O texto a seguir foi extraído de ensaio recente e inédito
de Augusto Boal, em que o renomado diretor teatral e criador do
Teatro do Oprimido, na teoria e na prática, (re)fundamenta
sua proposta. O texto integral, com mais de 50 páginas,
foi oferecido gratuitamente aos professores por seu autor para
que fosse divulgado no Extra Classe, além ficar disponível
aos docentes e leitores em geral em nosso site. O ensaio do qual
foi retirado este fragmento serviu como base para as conferências
feitas na América do Norte e Europa no ano passado. (N.E)
Estética e Neurônios
Augusto Boal*
Estética do Oprimido se
baseia no fato científico de
que quando, em cada indivíduo, são ativados os neurônios
da percepção sensorial – células do sistema nervoso –,
esses neurônios não ficam lotados, de barriga cheia, como bytes
de um computador, armazenando informações estáticas. Eles
não se esgotam nem se repletam – o saber não ocupa espaço,
diz a sabedoria popular! Ao contrário dos bytes solitários, os
neurônios estimulados formam circuitos que se tornam cada vez mais capazes
de receber e transmitir mais mensagens simultâneas – sensoriais ou
motoras, abstratas ou emocionais –, enriquecendo suas funções
e ativando neurônios vizinhos para que entrem em ação, criando
redes cada vez maiores de circuitos conjugados que nos fazem lembrar de outros
circuitos, estabelecendo relações entre circuitos que, entre si,
mantenham alguma semelhança ou afinidade, o que nos permite criar, inventar,
imaginar. A imaginação é a memória transformada pelo
desejo.
Os neurônios começam a ser produzidos no feto, de forma acelerada,
já na terceira semana de sua vida uterina. São todos iguais, sem
nenhuma especialização. Dependendo do lugar onde se vão
instalar, eles se especializam na função que devem ter onde se
instalam: são plásticos. Se vão para o nervo auditivo, especializam-se
em transmitir sons para o córtex cerebral; se no ótico, imagens;
e assim por diante.
As mensagens recebidas pelo córtex – sons, imagens, cheiros, gostos,
sensações cutâneas, idéias, fisionomias... –,
transformadas em circuitos neuronais, relacionam-se com outros circuitos já existentes
em camadas mais profundas e estáveis do cérebro, e que são
trazidos de volta ao córtex, onde vão dialogar com as novas mensagens,
diálogo do qual nascerão as decisões do sujeito.
Todos esses circuitos modificados retornarão às camadas subcorticais
onde irão influenciar a recepção de novas mensagens com
as quais guardem alguma relação. Os primeiros sons influenciarão
a recepção dos novos sons; as primeiras imagens, novas imagens;
as velhas palavras serão confrontadas com novas palavras; velhos conceitos,
com novos conceitos; primeiros valores, com valores novos.
Todos esses primeiros, arcaicos, não são imutáveis e podem
ser modificados, substituídos ou erradicados porque não são
definitivos – nada no ser humano é definitivo! Mas influenciam.
A ética
O Teatro do Oprimido (TO) é um teatro ético e nele nada pode ser
feito sem que se saiba por que e para quê. Os participantes devem saber
por que fazem o que fazem. O significado ético de cada ação é tão
importante como a ação em si.
A TEORIA – Não se trata de dar aulas sobre ética, mas de
estudar momentos essenciais da humanidade quando decisões históricas
ou interpretações do mundo, éticas ou antiéticas,
foram tomadas. Palestras, testemunhos, teses, diálogos, etc. Por exemplo,
a época dos filósofos pré-socráticos que revelavam
a inquietude dos seres humanos em relação ao sentido da vida, às
relações humanas e à substância do Universo; as Invasões
Ibéricas no século XVI na América Central e do Sul, que
resultaram no genocídio de civilizações indígenas;
o acordo de Bretton Woods, que instituiu o dólar como moeda universal;
a guerra do Golfo e a do Iraque, o Vietnã.
A PRÁTICA, A SOLIDARIEDADE – A superioridade moral dos bombeiros
em relação aos PMs, no Brasil, deve-se a vários fatores,
sendo um dos mais importantes o conteúdo dos ensinamentos que recebem
os soldados. PMs aprendem a atirar, prender, bater, destruir; bombeiros, além
de apagar o fogo, aprendem os primeiros socorros, aprendem a salvar vidas, a
prestar serviços à comunidade. É no fazer que o ser humano
se faz.
Esta parte da Ética será constituída por ensinamentos práticos
de solidariedade – e deverá ser posta em prática, e não
apenas aprendida!!! Cada participante deverá colaborar concretamente para
alguma obra ou ação coletiva de sua comunidade que esteja sendo
feita.
Hoje, muitos grupos que praticam TO na Índia, os Jana Sanskriti, logo
depois de cada espetáculo em uma comunidade perguntam em que podem ajudar
essa comunidade e o fazem: faz parte do seu fazer teatral.
A MULTIPLICAÇÃO SOLIDÁRIA – Cada grupo deverá organizar
outros pequenos grupos ao quais possam transmitir o aprendido, dentro da idéia
de que só aprende quem ensina, buscando o Efeito Multi-plicador.
Isto é uma verdade científica, neurológica: ao aprender,
o indivíduo mobiliza os neurônios necessários à percepção
e à retenção do que lhe é ensinado; ao ensinar, mobiliza
circuitos neurônicos de muitas outras áreas, expande e fixa o seu
conhecimento, reavalia o aprendido ao tentar explicá-lo.
Esta é uma proposta inicial. Para que seus resultados sejam avaliados,
deveremos, durante anos, realizar trabalhos e experiências nos mais diversos
campos, cidades e países onde é usado o Teatro do Oprimido.
*Ensaísta e teatrólogo