WALTER GALVANI
"Do princípio ao fim"
O Patrono da 49º Feira do Livro, o jornalista e escritor
Walter Galvani, do alto dos seus quase 70 anos de idade e 50 de
jornalismo, concedeu esta entrevista exclusiva ao Extra Classe
durante a montagem dos estandes na Praça da Alfândega,
entre marteladas e interferências dos passantes, que volta
e meia tentavam entrar na conversa. Desde 2000, nosso entrevistado
passou também a fazer parte de um clube seleto, o dos escritores
que freqüentam as listas dos mais vendidos. Seu livro de estréia,
Nau capitânia, foi a primeira biografia de Pedro Alvares
Cabral. Com ele, Galvani conseguiu prestígio e premiações
dentro e fora do Brasil, além de receber um dos mais importantes
prêmios literários da América Latina, o Casa
de Las Américas, em Cuba. No momento, o escritor está lançando
Anacoluto, do princípio ao fim (Editora Record, 255páginas)
sobre o qual fala nesta entrevista, e prepara uma nova publicação
com suas memórias jornalísticas sobre os últimos
50 anos da vida política e social brasileira.
César Fraga*
Extra Classe – Seu livro anterior, Nau Capitânia,
ficou na lista dos dez mais vendidos de 2000, e recebeu vários
prêmios, inclusive, o Casa de Las Américas, em Cuba.
O senhor esperava esse tipo de repercussão?
Walter Galvani – Não, não esperava. Mas tem
uma coisa que eu esperava, continuo esperando e que ainda não
aconteceu. Me refiro ao interesse do governo brasileiro por um
tema absolutamente interessante e fundamental para o país,
e, de certa forma, ao interesse em partilhar a idéia de
debater os 500 anos da descoberta oficial do Brasil para valer,
entrar no fundo no assunto: o que foi, por que foi, quem foram
os portugueses, quem era Pedro Álvares Cabral. No entanto,
nada disso foi feito. O governo do presidente Fernando Henrique
Cardoso o que fez? Soltou meia dúzia de foguetes, brigou
com os sem-terra, com os pobres dos índios que ele encontrou
em Porto Seguro e encalhou um navio. Foi tudo absolutamente ridículo.
E nessa eu fiquei praticamente sozinho. Infelizmente, claro, o
livro tinha que ter o nome de Nau Capitânia, até porque
não se sabe o nome do navio de Pedro Álvares Cabral.
Não ficou registro na história. Então, de
certa maneira, eles emporcalharam a memória da descoberta
oficial do Brasil, porque o que eles tinham que fazer era discutir
a história. O meu livro tinha o objetivo de estabelecer
um patamar inicial de debate, de discussão séria
sobre isso, mas eu realmente não tinha expectativa de ganhar
prêmios. Como ganhei, afinal isso acabou dando visibilidade
para mim como autor do livro, me propiciou a oportunidade de uma
edição em Portugal, me proporcionou uma oportunidade
rara e belíssima de ir a Cuba receber o prêmio, enfim,
me projetou nacional e internacionalmente. Tudo isso foi surpresa.
EC – A escola teria algum papel nesse debate?
Galvani – Teria de ter, pois é uma coisa fundamental.
Eu fui convidado para visitar algumas escolas. Conversei. Discuti
com alguns alunos, mas não na proporção em
que deveria ter acontecido. Evidentemente não teria de ser
só comigo. É lógico. Nem haveria como. Mas
a questão que teria que ter sido proposta, digamos assim,
pelo Ministério da Cultura ou MEC não aconteceu.
Eles trabalharam em cima de turismo, como sempre, tentando levar
gente para Porto Seguro, que é praticamente quem se beneficiou
com a coisa faturando com turistas. O projeto encalhou junto com
o barco. Agora, graças a Deus o meu livro navegou e continua
navegando. Está na quinta edição no Brasil,
o que significa que o meu projeto estava certo. Errado estava o
deles.
EC – O que essa edição significa? Quantos
exemplares foram vendidos?
Galvani – Quase 50 mil. No Brasil uma tiragem dessa é altíssima;
ele ficou em 7º lugar em 2000 entre todos os livros mais vendidos
no país, segundo levantamento da Revista Veja, incluindo
livros de auto-ajuda, Paulo Coelho, Luís Fernando Verissimo.
EC – Desde quando o senhor ambicionou ter uma produção
regular de textos não jornalísticos, mas literários?
