Sob
o céu de La Higuera
Escorada pelo braço, na janela da casa
de pau-a-pique, a velha alerta quem se aproxima: “Aqui, me
pagam 20
pesos para que eu conte algumas mentiras”. É outubro,
mês que traz o maior número de estrangeiros para La
Higuera, povoado ao sudeste da Bolívia, pertencente ao município
de Pucará, departamento de Santa Cruz de la
Sierra, onde há 40 anos um barbudo de nome Ernesto Che Guevara
morria para transformar a vida dos seus 76
habitantes neste início de século 21.
Por Daniel Cassol, da Bolívia (Textos e fotos)

2,5
mil metros de altitude, a vida é um esforço.
Ao largo das estradas estreitas, as
roças de milho se acomodam em meio aos
penhascos, para o bem das poucas vacas, que
ali se contentam em mascar a terra. O mítico
homem morto nesta região, em 9 de outubro de
1967, teria dito à professora da escolinha que
lhe dava comida que o objetivo da guerrilha
era melhorar a vida daquela gente. De certo
modo, é o que acontece por estes dias.
Enquanto se discute o legado, o mito e a higiene
pessoal de Che Guevara, em La Higuera,
seu leito de morte, ele é mais do que um santo
ou um comunista que matou bolivianos: o Comandante é
uma necessidade de sobrevivência
para o povo pobre desse pedaço da Bolívia.
René Villegas tinha dois anos quando mataram
Che. Hoje, é diretor do Museu de La
Higuera, e conta que há 20 anos realizam uma
celebração no dia em que o Comandante caiu. “Celebramos
um Che presente e espiritual”, ele
diz, a uma pequena platéia de militantes políticos
brasileiros. Embora a presença de estrangeiros
movimente a precária economia da cidade,
que consiste em dois armazéns e algumas
pessoas dispostas a contar histórias para
turistas, René relativiza a tese: “O turismo
não rende muito, porque é mais ideológico
do que econômico. As pessoas sempre vêm
sem dinheiro, mas as recebemos de qualquer
maneira”, explica.
Para Crescencia de Aguilar, 58 anos, a necessidade
fala mais alto. Ela corre na porteira
para convidar os que chegam a descer ao
ponto onde Che Guevara foi capturado. Conta
uma história confusa, sobre uma cabra que
teria vendido aos barbudos e de um conselho
do Che: “Dizia para não termos medo
deles”. Apenas uma pedra na beira da estrada
indica o nome do local onde vive: Quebrada
del Churo. Com a ajuda que recebe
dos visitantes, planeja erigir uma placa de
madeira para que os turistas não passem reto
por ali. De uma forma sincera, manifesta sua
devoção a San Ernesto de La Higuera: “Quando
não tenho nada, rezo para o Che
e, no outro dia, chegam os turistas”. Os demais
moradores da região, diz, dedicam-se a
viver suas vidas: “As pessoas aqui não pensam
nada. O que passou, passou”.
A vida lenta de Vallegrande
A 60 km estrada abaixo, a cidade de Vallegrande
apresenta também uma certa indiferença em relação
ao Che entre os seus 8 mil moradores. Ali, as horas
parecem ter bem uns 80 minutos. A lentidão do movimento
das camponesas, que carregam seus filhos em
coloridas estolas, só é quebrada pelo bater de tênis
dos
turistas e jornalistas, que freneticamente acessam a
Internet e fazem chamadas internacionais.
“Aqui, pensamos mais no trabalho e na família”,
resume José Peña, motorista, que mantém um
comércio
com a esposa no centro da cidade. Ele tinha 32
anos quando chegou a Vallegrande o helicóptero do
Exército, trazendo os corpos dos guerrilheiros mortos
nas montanhas. Amarrado a uma maca, nos pés do
helicóptero, vinha Ernesto Che Guevara, que foi lavado
e exposto na lavanderia do hospital Nosso Senhor
de Malta, depois enterrado em local desconhecido,
até ser encontrado por pesquisadores cubanos
numa cova entre o aeroporto e o cemitério, em 1997.
