal Extra Classe surgia para o
mundo, trazendo na capa de sua primeira edição a reportagem
Sindicato pra quê?, assinada pelos jornalistas Carlos Oliveira
Leite e Renato Dalto. Uma matéria emblemática e atual até os
dias de hoje, principalmente porque o Governo encaminhará ao Congresso,
no dia 2 de março, um anteprojeto de lei que pretende modernizar
as relações sindicais no País. Reler sobre a trajetória
dos sindicatos no Brasil ajuda a entender a dinâmica e a complexidade
política que envolve a questão. Essa reportagem que completa
nove anos este mês estará disponível pela primeira
vez para download em seu formato original na internet, em nosso site
www.sinprors.org.br/extraclasse/10anos.
MBA é... vilão
Gurus do mundo corporativo como Henry Mintzberg e Sumantra Ghoshal
culpam os MBAs por escândalos do mundo empresarial, a exemplo
do caso Enron, nos EUA. De acordo com eles, essas coisas só acontecem
porque as escolas de administração criaram modelos
de gestão fora da realidade e pregam valores discutíveis.
Nos últimos quatro anos, os MBAs estiveram em baixa nos
EUA, mas voltaram a despertar interesse, conforme matéria
publicada na Revista Exame. Mas as críticas aos MBAs estariam
crescendo na mesma proporção em que as empresas americanas
voltaram a se interessar por eles. Segundo a mesma matéria,
os principais responsáveis pelos ataques são os próprios
acadêmicos, que acusam os cursos de adotarem modelos de gestão
e valores que distorcem os fundamentos da administração.
... pivô de polêmica
A mais recente polêmica é a publicação de um artigo
póstumo de Sumantra Ghoshal – morto em 2004 –, um dos maiores
gurus da administração mundial e professor da London Business School.
Ghoshal deixou uma análise ácida das idéias ensinadas pelas
escolas de administração. Segundo ele, “os piores excessos
praticados recentemente pelos administradores devem-se a um conjunto de idéias
que surgiram na academia nos últimos 30 anos”. Segundo a revista
inglesa The Economist, o artigo de Ghoshal será publicado no jornal especializado
Academy of Management Learning & Education. O texto ataca o desejo dos professores
de transformar o mundo dos negócios numa ciência exata, destacando
modelos de análise equivocados como o individualismo metodológico,
o qual assume que todas as ações humanas, visando à maximização
de resultados, e a crença de que os homens de negócios precisam
se desvincular de alguns valores (como a transparência e a credibilidade).
Esse conjunto de coisas desembocaria num ambiente muito mais sujeito a escândalos
financeiros, pensou em vida Goshal.
... objeto de críticas
O falecido professor não está só nesse coro de críticas à forma
como os cursos de MBA estão organizados. Jeffrey Pfeffer, professor da
Universidade de Stanford, usa como argumento um estudo realizado em 2000 que
demosmostra que o número de irregularidades cometidas por uma empresa é proporcional
ao número de altos executivos com MBA. No ano passado, outro grande guru
da administração, Henry Mintzberg, lançou o livro Managers
not MBAs, em que afirma que esses cursos “treinam as pessoas erradas do
modo errado, gerando as conseqüências erradas”. Será que
os MBAs brasileiros estão atentos a esse debate?
Vida
Severina I
Só para lembrar, Severino Cavalcanti – alguém
já tinha ouvido falar dele antes? –, o
novo presidente da Câmara Federal e mais novo
parlamentar midiático, assume uma opulenta verba
de nada mais nada menos do que 2,5 bilhões de
reais. Some-se a isso 15 mil funcionários para
administrar uma casa oficial às margens do Lago
de Brasília com mil metros quadrados, belos
jardins, piscina, 20 empregados. Além disso,
dois automóveis com motorista à disposição,
gabinete imenso e cheinho de assessores. Ou seja...
muuuuito poder. Isso, sem falar na possibilidade de
substituir o presidente eventualmente.