Galvani – Quando eu comecei a me convencer que estava na
hora, por uma questão até de idade e de tempo no
jornalismo. Me convenci que estava na hora de cavar um desvio,
um atalho na minha carreira, uma nova perspectiva, montar uma possibilidade
maior e diferente para seguir adiante. Todo mundo que trabalha
em jornal, rádio ou televisão sabe a exigüidade
das possibilidades da carreira no país. Você se desemprega
em um veículo e até conseguir outro ...meu Deus do
céu. Afinal de contas, já passei dos 60 anos. Não
posso brincar com isso e a literatura, de qualquer forma que eu
a consiga praticar, vai sempre me possibilitar trabalhar enquanto
eu estiver com o cérebro funcionando. Nem sequer um problema
físico de locomoção vai me atrapalhar. Somente
um problema cerebral para me tirar do páreo.
EC – O senhor falou em problemas de saúde mental. É inevitável
aludir ao seu novo livro, Anacoluto, o seu primeiro romance, que
também trata disso.
Galvani – Eu fiz uma novela cuja ação se passa
em Canoas, cidade muito nossa conhecida, onde eu nasci. Mas essa
novela é baseada em fatos absolutamente reais, eu mudei
alguns nomes de personagens, mas isso foi uma despolarização
completa para mim porque, quando eu cheguei em Canoas pela primeira
vez depois do livro publicado, todo mundo já sabia quem
era quem. Não é propriamente um trabalho de ficção.
Claro que eu trabalhei um pouco, encorpei determinados personagens,
determinados episódios. Não se trata de ficção
pura. Já o Anacoluto, personagem central, este sim é ficção
pura. Tudo dele nasceu da minha cabeça.
EC – O próprio nome do personagem, Anacoluto, remete
a uma figura de sintaxe, que consiste justamente na ruptura da
ordem lógica da frase, estabelecendo uma metáfora
da condição do personagem, do mal que o acomete,
além de uma série de questões de cunho filosófico
que o cercam. Gostaria que o senhor explicasse melhor tudo isso.
Galvani – Quanto à figura de sintaxe, é uma
figura simpática. O próprio pai achou bonito aquele
nome e aplicou no filho. No que se refere ao cunho existencial
do personagem, ele padece de anacolutismo, como se ele fosse a
própria figura de sintaxe, ou seja, ele avança e
recua, muitas vezes, aparentemente não tem lógica
o que ele está fazendo e assim isso é um anacoluto,
uma frase que tem a sua estrutura lógica rompida embora
ela mantenha a lógica da idéia. E claro que ao longo
da vida dele há um caminho, digamos assim, ineludível
que é ou vai ser, e é o que acontece com o personagem.
Mas ele, muitas e muitas vezes, no meio do caminho, fica indeciso,
recua, acaba não fazendo o que havia se proposto a fazer,
então é um anacoluto perfeito; é como você disse:
uma metáfora da vida do próprio personagem.
EC – Seu livro vai na contramão da produção
literária gaúcha? Em que sentido?
Galvani – Olha, no dia do lançamento oficial, o escritor
Alcy Cheuiche fez questão de frisar que o meu Anacoluto é um
anti-herói e que o livro vai contra a corrente da produção
literária gaúcha. É costumeiro no Rio Grande
do Sul o romance épico, a promoção de grandes
heróis que são capazes de feitos extraordinários.
Acho eu que os capazes de feitos extraordinários ficaram
lá da metade do século 20 para trás. A Revolução
Farroupilha foi no século 19. Hoje, nós nos defrontamos
com milhares de batalhas que talvez exijam que o homem do dia-a-dia,
que o homem comum seja muito mais valente que o Bento Gonçalves,
mas os problemas são diferentes, evidentemente. Então
eu resolvi mergulhar no eu, no íntimo da personagem. Fazer
com que ele então narrasse a suas dificuldades, os seus
problemas, a batalha pela vida que ele leva, chegando ao ponto
de se defrontar com uma doença grave, tudo isso está na
história do meu Anacoluto.
EC – E quem são os Anacolutos?
Galvani – Olha, tu encontras um a todo momento. Já o
Anacoluto do livro é um produtor rural, que não produz
nada, porque ele tem um campo e vive do arrendamento desse campo.
E ele não tem mais coragem nem condições técnicas
de dar seqüência ao que o pai dele fez, que era a criação
de gado. Então ele arrenda o campo e fica vivendo daquilo.
