Ano 10 - nº 89
Março 2005



Luis Fernando Verissimo:
Diziam que os ingleses tinham conquistado o mundo para fugir do seu clima, da sua comida e das suas mulheres. Em certos lugares remotos onde, segundo Noel Coward, só ingleses e cachorros...




Nei Lisboa:
Homens e mulheres sempre se queixaram uns dos outros, nenhuma novidade, mas a forma como isso vem acontecendo é de se coçar na cabeça os neurônios da modernidade. Estou tentando escrever um samba sobre...



Elisa Lucinda:

Foi me dando uma tristeza morna. Me subia do fôlego a sensação de faringe quando finge a melancolia em forma de azia. Alguma coisa me perturbava com a mesma inquietude com que a premonição queima por dentro uma...





O texto a seguir foi extraído de ensaio recente e inédito de Augusto Boal, em que o renomado diretor teatral e criador do Teatro do Oprimido, na teoria e na prática, (re)fundamenta sua proposta. O texto integral, com mais de 50 páginas, foi oferecido gratuitamente aos professores por seu autor para que fosse divulgado no Extra Classe, além ficar disponível aos docentes e leitores em geral em nosso site. O ensaio do qual foi retirado este fragmento serviu como base para as conferências feitas na América do Norte e Europa no ano passado. (N.E)

Estética e Neurônios

Augusto Boal*


Estética do Oprimido se baseia no fato científico de que quando, em cada indivíduo, são ativados os neurônios da percepção sensorial – células do sistema nervoso –, esses neurônios não ficam lotados, de barriga cheia, como bytes de um computador, armazenando informações estáticas. Eles não se esgotam nem se repletam – o saber não ocupa espaço, diz a sabedoria popular! Ao contrário dos bytes solitários, os neurônios estimulados formam circuitos que se tornam cada vez mais capazes de receber e transmitir mais mensagens simultâneas – sensoriais ou motoras, abstratas ou emocionais –, enriquecendo suas funções e ativando neurônios vizinhos para que entrem em ação, criando redes cada vez maiores de circuitos conjugados que nos fazem lembrar de outros circuitos, estabelecendo relações entre circuitos que, entre si, mantenham alguma semelhança ou afinidade, o que nos permite criar, inventar, imaginar. A imaginação é a memória transformada pelo desejo.

Os neurônios começam a ser produzidos no feto, de forma acelerada, já na terceira semana de sua vida uterina. São todos iguais, sem nenhuma especialização. Dependendo do lugar onde se vão instalar, eles se especializam na função que devem ter onde se instalam: são plásticos. Se vão para o nervo auditivo, especializam-se em transmitir sons para o córtex cerebral; se no ótico, imagens; e assim por diante.

As mensagens recebidas pelo córtex – sons, imagens, cheiros, gostos, sensações cutâneas, idéias, fisionomias... –, transformadas em circuitos neuronais, relacionam-se com outros circuitos já existentes em camadas mais profundas e estáveis do cérebro, e que são trazidos de volta ao córtex, onde vão dialogar com as novas mensagens, diálogo do qual nascerão as decisões do sujeito.

Todos esses circuitos modificados retornarão às camadas subcorticais onde irão influenciar a recepção de novas mensagens com as quais guardem alguma relação. Os primeiros sons influenciarão a recepção dos novos sons; as primeiras imagens, novas imagens; as velhas palavras serão confrontadas com novas palavras; velhos conceitos, com novos conceitos; primeiros valores, com valores novos.

Todos esses primeiros, arcaicos, não são imutáveis e podem ser modificados, substituídos ou erradicados porque não são definitivos – nada no ser humano é definitivo! Mas influenciam.

A ética

O Teatro do Oprimido (TO) é um teatro ético e nele nada pode ser feito sem que se saiba por que e para quê. Os participantes devem saber por que fazem o que fazem. O significado ético de cada ação é tão importante como a ação em si.

A TEORIA – Não se trata de dar aulas sobre ética, mas de estudar momentos essenciais da humanidade quando decisões históricas ou interpretações do mundo, éticas ou antiéticas, foram tomadas. Palestras, testemunhos, teses, diálogos, etc. Por exemplo, a época dos filósofos pré-socráticos que revelavam a inquietude dos seres humanos em relação ao sentido da vida, às relações humanas e à substância do Universo; as Invasões Ibéricas no século XVI na América Central e do Sul, que resultaram no genocídio de civilizações indígenas; o acordo de Bretton Woods, que instituiu o dólar como moeda universal; a guerra do Golfo e a do Iraque, o Vietnã.

A PRÁTICA, A SOLIDARIEDADE – A superioridade moral dos bombeiros em relação aos PMs, no Brasil, deve-se a vários fatores, sendo um dos mais importantes o conteúdo dos ensinamentos que recebem os soldados. PMs aprendem a atirar, prender, bater, destruir; bombeiros, além de apagar o fogo, aprendem os primeiros socorros, aprendem a salvar vidas, a prestar serviços à comunidade. É no fazer que o ser humano se faz.

Esta parte da Ética será constituída por ensinamentos práticos de solidariedade – e deverá ser posta em prática, e não apenas aprendida!!! Cada participante deverá colaborar concretamente para alguma obra ou ação coletiva de sua comunidade que esteja sendo feita.

Hoje, muitos grupos que praticam TO na Índia, os Jana Sanskriti, logo depois de cada espetáculo em uma comunidade perguntam em que podem ajudar essa comunidade e o fazem: faz parte do seu fazer teatral.

A MULTIPLICAÇÃO SOLIDÁRIA – Cada grupo deverá organizar outros pequenos grupos ao quais possam transmitir o aprendido, dentro da idéia de que só aprende quem ensina, buscando o Efeito Multi-plicador.

Isto é uma verdade científica, neurológica: ao aprender, o indivíduo mobiliza os neurônios necessários à percepção e à retenção do que lhe é ensinado; ao ensinar, mobiliza circuitos neurônicos de muitas outras áreas, expande e fixa o seu conhecimento, reavalia o aprendido ao tentar explicá-lo.

Esta é uma proposta inicial. Para que seus resultados sejam avaliados, deveremos, durante anos, realizar trabalhos e experiências nos mais diversos campos, cidades e países onde é usado o Teatro do Oprimido.


*Ensaísta e teatrólogo






 
Eduardo Carrion

Qual reforma política?
Em prosseguimento às mudanças constitucionais já implementadas, anunciam-se novas propostas de reforma constitucional de iniciativa governamental. A destacar a reforma financeira,...





Filosofia para baixinhos
No final do ano passado, a Tomo Editorial lançou Sócrates, o terceiro volume da coleção Filosofinhos/Les Petits Philosophes. Os textos do livro são de Maria de Nazareth Agra Hassen com ilustrações de Juska.





Deu no Extra
Sindicato pra quê?

Em março de 1996, o jornal Extra Classe surgia para o mundo, trazendo na capa de sua primeira edição a reportagem Sindicato pra quê?, assinada pelos jornalistas Carlos Oliveira Leite e Renato Dalto.







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