Entre salas de cinema
e bombachas
Por Marco Aurélio Weissheimer
O fechamento da sala de cinema Norberto Lubisco, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, significa o fim de mais um espaço cultural importante na capital gaúcha.
Além da extinção dos cinemas de bairro (hoje a quase totalidade das salas está localizada em shoppings centers), nos últimos anos também foram fechados o tradicional Auditório Araújo Vianna, localizado no Parque da Redenção, e a sala de concertos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa). As explicações oficiais para estas decisões giram quase sempre sobre o mesmo ponto: falta de recursos.
O fato é que a Cultura segue sendo considerada uma perfumaria, um item de luxo que pode ser descartado ao menor sinal de crise. E assim, de crise em crise, os espaços culturais vão se concentrando cada vez mais em grandes áreas comerciais fechadas, afastadas do centro da cidade e de seus bairros mais populares.
A Secretaria Estadual da Cultura disse que o fechamento da sala de 52 lugares é temporário e deveu-se a uma manifestação do Corpo de Bombeiros indicando “deficiências na rota de fuga, em caso de incêndio”. Esse caráter supostamente temporário, no entanto, não impediu que três funcionários fossem demitidos.
E a palavra “temporário” só apareceu no discurso da secretária Mônica Leal depois que uma onda de protestos começou a se propagar pela internet. O fato é que mais um cinema de rua fechou em Porto Alegre.
E não é verdade que isso está ocorrendo em todas as cidades, como repetem muitos em tom de justificativa resignada. Ao comentar o caso, o cineasta Carlos Gerbase deu um exemplo de que outro mundo é possível: “Aqui em Paris, eles estão em toda parte.
Em dois meses na cidade, não entrei em shopping center nem uma única vez para ir ao cinema. É só encontrar a estação de metrô mais próxima, caminhar alguns metros, e o cinema está ali, na calçada.
São quase sempre complexos com três ou quatro salas, médias e pequenas. Existem também “multiplexes” gigantescos, como o de Les Halles, mas ninguém é obrigado a utilizá-los, como acontece diariamente no Brasil”.
Infelizmente, no caso de Porto Alegre, a cultura do shopping center está ganhando de goleada.
"Tradicionalismo:
uma igreja fundamentalista?"
Ainda na área Cultura, o ano iniciou com a retomada de uma polêmica que expõe um dos mitos mais arraigados do estado: o tradicionalismo, CTGS, bombachas, pilchas e coisas do gênero. O primeiro capítulo dessa polêmica deu-se a partir de um artigo de Nei Lisboa, que despertou forte reação nesse setor.
O que disse Nei Lisboa de tão grave? Bem, ele disse que a música gaúcha costuma cultuar um Rio Grande do Sul idílico que nunca existiu e que é intragável. Não demorou muito para os porta-vozes do Movimento Tradicionalista Gaúcho abrirem fogo contra o músico, acusando-o de ignorante e intolerante, entre outras coisas. É curioso que a aversão desta gente a este tipo de observação não seja considerada intolerante.
O movimento que orbita em torno dos CTGS virou uma espécie de igreja fundamentalista, que não admite contestações. Quem se atreve a fazer isso, corre o risco de ser taxado de traidor da “verdadeira tradição gaúcha”, seja lá o que isso for. Uma boa notícia é que esse fundamentalismo tradicionalismo começa a ser alvo de contestação.
E aí entramos no segundo capítulo da polêmica. O Movimento Gaúcho de Defesa Animal, que reúne dezenas de entidades de aproximadamente 20 municípios gaúchos, promoveu dia 26 de fevereiro um protesto na Praça da Matriz, em frente ao Palácio Piratini, contra os maus tratos que estariam sendo cometidos contra cavalos na chamada Cavalgada do Mar.
Segundo as entidades organizadoras do protesto, um participante da Cavalgada relatou a morte de seis animais em razão de calor e cansaço. Em carta aberta, as entidades explicaram os motivos do protesto:
“Mais uma vez nos cabe denunciar os abusos da exploração animal em relação aos cavalos deste Rio Grande do Sul. Neste momento, centenas de animais estão sendo obrigados a trajeto cansativo, sob forte calor, submetidos a montadores despreparados, em uma marcha insana e com propósito fútil, a chamada Cavalgada do Mar(...). Esses fatos lamentáveis demonstram a superficialidade do discurso ufanista de gaúcho, pampa, cavalo, pilcha, Negrinho do pastoreio, chimarrão, churrasco, prenda e peão. Discurso vazio, ufanismo barato, bairrismo apequenado, desrespeito e falta de ética. Não assistiremos calados à morte e sofrimento dos animais”.
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