Se você percorrer o Rio Grande do Sul, vai encontrar centenas,
talvez até milhares de Anacolutos que evidentemente se opõem
a qualquer tipo de mudança no campo, que para ele vai ser
uma coisa extremamente desagradável. Se você falar
em Reforma Agrária, ele sai correndo. Não quer ouvir
falar nisso. Na metade sul do estado é muito comum este
tipo de personagem, que arrenda o campo, vai se sentar no clube
da cidade bebericar o seu aperitivo e falar mal dos caras que passam
por ali; dar uma olhadinha nas mulheres que estão circulando
e assim ele vai levando a vida. Bom, o Anacoluto no fim é resgatado,
digamos assim, por uma mulher, absolutamente fora do comum. As
mulheres são capazes de fazer isso com os homens, ou seja,
fazer o cara cair na realidade. Elas são mais objetivas
do que os homens. Então de repente aparece na vida dele
uma mulher que organiza tudo, enfim, não resolve, mas tenta.
EC – Todos temos um pouco de Anacoluto?
Galvani – Eu acho que sim, porque às vezes a gente
tem a tendência de continuar acomodado, principalmente quem
tem um determinado traço de caráter de: “Ah,
não vou me matar muito, vou deixar as coisas acontecerem”.
Anacoluto é uma pessoa que todo tempo deixa de fazer, vacila.
EC – Como o jornalista e cidadão que presenciou a
história dos últimos 60 anos, de que forma o senhor
situaria e avaliaria o atual momento político brasileiro
e mundial?
Galvani – Em relação ao Brasil, estamos vivendo
um momento muito perigoso e absolutamente vinculado com o que tem
sido a história do Brasil desde a sua independência.
Politicamente o país era uma colônia de Portugal,
mas em 1822 se liberta por obra e graça de um príncipe
português. Todo mundo sabe disso, ele proclamou a independência
e estabeleceu um império absolutista. Ele era um prepotente,
D. Pedro I, e era um homem que não tinha absolutamente nada
de democrático. Bom, você vai me responder que no
século 19 isso era comum, claro que era comum; D. Pedro
era excepcionalmente um homem talhado para o poder, para a tirania,
copiando, é claro, o modelo que ele conhecia do próprio
Portugal. O D. Pedro II já foi mais democrata, nasceu no
Brasil, quer dizer, ele foi contagiado por essa sociedade mais
aberta, em que o processo de evolução social é mais
possível, o que torna realmente as pessoas mais tolerantes
e com isso tivemos uma belíssima experiência parlamentarista,
o que não quer dizer também que tenha sido uma maravilha
de democracia, mas foi um pouco melhor do que o seu antecessor.
No entanto, em 1889, D. Pedro II foi derrubado por um golpe militar
que instalou uma ditadura, Deodoro e em seguida Marechal Floriano
Peixoto e seguiu-se este modelo de absolutismo, de paternalismo
e de procedimento antidemocrático toda a primeira República.
A maioria dos presidentes daquele período inicial até 1930
governaram o país em estado de sítio, foi um horror.
Aquela primeira república vê como esta marca está muito
presente no comportamento brasileiro. Aí, veja você,
em 1930, Getúlio Vargas chegou no poder, foi maravilhoso
o movimento. Só que chegou ao poder e não quis sair
mais. Em 1932 esmagou a Revolução Constitucionalista,
de São Paulo, em 1934. Criou uma constituição
conhecida como a “Polaca” , um modelo de autoritarismo.
Em 1937 implantou o Estado Novo, copiando o de Portugal, onde o
ditador já era o Salázar, com um regime que tinha
esse mesmo nome, Estado Novo, imagine só. Getúlio
permaneceu no poder até que terminou a Segunda Guerra. Houve
então uma lufada de democracia pelo mundo e a ditadura caiu
junto, mas logo em seguida o próprio Getúlio foi
eleito e acabou empurrado por uma renúncia e aí sabemos
todos a história que começou dali. Digamos que esses
são os últimos 60 anos, a partir dali, tivemos uma
rápida experiência democrática com Juscelino
Kubitschek e tivemos a renúncia do Jânio Quadros e
o início da ditadura militar que durou 22 anos. Ora, nós
não estamos acostumados com democracia nesse país
e o nosso modelo é esse autoritário, prepotente e
paternalista. E eu acho que o modelo de um partido extremamente
poderoso e quase único é muito perigoso.
"Hoje,
nós nos defrontamos com
milhares de batalhas
que talvez exijam
que o homem do dia-a-dia,
que o cidadão comum seja muito
mais valente que o
Bento Gonçalves." |
EC – O senhor se refere hoje ao PT?
