ROLAND CHAMAMA
Por
um tempo maior que o agora
“Realmente, a cada dia vêm consultar no analista pessoas
que se queixam de um mal-estar difuso, de uma inapetência
para viver, de uma impossibilidade de desejar e de agir”.
Esse é o trecho de uma das cartas do psicanalista francês
Roland Chemama, que faz parte do livro Depressão, a grande
neurose contemporânea, que ele lançou na Feira do
Livro de Porto Alegre deste ano. Em sua breve temporada no estado,
ele também realizou uma série de palestras
abordando temas como O homem dos lobos, que consta da literatura
freudiana, e Depressão, os herdeiros de maio de
68, quando abordou a utopia de um mundo sem proibições
e o desejo: “Desejar é se topar com dificuldades,
encontrar
um caminho, porque se tudo é aberto, oferecido, eu só posso
me perder e me tornar deprimido”. Chamama falou ao
Extra Classe sobre o sujeito contemporâneo e suas dificuldades
em lidar com o desejo e de viver em um tempo
maior que o agora.
Por Jacira Cabral da Silveira
Extra Classe – O que o senhor
abordou em sua participação no
Seminário O homem dos lobos,
do relato do caso à teoria que
ocorreu dia 28 de outubro, em
Porto Alegre?
Roland Chamama – Para responder
a esta questão, devo situar
o meu trabalho destes últimos
anos como um estudo que
incide sobre uma clínica bem
particular que diz respeito a sujeitos
que não são claramente
pessoas neuróticas, nem claramente
pessoas psicóticas. Elas
podem apresentar fenômenos de
tipos psicóticos e podem mesmo
evidenciar traços perversos, mas,
comumente, apresentam-se igual
a cada um de nós: como neuróticos
comuns. Esse tipo de complexidade,
que é difícil de abordar,
ostenta elementos muito interessantes
para trabalhar com este
tipo de dificuldade, como no caso
do homem dos lobos do qual
Freud fala. Certamente ele atendeu
muitas pessoas, mas, particularmente,
dos cinco históricos
casos clínicos, o homem dos lobos é
aquele que está mais próximo
desse tipo de sujeito moderno
que situamos com dificuldade.
O meu estudo sobre o trabalho
de Freud é uma retomada
desse trabalho. O que tento fazer é
tornar possível ir mais longe
nessa clínica.
EC – O que o senhor pretende
analisar quando prepara uma palestra
que aproxima depressão e
os “herdeiros de maio de 68”?
Chamama – O que se passou
em 68 é um fenômeno que tem
muitas faces, certamente há uma
revolta, principalmente da juventude,
contra tudo aquilo que podia
sufocar o desejo de mudança,
de chegar a uma vida mais
satisfatória. Mas, ao mesmo tempo,
qual foi o resultado do que
se passou naquele momento? Certamente
há transformações positivas
que não posso negligenciar.
Mas também não há essa utopia
a respeito da qual se chegaria a
um mundo sem nenhuma proibição.
O que estava escrito nos
muros do Quartier Latin, em Paris,
era justamente “é proibido
proibir”. Ora, o sujeito humano
não pode desejar uma coisa se ele
tem acesso a tudo. E se ele tem
acesso a tudo, tudo se confunde,
nada mais tem valor particular. É, de uma certa
forma, o que se
passou após maio de 68. Porque
se começou a considerar possível
todos os gozos, da droga, como
todas as formas da sexualidade,
mas eu não insisto mais nesse
ponto. Poderia se pensar que isso
nos leva a sujeitos que estão numa
situação de exaltação em relação
ao gozo. Mas no que diz respeito
a todas essas possibilidades, o
sujeito pode facilmente se
entediar e, sobretudo, se vamos
mais longe, podemos afirmar que é
a interdição que torna possível
o desejo – que é um pouco o que
acabo de dizer. Eu posso desejar
uma coisa se tudo não estiver
aberto, desejar é se topar com dificuldades,
encontrar um caminho,
porque se tudo é aberto, oferecido,
eu só posso me perder e
me tornar deprimido.
