este
início de milênio, contata-se que
a distância que separa o maior do menor
salário pago no país atinge a quase
2 mil vezes. Isso ocorre porque a
menor remuneração recebida pelo trabalhador
foi de 70 reais mensais, enquanto o maior
salário recebido foi de 120 mil reais mensais
em 2006 (Pnad/IBGE).
Ao se considerar o grau de desigualdade
salarial entre o setor privado e a administração
pública, verifica-se que a maior desigualdade
decorre das remunerações pagas
pela iniciativa privada. Enquanto no setor
público, a desigualdade salarial entre o
menor e o maior salário alcança quase 190
vezes, no setor privado ela chega a ultrapassar
a 1,7 mil vezes.
Apesar de ser nove vezes menor, não parece
haver justificativas para enorme desigualdade
salarial na administração pública
brasileira. No setor privado, a injustiça é indescritível.
Frente a isso, cabe uma profunda reflexão
sobre as causas de tamanha desigualdade.
Parte disso pode ser identificada na
contida remuneração dos trabalhadores de
salário de base.
Em outras palavras, a desigualdade é alta,
não porque os salários são muito altos,
mas porque na base da pirâmide as remunerações
são extremamente reduzidas. Embora
existam salários altos para dirigentes
de empresas e postos de maior responsabilidade
na administração pública, sabe-se que
o grosso dos trabalhadores ocupados percebe
mensalmente remunerações de fome.
Por conta disso, uma das principais medidas
de contenção da desigualdade salarial
diz respeito à elevação dos salários
de
base da pirâmide salarial. O salário mínimo,
nesse sentido, possui um papel de inegável
contribuição para reduzir a desigualdade,
pois não se trata de reduzir os altos
salários, mas subir os de menor poder aquisitivo.
De outra parte, o país precisaria
reinventar a atual estrutura de tributação.
Ademais de alta, a carga tributária termina
se concentrando justamente nas menores
remunerações. De acordo com a Pesquisa
de Orçamento Familiar (Pof) do IBGE, o trabalhador
que recebe mensalmente até dois
salários mínimos mensais tem uma carga tributária
de até 48% de seu rendimento. Por
força dos impostos indiretos (que se encontram
incluídos nos preços de bens e serviços
básicos), quem recebe dois salários mínimos
deixa quase um salário mínimo com
a receita federal. Já o trabalhador com remuneração
superior a 30 salários mínimos
deixa para os impostos somente 26% de sua
renda.
Em síntese, quem ganha mais paga menos
impostos. Ao contrário de quem recebe
menos, cuja carga tributária é quase o dobro
dos salários maiores. Frente a isso, parece
não haver outra solução para o caso da
vergonhosa desigualdade salarial no Brasil,
qual seja a completa inversão da carga tributária.
Com a progressividade na tributação
(quem ganha mais paga mais impostos
e vice-versa), a desigualdade salarial seria
bem menor que a atual.
* Professor do Instituto de Economia e pesquisador do
Centro de
Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade
Estadual de Campinas.
Aprofundamento
da crise nas cidades da fronteira com o Uruguai José
Antônio Alonso*
Voltando
a abordar os aspectos
da diversidade sub-regional do
Rio Grande do Sul, queremos destacar
as imensas dificuldades sócio-
econômicas, talvez as maiores
da sua história, que se abatem
sobre a extensa faixa de fronteira
do estado com o Uruguai.
Essa “região” compreende 11
municípios: Aceguá, Bagé, Barra
do Quarai, Chuí, Dom Pedrito,
Herval, Jaguarão, Pedras Altas,
Quarai, Santana do Livramento
e Santa Vitória do Palmar.
Na verdade, essa área está inserida na região
denominada Metade Sul, que convive com
uma crise econômica secular, causada,
de um lado, por fatores de
caráter endógeno e, de outro,
pelas dificuldades da própria economia
brasileira nas últimas décadas.
Portanto, uma dupla crise.
Essa afirmação é corroborada
pela persistente queda relativa na
participação no PIB do estado,
pela desindustrialização absoluta
e pela estagnação dos seus principais
centros urbanos.
A política cambial da União
(dólar barato) tem impacto negativo
nas economias locais. De
um lado, ao estimular uma parte
da população a adquirir determinadas
mercadorias mais baratas
no país vizinho por conta do real
forte e de bens importados, livres
de tributos (Free-shops), das cidades
uruguaias da fronteira. De
outro lado, ao encarecer a
diversificada produção nacional
que poderia ser comercializada
pelo varejo do lado brasileiro para
abastecer boa parte da demanda
uruguaia, dado que aquele país tem
uma pauta produtiva limitada para
o atendimento doméstico.
O reflexo desses processos sobre
esses municípios é a continuidade
da perda de posição relativa
na produção do estado em todos
os setores. A participação relativa
da agropecuária que representava
6,41% do total do estado
em 1999 passou a 5,85% em 2004,
a indústria passou de 1,01% para
0,83% no mesmo período e a oferta
de serviços caiu de 2,75% para
2,45%. Esses indicadores não se
constituem surpresa, dado que
apenas reproduzem a tendência
histórica cadente na participação
da produção estadual. O novo em
todo esse processo de estagnação
econômica é dado pela contagem
da população divulgada pelo
IBGE nos últimos dias. Os dados
apontam uma queda absoluta da
população em todos os municípios
entre 2000 e 2007, sendo que
somente um município (Santana
do Livramento) deixou de ter
aproximadamente a metade dos
14.821 habitantes perdidos pela “região”.
O que preocupa em tudo isso são as perspectivas
dadas pela combinação perversa
entre queda relativa da produção
com queda absoluta da população.
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