Galvani – Eu acho que o PT é uma bela organização
partidária, mas tem que cuidar porque esse problema não é do
PT, esse problema é do Brasil. Os brasileiros é que
têm essa mentalidade. Quem é que disse que o Lula
vai resolver todos os problemas? Temos essa herança, essa
cultura política e não dá para achar que um
presidente vai resolver tudo. É impossível. Um país
que, na verdade, mesmo com os recursos que tem, é subdesenvolvido,
possui problemas imensos. Como se resolver tudo de uma hora para
outra? Bom, aí fecha o aparelho do partido em torno do cara
e isso então se torna muito preocupante, porque o modelo é o
mesmo, só mudaram as letras, que é o que o Fernando
Henrique Cardoso fez durante o seu duplo mandato eleito e reeleito
e não aceitava crítica. Tomou posse pedindo que a
gente esquecesse o que ele havia escrito como sociólogo. É uma
barbaridade, de repente, alguém no poder do Brasil achar
que é imperador. Então, ao menos deixe crescer a
barba (risos).
EC – Se o patrono da Feira tivesse algum poder de
mudar algumas coisas em Porto Alegre, no Brasil e no mundo, o que
o senhor gostaria
que os poderes lhe permitissem fazer?
Galvani – Bom, para ser bem prático, eu começaria
arrumando a Praça da Alfândega, que eu acho um absurdo
ela ser habitável e freqüentável somente durante
a Feria do Livro. Aqui há tantos trabalhadores, tanta gente
honesta que convive, evidentemente, com todos os desníveis
da sociedade. Eu num dia desses assisti a uma cena lamentável.
Cheguei aqui e vi alguns policiais examinando uma prostituta para
ver se ela tinha algum tóxico ou coisa parecida, e eu me
aproximei e perguntei aos policiais: “O que vocês estão
fazendo?” Ah! Nada, isso é uma inspeção
de rotina. Mentira, eles estavam dando uma blitz, porque aqui no
Brasil não se faz nada por rotina, estavam dando uma blitz
para chamar atenção, para serem fotografados em ação
e para que isso repercutisse como se fosse, digamos, uma grande
atividade permanente. E pergunto mais, examinar prostitutas na
praça da Alfândega vai resolver a questão?
Por que não resolvemos a questão que gera a prostituição,
a pobreza? Muitas dessas crianças que estão na praça
nasceram aqui. Então, se o patrono da Feira do Livro tivesse
um poder executivo, eu começaria com um projeto permanente
para o cuidado da praça e instituiria aqui cursos ao ar
livre, oficinas, presença da sociedade produtora procurando
se integrar com essas pessoas que estão marginalizadas e
transformar isso aqui realmente no que tem que ser, o coração
efetivo de uma cidade de alta qualidade de vida que teria de ser
Porto Alegre.
EC – O senhor falou em cenário, já se referiu,
já metaforizou em algumas ocasiões o pampa.
Galvani – É verdade, o pampa está muito presente
na obra de todos nós, que moramos e escrevemos no RS. O
pampa é um mar, é um mar verde, o pampa está de
tal maneira impregnado no nosso dia-a-dia, que sonhamos com o pampa
mesmo quando moramos na cidade. Mesmo os que nunca viveram no pampa
têm essa relação. Eu hoje moro numa cidade
onde o pampa começa no que termina a terceira rua, digamos
assim, eu moro em Guaíba e o pampa começa logo ali.
Quando eu vou e venho de ônibus ou de carro de Guaíba
até Porto Alegre e vice-versa, eu passo por uma zona, ao
olhar para um lado eu vejo habitações, do outro lado
eu vejo o pampa porque é ali que começa o pampa. É ali
que começa, daí a presença disso no nosso
imaginário, na nossa vida, no nosso dia-a-dia. É muito
forte realmente e sob todos os pontos de vista, do ponto de vista
metafórico, do ponto de vista real e objetivo. Nós
tiramos toda a estética do pampa, tiramos até a nossa
culinária do pampa. Tudo nasceu com este mar que nos une.
Aí é que está a Argentina e o Uruguai. Claro
que modernamente por idiotices mil, criou-se uma rivalidade que
na minha opinião tinha que ficar limitada aos campos esportivos
e nada mais do que isso. Eu acho saudável até uma
competição dentro de um gramado de um jogo de futebol,
mas na verdade nós acabamos transportando isso para o terreno
da economia, de qualquer tipo de atividade em que nós deveríamos
estar unidos, para juntos enfrentarmos o nosso subdesenvolvimento,
os problemas que sempre nos oneraram. Então o pampa é isso,
a maioria dos escritores do RS, num momento ou noutro, estão
escrevendo sobre o pampa, você encontra a presença
do pampa, da atividade da indecorrente, da criação
de gado, do tipo de educação, do comportamento, do
pensamento, da formação moral, do caráter,
isso está impregnado em todos nós.