Vida Severina
II
E qual foi o primeiro assunto na primeira reunião
de Severino com a cúpula da mesa diretora
da Câmara Federal? O reajuste dos salários
dos parlamentares. Ninguém pode chamá-lo
de incoerente com sua plataforma. Mas, ao que parece,
pelo menos aos olhos dele, reajustar os salá rios
dos deputados de R$12,8 mil para R$21,5 mil é uma
questão prioritária para a nação.
Justo ele, que engasgou quando o diretor de jornalismo
da TV Bandeirantes, Fernando Mitre, questionou-lhe
sobre sua baixa assiduidade nas plenárias.
Sua resposta foi pífia. Alegou que o setor
em que trabalhava lhe exigia muito, pois cada vez
que um deputado, por exemplo, precisava embarcar
a si ou a um filho para o exterior, era ele e seus
assessores quem se responsabilizavam pelos trâmites
no Itamarati, vistos, etc., e por isso nem sempre
era possível estar presente nas sessões.
Ora, ora... esse é o nível de argumentação
de uma das principais figuras do Legislativo Federal,
que juntamente com o presidente do Senado conduzem
no Legislativo os rumos do País.
Vida Severina
III
Sejamos didáticos: pertencer ao chamado “baixo
clero” da Câmara não é elogio,
pois a expressão representa aquela massa de
deputados classificados como obscuros, para não
dizer menos atuantes, que não participam das
decisões importantes, não aparecem
na imprensa e votam muitas vezes movidos a estímulos
suspeitos (salvo exceções). Chega a
parecer piada quando Severino fala em reforma política
e fisiologismo quando ele próprio peregrinou
por várias siglas ao longo das últimas
décadas.
Outra barbaridade foi sua declaração-bomba,
defendendo a prorrogação dos mandatos
de Lula (sem permitir reeleição), bem
como de deputados (é claro!) e senadores.
Prorrogação de mandato lembra as ditaduras,
o que novamente demonstra a coerência como
uma das poucas qualidades aparentes de Severino Cavalcanti,
afinal ele foi da UDN e posteriormente da ARENA,
aquele partido que dava suporte aos militares durante
todo o período da Ditadura Militar (20 anos). É lamentável
saber que o principal ícone da Câmara
tem pouco prezo pela legalidade e pela democracia.
Ah, faltou o argumento: tudo isso para economizar.
Ah, tá...
Vida Severina IV
Um pouco de história recente. Os militares
que seqüestraram o Brasil entre 1964 e 1985
recorreram a esse expediente inúmeras vezes.
Primeiro forçaram deputados e senadores a
aumentar em um ano o mandato do marechal Castello
Branco (1964-1967), que havia sido eleito pelo Congresso
para completar o mandato de João Goulart (1961-1964),
devendo deixar o governo no começo de 1966.
Mais tarde sob os mesmos argumentos do deputado Severino – fazer
coincidir mandatos para evitar “eleições
demais” e “economizar recursos públicos” (os
mesmos recursos que Severino quer queimar concedendo
70% de aumento e comprando veículos oficiais
para os 513 deputados) –, prefeitos municipais
também tiveram seus mandatos prorrogados,
governando por seis anos para que as eleições
municipais se realizassem simultaneamente às
estaduais e federais. No final do Regime Militar,
no governo do general João Figueiredo (1979-1985),
acreditando que se poderia calçar a estrada
rumo à democracia, o então governador
do Rio Leonel Brizola (PDT) chegou a manchar sua
biografia e defender a prorrogação
do já extenso mandato de seis anos de Figueiredo.
Se algum deputado, de qualquer clero, levasse o Presidente
da Câmara para a Comissão de Ética
por falta de decoro parlamentar, não estaria
cometendo nenhum absurdo. Resta saber se as trapalhadas
de Severino são mal-intencionadas ou se ele
realmente não está à altura
do cargo que ocupa.
Para o envio de cartas,
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