O impasse americano
"A mera preservação da existência social
exige, na livre competição, uma expansão constante.
Quem não sobe, cai. A vitória, por conseguinte, significa,
em primeiro lugar, domínio sobre os rivais mais próximos
e sua redução ao estado de dependência”.
Norberto Elias,
O Processo Civilizador, 1939
José Luis Fiori*

rimeiro foi a euforia com a vitória político-ideológica e o sucesso econômico, depois a euforia
com a superioridade bélica e com a vitória militar no Afeganistão
e no Iraque. Agora, de repente, o governo e a sociedade americanos parecem perplexos,
depois da explosão da bolha financeira e da desaceleração
da sua economia, e frente à impotência e ao despreparo demonstrado
pelo governo americano em face de suas novas responsabilidades imperiais. As
autoridades econômicas, como em todo lugar, procuram desmentir as dificuldades
e anunciam a cada manhã a volta dos investimentos e do emprego. Mas analistas
do sistema financeiro têm demonstrado maior pessimismo, alguns inclusive
antecipam a possibilidade de uma crise deflacionária e de uma estagnação
mais prolongada da economia americana. No campo político-militar, aumentam
dia a dia as dificuldades americanas no Afeganistão, onde não existe
praticamente governo central fora de Cabul. E no Iraque, onde as tropas americanas
se mostram impotentes frente aos ataques terroristas, os seus governantes parecem
perplexos, sem poder recuar nem saber para onde avançar.
Este quadro contrasta com as certezas norte-amerianas da década de 90,
e vem alimentando um debate cada vez mais intenso, em duas claves bem distintas,
mas não excludentes. Por um lado, os analistas da conjuntura política
e econômica, lêem e relêem números e informações
tentando identificar as similitudes com o passado e as principais tendências
do futuro imediato. Neste campo existem opiniões para todo gosto, mas
o clube dos otimistas parece estar em franco declínio. Noutro plano, mais
acadêmico, vem se travando um outro tipo de discussão, de mais longo
prazo, sobre o futuro do próprio sistema político e econômico
mundial, e da supremacia inconteste dos Estados Unidos. Neste debate, têm
se destacado alguns intelectuais importantes dentro do campo da esquerda internacional,
como Antonio Negri, Immanuell Wallerstein e Giovanni Arrighi.
O mais otimista de todos, sem duvida, é o filósofo italiano Antonio
Negri que escreveu seu livro Império, em plena euforia globalitária
dos anos 90. Segundo sua tese central, as transformações econômicas
e políticas, iniciadas na década de 1970, já deram origem
a uma nova forma “pós-moderna” de organização
política mundial, onde os estados nacionais, mesmo o das Grandes Potências,
cederam seu lugar a um Império. Mas não o império de que
todos falam, depois da invasão norte-americana do Afeganistão e
do Iraque. Pelo contrário, um “império” que não
tem nada a ver com o “velho imperialismo” baseado na expansão
global do poder das Grandes Potências. Não seria o resultado da
concorrência entre os estados nacionais, nem da ação de algum
estado em particular, seria um novo tipo de soberania supranacional, a supra-estrutura
de uma economia globalizada.
Numa linha diferente, já faz muito tempo que Immanuell Wallerstein diagnostica
a “crise terminal da hegemonia norte-americana”. Mas sua originalidade
não está neste ponto, está na sua tese de que esta decadência
americana, que começa na década de 1970, já não é apenas
um caso clássico de crise e transição hegemônica,
normal dentro do “sistema mundial moderno”, é uma crise terminal
do próprio Sistema, que deverá se prolongar até 2050, dando
lugar depois, ao nascimento de algo novo e desconhecido, que não seria
mais o velho socialismo nem parece que seja o tal do império de Negri,
como se estivéssemos vivendo uma verdadeira e prolongada mudança
de galáxia ou de Universo. Mais próximo de Wallerstein do que de
Negri, ainda que menos apocalíptico, Giovanni Arrighi também sustenta
a tese da crise terminal americana, mas fala “apenas” de uma “crise
de hegemonia”. Segundo Arrighi, depois do fim da Guerra Fria, os Estados
Unidos aumentaram sua vantagem militar sobre seus concorrentes, mas ao mesmo
tempo se fragilizaram como potência hegemônica, devido ao crescimento
de seu endividamento externo, e do seu desequilíbrio comercial, em particular,
com relação às principais economias asiáticas. Neste
ponto, Arrighi se coloca ao lado de um grande nuúmero de acadêmicos,
sobretudo nos Estados Unidos, que temem ou anunciam o Apocalipse, na hora em
que se desencadear o “ataque amarelo contra o dólar”. Seria
a senha que anunciaria o início do fim do poder americano.
Mesmo que seja difícil prever o futuro, nesta perspectiva de mais longo
prazo em que se colocam Negri, Wallerstein e Arrighi, é importante que
se esclareçam melhor as duas idéias centrais em que se sustentam
as suas análises e previsões. A primeira e mais difundida tem a
ver com a explicação econômica da futura queda americana:
a idéia de que os Estados Unidos se fragilizaram nas últimas décadas,
ao se endividarem excessivamente e ao permitirem a transferência do “caixa” do
sistema para o leste asiático. Com relação ao problema do
endividamento, esses analistas confundem o funcionamento do atual sistema monetário
internacional – “dólar-flutuante” – com o que
foram os sistemas monetários internacionais anteriores, baseados nos padrões
ouro-libra e ouro-dólar. Nestes dois últimos, “os países
que emitiam a moeda chave podiam fechar o saldo de sua balança de pagamentos
com deficits globais, mas tinham que se preocupar permanentemente com sua posição
externa, para impedir que se alterasse o preço oficial da sua moeda em
ouro” (Serrano, 1998:1)
1 . Entretanto, no novo sistema monetário
internacional – que se consolidou nas décadas de 1980/90 – “os
Estados Unidos podem incorrer em deficits em balanço de pagamentos de
qualquer monta e financiá-los tranqüilamente com ativos denominados
em sua própria moeda. Além disto, a ausência de conversibilidade
em ouro dá ao dólar e aos Estados Unidos a liberdade de variar
sua paridade em relação às moedas dos outros países
conforme sua conveniência, através da movida das taxas de juros.