EC – Por que o senhor escolheu Memórias de
Adriano, de Marguerite Yourcenar para abrir o Projeto Fahrenheit
451, na
Feira?
Galvani – Bom, em primeiro lugar, Adriano deixou ao império
romano uma língua maravilhosa cheia de nuanças, de
valores culturais, que até hoje nos serve. Nós somos
todos falantes latinos, e o português, graças a Deus, é a
5a língua mais falada no mundo, é claro que descendemos
do latim bárbaro, latim vulgar que era falado pelas legiões.
Além disso, eu tenho, lá no fundo, uma admiração
por toda essa civilização romana. Mais do que isso,
tenho uma admiração especial por este personagem
e acrescentei a minha admiração por ele uma verdadeira
devoção pelo trabalho de Marguerite Yourcenar que
pesquisou durante 27 anos para escrever este livro. Eu acho que,
se uma pessoa se dedica durante 27 anos a uma tarefa, no mínimo
ela vai deixar uma contribuição razoável para
a sociedade, ela não estava brincando, ela foi muito séria
nisso aí.
Quando eu li pela primeira vez, eu disse, bom, eu não gosto de sublinhar
um livro porque depois se eu empresto para alguém, eu automaticamente
estarei influenciando aquela leitura. Então eu costumo copiar numa folha
separada, página tal, assunto tal, as primeiras palavras do tema. Modernamente,
com o computador eu passei a botar dentro do da memória esse tipo de levantamento.
Só que com Memórias de Adriano eu já fiz uma, duas, três
vezes, já fiz pela quarta vez e cheguei à conclusão de que
se eu continuar fazendo, vou transcrever um livro inteiro para dentro do computador,
porque ele realmente é totalmente assinalável.
|
"O
pampa está de tal maneira impregnado no nosso dia-a-dia, que sonhamos
com o
pampa mesmo quando moramos na cidade." |
EC – Partindo de uma citação sua: “É preciso
contestar todas as verdades estabelecidas”, o que o senhor quer dizer com
isso?
Galvani – Uma coisa que acontece muito é as pessoas acreditarem
piamente no que está impresso? Quem é que disse que é para
acreditar no que está impresso. Quem é que disse que um jornal,
uma revista ou um documento instituído por alguém ou uma instituição,
por uma entidade, por um sindicato, por um banco... – quem é que
disse que aquilo é verdade? Qualquer uma dessas entidades ou instituições
está defendendo os seus interesses e os seus interesses moldados naturalmente
do corporativismo da categoria, da classe ou do tipo de instituição
que aquilo integre ou represente. Quantas vezes nós nos deparamos com
notícias falsas, notícias implantadas com objetivos outros, notícias
tornadas públicas antes que realmente tivessem condições
de receber o tratamento adequado, mas que passam a causar efeitos, transtornos,
danos muito sérios. Pior, as pessoas passam a acreditar nisso, como acreditam
nas igrejas, na palavra de um papa, na infalibilidade dele, no exército...
Acreditam em tudo que dizem por aí. As pessoas são muito crentes
EC – Dá para se dizer que a imprensa sofre de um certo Anacolutismo?
Galvani – Eu acho que a imprensa sofre do seguinte: da sua deficiência
econômica e financeira, porque, se os jornais vivessem da circulação
e não da publicidade, a conversa era outra. Se os jornais dependessem
da venda avulsa exclusivamente, se a população é que sustentasse
efetivamente as empresas jornalísticas, os interesses da população
haveriam de se sobrepor. Agora, é claro que as empresas têm que
fazer uma ginástica econômica e financeira bastante compreensível,
não estou dizendo que não seja compreensível, mas que explica
bem qual é o tipo de sociedade em que nós vivemos. Para que tu
possas manter um jornal, tu tens que ceder aqui, ceder ali adiante; então
a minha pergunta é essa: Vamos acreditar em tudo que está impresso?
Acho que não, né? Vamos primeiro aprender a ler o que está saindo,
saber por que saiu, quem é que está dizendo o que tem por trás
daquilo e, quem sabe lá, se não é apenas a ponta do iceberg
do que está sendo publicado.
EC – E o próximo livro?
Galvani – No ano que vem vou fazer 50 anos de jornalismo e 70 de idade
e vou publicar um resgate deste período todo. Já estou trabalhando
nisso.
EC – É um livro de memórias?
Galvani – Memórias jornalísticas, digamos assim, não
vai ser a minha história pessoal.
* com colaboração de
Keli Lynn Boop