EC – Como relacionar a privação
social de referências – como
a Igreja e o Estado – com a depressão
do sujeito contemporâneo?
Chamama – Com essa questão
você passa do individual ao
coletivo. Quando se diz: é proibido
proibir, isso certamente diz
respeito ao sujeito individual,
mas igualmente às instituições
sociais das quais você fala, que
propõem leis, simbólicas ou reais,
referências, valores. Não é só a
referência do sujeito individual
a uma proibição que funciona no
nível da família, é a questão da
referência a valores comuns.
Quando não há mais essa referência, nós
nos encontramos frente
a essa desorganização e, talvez,
a essa depressão do sujeito contemporâneo.
EC – O senhor afirma que a depressão
não se caracteriza por uma
tristeza qualquer, o que a caracteriza
então?
Chamama – Você tem razão
em colocar esta questão justamente
agora, porque o que eu disse
até o momento pressupunha uma
resposta a esta questão. Pensa-se
com freqüência que a depressão é
uma perturbação do humor: o
sujeito se mostra triste, se sente
triste. No meu entender isso não é
o essencial, porque o que pode
nos deixar tristes é que, por uma
razão ou por outra, nós não temos
meios de sustentar nossos desejos.
Para mim, as depressões são, fundamentalmente,
inibições radicais
do desejo e do ato. O que eu disse
até o momento é que em um certo
tipo de situação, por exemplo,
quando se fragilizam as proibições,
o desejo também se fragiliza, o
humor se torna triste, e o sujeito
então se torna deprimido.
EC – “O sujeito deprimido
vive um tempo uniforme e monótono”,
o senhor poderia explicar
esta observação quanto ao verbete “
depressão” constante no Dicionário
de Psicanálise, que teve a sua
coordenação e foi relançado na
Feira do Livro de Porto Alegre?
Chamama – Continuo a seguir
o fio da questão do desejo. O verdadeiro
desejo supõe uma certa
relação com o tempo. O fato de
projetar qualquer coisa no futuro,
de pensar o tempo presente
como a forma de atingir um objetivo
e de procurar no passado se
há meios para realizá-lo. O próprio
da depressão – e de fato foi
nisso que comecei meu trabalho
sobre a depressão – é de não poder
representar para si o tempo
nessa continuidade. Com efeito,
o tempo do sujeito depressivo é um tempo circular.
Ele está convencido
de que as coisas poderão
apenas retornar de forma circular,
da forma como elas são atualmente. É
um fenômeno correlato
de sua relação difícil com o desejo,
mas que também pode ter
relação com a maneira como o
mundo contemporâneo organiza
nossa relação com o tempo.
EC – O que acontece efetivamente
na sociedade contemporânea
em relação ao tempo?
Chamama – Cada época privilegia
uma noção do tempo. O
que privilegia o mundo contemporâneo
certamente não é o passado.
Mas também não é o futuro
no sentido de uma esperança
coletiva. Freqüentemente as pessoas
não acreditam no futuro. O
mundo contemporâneo é este
que se vive o instante. Isso se vê bem no que
se chama de tempo real, ou seja, a possibilidade de
reagir em Porto Alegre no mesmo
momento que alguma coisa
ocorre em Tóquio. Isso leva o
sujeito contemporâneo a não viver
num tempo que tenha uma
continuidade, mas que é feito de
instantes separados. Por si mesma
a representação contemporânea
do tempo impede de pensar
um projeto ou um desejo em um
tempo suficientemente longo.
Talvez para um plano econômico
seja conveniente criar objetos
que serão vendidos em três meses
e depois isso não importará mais. Mas
a subjetividade não
deveria ser isto. E como o sujeito
contemporâneo que é tomado
neste tipo de concepção de tempo,
e tomado em uma coisa que
não lhe convém, ele não pode
formar projetos nem desejos, mas
ele não se dá conta desses impedimentos
e a sua única maneira
de testemunhar é a depressão.