E, nesse sentido, a ausência de conversibilidade em ouro elimina pura e
simplesmente o problema da restrição externa para os Estados Unidos”,
ao contrário do que pensam Arrighi, Wallerstein, e grande parte da esquerda
neo-keynesiana norte-americana. Deste ponto de vista, a crise dos anos 70, a “expansão
financeira” posterior, e o fim da Guerra Fria transferiram para os Estados
Unidos uma centralidade militar, monetária e financeira sem precedentes
na história da economia-mundo capitalista. E não há nada,
portanto, no cenário mundial que sustente a idéia de que ocorreu
uma “bifurcação” entre o poder militar e o poder financeiro
globais nos últimos vinte anos do século XX. Pelo contrário,
ambos estão concentrados nas mãos de um único estado nacional,
que responde ainda pelo nome de Estados Unidos.
Negri publicou o seu Império, antes do anúncio da nova Doutrina
Bush e de seu defesa do direito norte-americano ao “ataque preventivo” contra
outros estados, e antes do ataque e ocupação americana do Afeganistão
e Iraque. E é evidente que o escreveu ainda no clima de entusiasmo com
a utopia da globalização da “nova economia” e da “sociedade
em redes”. Hoje, suas teses parecem um pouco desenfocados, mas apesar disto
seguem tendo grande influência entre os militantes dos movimentos antiglobalitários.
Negri vê, no seu Império, a forma política pós-nacional
do mercado global e, neste ponto, incorre no mesmo erro de vários outros
marxistas que não conseguem ver que a globalização do capitalismo,
a partir do século XVII, não foi uma obra do “capital em
geral”, foi obra de estados e economias nacionais que tentaram impor ao
resto da economia mundial a sua moeda, a sua “dívida publica”e
seu sistema de “tributação”, como lastro de um sistema
monetário internacional transformado no espaço privilegiado de
expansão do seu capital financeiro nacional. Esse processo deu um passo
enorme, depois da generalização do padrão ouro e da desregulação
financeira, promovida pela Inglaterra, na década de 1870. E deu outro
passo gigantesco depois da generalização do padrão “dólar-flexível” e
da desregulação financeira, promovida pelos Estados Unidos, a partir
da década de 1970. Na década de 1980, o que se globalizou foi a
moeda e a dívida pública dos Estados Unidos, e não de uma
vago império metafísico. Este é o verdadeiro segredo do
novo poder americano. Max Weber sustenta, na sua História Geral da Economia,
que, “enquanto os estados nacionais não cederem lugar a um império
mundial, o capitalismo também persistirá”, e se ele tiver
razão, se pode pode inverter o raciocínio e concluir que, “se
o capitalismo ainda persistir (como parece ser o caso), é porque os estados
nacionais ainda não acabaram, nem cederam lugar a um império supra-nacional”.
Ninguém tem duvida de que o Sistema Mundial está passando por um
momento de grandes transformações e que os Estados Unidos estão
colocados numa disjuntiva de enorme complexidade. Sem dúvida, no Oriente
Médio o impasse americano fica mais visível, porque é onde
estão sendo provocados e há resistência em tomar o caminho
de uma política colonial explícita. Gostariam de replicar no Iraque
a mesma estratégia que adotaram depois da II Guerra Mundial, na Alemanha
e no Japão. E alguns já chegaram a sonhar com uma repetição
da União Européia. Mas, na prática, estão cada vez
mais atolados e comprometidos com um projeto colonial pouco nítido e sem
perspectivas de sucesso. Não há duvida, portanto, de que os Estados
Unidos terão dificuldades crescentes, nas próximas décadas,
para manter o seu controle global, no campo político e econômico.
Mas não há sinais econômicos ou militares de que este impasse
americano seja uma crise terminal, nem muito menos de que os Estados Unidos já tenham
deixado de ser um Estado Nacional, com seu projeto imperialista, como tiveram
todos os grandes estados europeus. Se erra na sua análise econômica,
Giovanni Arrighi parece mais próximo da verdade quando prevê no
seu O Longo Século XX que “mais cedo ou mais tarde, chega-se a um
ponto em que as alianças entre os poderes do Estado e do capital tornam-se
tão impressionantes que eliminam a própria competição
e, por conseguinte, a possibilidade de emergência de novas potências
capitalistas de ordem superior”. E, nesse sentido, o impasse americano
atual lembra muito o início do século XX, quando Kautsky e Lênin
discutiram sobre o futuro da ordem política e econômica mundial.
Um, acreditando na possibilidade de uma coordenação “ultra-imperialista” entre
os estados e os capitais das Grandes Potências, o outro acreditando na
inevitabilidade das guerras, devido ao desenvolvimento desigual da riqueza e
do poder das Nações.
1 Serrano F. ( 1998), “Do Ouro Móvel
ao Dólar Flexível, Mimeo, Instituto de Economia da URJ, Rio de
Janeiro
*Cientista Político