
Má Educação
Luiza C. de S. Rolla*
filme
Má Educação (La Mala Educación,
2004),
de Pedro Almodóvar, cujo DVD será lançado
em março, relata a história de dois meninos que estudaram em um
colégio jesuíta na década de 1960 e tiveram, neste período,
experiências dramáticas relacio-nadas à sexualidade.
Padre Manolo, diretor da escola, cultivava uma “paixão” por
Ignácio, para quem dava aulas de literatura. Porém, Ignácio “apaixona-se” por
Enrique, um colega de escola, afeto este impedido de ser levado adiante por Padre
Manolo, que, ao descobri-los, expulsou Enrique por não querer dividir
ou perder Ignácio. A escola, exclusiva para meninos, era mantida e dirigida
somente por padres que, além de ministrar aulas, estabeleciam relações
autoritárias ditando ordens que deveriam ser obedecidas, punindo quem
as transgredisse, chegando a agressões físicas e diversos tipos
de abusos.
Esse filme traz à tona situações que colocam nas mãos
dos professores um poder que sabemos não possuírem. Eles influenciam
seus alunos com juízos, observações, críticas, elogios,
com qualquer opinião que emitam acerca do seu fazer. Mas afirmar que o
comportamento destes alunos ao se tornarem adultos é unicamente resultante
dessas influências é o mesmo que considerar seus professores onipotentes.
Nós, estudantes das décadas de 60 e 70, sofremos muitos abusos
de poder, nos era permitido apenas obedecer, reproduzir, copiar, repetir exatamente
o que nos era transmitido, mas muitos conseguiram romper com esta lógica,
libertando-se da dominação, refletindo e autorizando-se a produzir
seu próprio saber, a trilhar seu próprio caminho em busca do
conhecimento.
É
possível relacionar o destino de prostituição, homossexualidade,
desvio de conduta dos personagens exclusivamente à “má educação” que
tiveram na escola? As lembranças que o autor traz de sua infância
são suficientes para justificar tais comportamentos? Não pretendo
defender a escola ou isentá-la de suas responsabilidades, mas não
posso atribuir a ela, exclusivamente, o destino de uma pessoa ou de um país.
Fica, portanto, a cada um que assistir ao filme, a impressão que seu olhar,
sua vida, suas experiências, seus dramas pessoais permitirem ter.
*Mestranda em Educação na Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul na linha de pesquisa “Ensino e Educação
de Professores”. Professora do Colégio La Salle Dores.

Os
Fóruns Sociais Mundiais
Teses e conclusões para o debate. Com Copyleft (Parte
1)
Helmut Thielen*
DIAGNÓSTICO - 1. O Processo dos FSMs é um fenômeno
político novo que reúne uma tendência emancipatória
com a evitação das mais graves falhas da esquerda
tradicional.
2. O Processo dos FSMs, portanto, dá espaço para
a apresentação das mais diversas idéias e
práticas, limitada apenas pela Carta de Princípios.
3. Como efeito, o Processo dos FSMs já conseguiu questionar
a legitimidade do capitalismo neoliberal.
4. O Processo dos FSMs não conseguiu ainda:
- retirar do capitalismo sua legitimação numa forma
que seja suficiente para freá-lo até diminuí-lo;
- parar o aumento e a expansão ou até diminuir razoavelmente
as dinâmicas estruturadas de danificação e
até destruição de espaços e recursos
imprescindíveis para um “outro mundo”. Trata-se,
por exemplo: da máquina bélica de UE/OTAN/EUA, seu
Complexo Militar-Industrial (CMI), impulsionado pelo potencial
de crise estrutural capitalista - as guerras e o preparo de novos
não foram impedidas ou enfraquecidas; do Complexo Agroindustrial
Internacional (CAII), como um centro de guerra contra a natureza
que continua a crescer; do aparelho político de repressão
que, em muitos países capitalistas, também é crescente;
da política que, através da mídia, implanta
medidas de bloqueio da visibilidade e influencia o potencial
do Processo dos FSMs.
5. Resumindo: há, nos cinco anos da existência do
Processo dos FSMs, uma COEXISTÊNCIA, de fato, entre: o crescimento
do sofrimento – pobreza e miséria do ser humano e
da natureza –, produzido pelas forças e instituições
básicas do capitalismo neoliberal, e o crescimento forte
no aspecto quantitativo e insuficiente no qualitativo, do Processo
dos FSMs.
CONCLUSÕES - 1. Das teses acima, conclui-se uma questão
quanto ao empoderamento político-prático, muito necessário,
do Processo dos FSMs:
Como este processo pode gerar e aproveitar
poderes que:
·
causam desvantagens e “custos” ao aparelho repressivo?
·
diminuem a eficiência da produção sistêmica
de danos e destruições, encadeando, juntos, uma paralisação
crescente das estruturas do capitalismo neoliberal?
2. Devo restringir-me a uma dimensão da resposta: a produção
de conhecimento para fins prático-políticos sobre
a sociedade capitalista neoliberal como um todo, conforme suas
lógicas objetivas e nossos interesses emancipatórios, é imprescindível
para a determinação razoável e sistêmica
de estratégias e de táticas sociopolíticas,
permitindo e melhorando a identificação: a) das causas
profundas das mais diversas formas, fenômenos e sintomas
de sofrimento do homem e da natureza – baseando esta identificação
em conhecimento sobre estruturas, funções e contextualizações
destas causas, como, por exemplo, os CMI e CAII; b) dos “nervos” e
pontos fracos do sistema, como objetos e alvos de combate; c) das
condições parciais objetivas – dentro das estruturas – que
dificultam e, por outro lado, facilitam combater sua eficiência;
d) dos fatores estruturais subjetivos – processos de socialização
e cultura que constituem forças e fraquezas de nossa subjetividade.
3. Afinal, é necessária a integração
de todo o conhecimento sobre o potencial objetivo e potências
subjetivas nossas e sobre os “nervos” e pontos fracos
dos centros de produção de danos e destruições,
transformando-a em estratégias e táticas coerentes
e eficientes a implementar.
O trabalho sobre essas questões continua por uma rede de
grupos de estudo e ação. Maiores informações:
helmutthielen@uol.com.br
* Professor no programa de Pós-Graduação
de Ciências Sociais Aplicadas da Unisinos.