EC – Como explicar esta
questão do tempo nos casos de crianças
e adolescentes?
Chamama – Com efeito, é uma questão
importante, porque
a infância e a adolescência são
períodos nos quais, para se formar, é
necessário uma representação
do tempo. Crianças e adolescentes
têm a necessidade de
dizer para si que mais tarde atingirão
objetivos que não podem
atingir hoje. Em nossa sociedade
nós distinguimos muito mal os
períodos da vida. Não sabemos
dizer às crianças que tem coisas
que não são possíveis hoje e que
serão possíveis para eles mais tarde.
Talvez porque nós mesmos
não sabemos mais o que é possível
e o que não é possível. Eu
penso que isso não facilita as coisas
para as crianças e para os adolescentes.
Uma criança para a qual
não se colocam limites fica angustiada,
deprimida. Mas isso não se
vê sempre porque eles escondem o
que sentem em um comportamento
de agitação, de gritos, quebram
as coisas. Fala-se de criança
hiperativa, mas as crianças
hiperativas são freqüentemente
crianças deprimidas.
EC – Qual o papel da escola e
do professor neste momento?
Chamama – Os professores
têm uma responsabilidade fundamental,
porque quando a criança
está na escola ela tem que se
dar conta que ali tem regras:
deve vir no horário, não pode se
colocar a gritar no meio da sala
de aula, deve fazer seus temas.
Por vezes, isso não se instala muito
bem porque sua família não
preparou esta possibilidade, e o
professor não pode fazer tudo. Ele
pode tentar fazer alguma coisa
estabelecendo contato com os
pais e a criança, encorajando-os
a falar dos problemas entre si, e
mesmo que procurem profissionais.
Muitas vezes isto é absolutamente
necessário. Mas é verdade
que o professor tem um lugar
decisivo atualmente, ele deve
fazer a mediação entre tudo o
que a nossa sociedade torna difícil
e os valores que resistem. É do trabalho do
professor mostrar
a importância disso.
EC – Como o senhor avalia a
prescrição de antidepressivos no
caso de adultos e outros medicamentos
para crianças com diagnóstico
de hiperatividade?
Chamama – Eu não me oponho
ao uso do medicamento.
Quando alguém está em análise,
procurando lidar melhor com as
suas dificuldades, tentando realizar
alguma coisa neste sentido,
ele pode se encontrar em determinado
momento angustiado
com essa tarefa. Nesse caso, se
ele é acompanhado por um profissional
e tem na análise um lugar
de fala, por que não tomar
um medicamento se isso pode
ajudá-lo? A idéia é não tentar
arrasar o problema do indivíduo
por uma medicação imediata ou
muito forte. O mesmo digo para
os casos com crianças. Se aos seis
anos ela é bombardeada com medicamentos,
o que vai acontecer
no seu futuro?
EC – O conceito de “afeto” no Dicionário
de Psicanálise é apresentado como a
primeira classificação
das neuroses, segundo a
forma pela qual um sujeito se
comporta em relação a seus afetos.
Queria que o senhor destacasse
a questão do afeto e a depressão.
Chamama – É verdade que
no dicionário nós salientamos
isso, porque na primeira teoria
de Freud o afeto tinha uma certa
importância para falar das
neuroses, como a histeria e a
neurose obsessiva. Certamente
esse conceito perdeu logo a seguir
sua importância, e você percebeu
que, quando falamos da
depressão, insistimos mais na
questão do desejo, que é algo
que está antes do que nós chamamos
de significante – ou seja,
as palavras que orientam a nossa
vida. É o que nós chamamos
de simbólico e não o afetivo.
Mas eu considero a questão interessante
porque talvez devêssemos
fazer em relação a essa
noção de depressão o que Freud
fez para as outras neuroses. Ou
seja, usar os meios teóricos para
passar do nível do afetivo a um
outro nível. O meu livro Depressão,
a grande neurose contemporânea é
um primeiro passo nesse
caminho.