MEMÓRIA
O dia
em que Lutzenberger
desafiou Collor
Por Guilherme Kolling
Em março de 1990, o ecologista José Lutzenberger
assumiu a Secretaria de Meio Ambiente, do governo Fernando Collor.
Em vez
de dar ouvido às críticas, ele preferiu ser fiel
a
sua tese de que não basta protestar, é preciso
agir. E assumiu a pasta com a missão de organizar
a Eco-92, no Rio de Janeiro.
Ficou dois anos no cargo. Saiu a poucos meses
da Conferência Mundial para o Meio Ambiente,
numa demissão que não foi devidamente
esclarecida. Em 2001, após um jantar na casa
de amigos, já relaxado, Lutzenberger falou dos
mais diversos assuntos e lembrou do episódio.

A história está registrada no livro
Pioneiros
da Ecologia – Breve História do Movimento Ambientalista
no Rio Grande do Sul (JÁ Editores, 232 páginas),
de Elmar Bones e Geraldo Hasse, cuja segunda
edição chega às livrarias em novembro.
Lutzenberger explica que viajava
muito, não só para organizar
a Eco-92, mas também para
acompanhar o presidente. E
numa dessas excursões à Europa
que o desentendimento ocorreu,
causado pela franqueza do
ambientalista.
“Um dia estávamos o Collor
e eu no gabinete do primeiroministro
da Áustria, naquela é
poca era o Branitski. Aí o Collor, naquele inglês
todo enrolado dele, fez o discurso comum dos terceiro-mundistas: ‘Nós
somos um país pobre. Estamos
precisando da ajuda de vocês, países ricos’.
Eu fiquei puto da vida, mas deixei eles falarem.
Como ele sempre me dava a palavra depois,
só olhei para trás para ver quem estava ali.
Sempre tem uns caras do Itamarati junto. Naquele
dia havia só dois deles, que sabiam inglês,
mas não alemão. Então falei em alemão
e disse para o primeiro-ministro:
—
Olha, nós brasileiros temos um
país incrivelmente rico. Vocês austríacos
não podem nem imaginar
como somos ricos. Vocês têm um território
de 83 mil km2. O nosso território é
de 8,5 milhões de km2, isto é,
mais de cem vezes maior que o de
vocês. Metade do território de vocês é
de montanha gelada. Dá para fazer
ski e ganhar um pouco com o turismo. Aqueles
lindos vales verdes de vocês são lindos, frutíferos,
mas tem oito meses de vegetação por
ano. A maior parte do Brasil, com exceção daqueles
desertozinhos lá do Nordeste, tem 12
meses de vegetação por ano. Nós temos um
clima maravilhoso. Temos muitos recursos.
E o Collor só perguntando, não estava entendendo
nada. No fim, eu disse: ‘Mas nós
somos um país muito pobre. Incrivelmente pobre.
Não se imagina como nós somos pobres
em político decente’. Na saída, o Collor me
perguntou: ‘Lutz, por que o homem riu tanto?’ Aí eu
expliquei para o Collor o que eu tinha dito. Ele deu uma risadinha
amarela.
Três semanas depois me mandou embora”.
Depois de relatar o fato para os amigos, o
ecologista ainda reforçou sua idéia sobre o Brasil: “
Somos um país extremamente rico, temos
12 vezes mais território por habitante do
que o alemão, umas 30 vezes mais que o holandês.
Como pode existir brasileiro sem direito
a um terreno? Se na Holanda que tem
um território de 40 mil km2 e 17 milhões de
habitantes não tem problema, porque nós temos
que ter? É uma questão de modelo e de
governo decente”.
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