Contam os moradores que a população formou filas
por aqueles dias de outubro, há 40 anos, para observar
o corpo límpido de Che, os olhos estatelados que seguiam
os romeiros. Parecia com a imagem de Jesus Cristo com
a qual estamos acostumados, o que alimentou as crenças
que perduram até hoje, para seu José, na cabeça
de gente
fanática, que crê que a alma não se perde: “Depois
de
Jesus, ninguém mais fez milagres”.
As opiniões são muitas, explica a funcionária
de
escola aposentada Francisca Zurita. “Como existe
gente boa, existe gente má”, resolve a questão.
Ela
contava com 17 anos em 1967. Em outubro daquele
ano, ficou quase 30 dias sem comer nem dormir direito,
com a imagem dos guerrilheiros mortos na cabeça.
Sorridente, ela dá entrevistas e conversa com
quem chega, sentada ao lado do marido em frente
ao Mausoléu do Che. “Ele era um homem bom”.
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De crença e fé vive
o único brasileiro morador
de Vallegrande. Moisés Rodrigues Silva,
36 anos, pernambucano de Recife, é missionário
da Assembléia de Deus e há dez anos
dedica a vida a ganhar almas para a igreja na
Bolívia. Casado com uma boliviana e pai de
uma filha, Moisés não é exatamente
um admirador
de Che Guevara. “Não concordo com
a ideologia dele, primeiro, porque era ateu”,
diz. Personagem sui generis desta história,
Moisés mistura palavras em castelhano no seu
sotaque nordestino, para dizer já ter ouvido
comentários de curas atribuídas a Che
Guevara,
ao mesmo tempo em que dispara: “Aqui
tem é uma indignação contra
esse cara aí.
Ele matou um punhado de bolivianos”
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Pobres
e conservadores
Fundada em 1612, Vallegrande é uma cidade
de pequenos agricultores, beneficiados por
uma reforma agrária realizada na década de
1950, um dos fatores que levaram a guerrilha
do Che à derrota. “O povo era contrário à guerrilha,
porque aqui todos têm a sua parcela de
terra, e não havia necessidade de reforma agrária”,
explica com simplicidade o motorista
José Peña. Trata-se de um povo pobre, porém
conservador, que repete como um mantra as
pregações ideológicas vindas de Santa Cruz
de la Sierra, centro aglutinador da elite boliviana.
O próprio prefeito não demonstra maiores
admirações pelo personagem que colocou a
cidade no mapa do mundo. “A coisa do Che é
uma parte importante, mas não é tudo”, diz
o alcalde Ignácio Moron Rojas, do Ação Democrática
Nacional (ADN), no seu quarto
mandato, não consecutivo.
É
domingo e ele recebe os camponeses em
seu gabinete. Um casal está aflito porque o
terreno em que vivem teria sido vendido, com
autorização do prefeito. Ele puxa o telefone,
fala com alguém e resolve a questão. O casal
sai satisfeito. “Instituí o trabalho aos domingos
para receber a minha gente que vem à cidade”,
explica.
Reclamando mais recursos e autonomia
para os estados e municípios bolivianos, Rojas
retira importância do turismo gerado em
torno do seu visitante mais famoso, aposta
no fortalecimento da fruticultura, mas revela
que, com ajuda de Cuba e Venezuela, a
cidade reformou o Hospital Nosso Senhor de
Malta e vai melhorar o transporte coletivo.
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Quarenta anos depois de morrer,
Ernesto
Guevara de la Serna cumpre a promessa feita à
professora da escolinha de La Higuera. Para
além de levar levas de estrangeiros todo ano
a
Vallegrande e La Higuera, o Che representa uma
tentativa de ocupação da região
pela solidariedade
entre Cuba, Venezuela e Bolívia, desde que
Evo Morales assumiu a presidência, em 2006.
Os guerrilheiros agora usam avental branco
e se chamam embaixadores da Alternativa
Bolivariana para as Américas. Só médicos
cubanos
são 1,8 mil na Bolívia, dois deles
trabalhando
em La Higuera, com a ajuda de um cavalo
que os leva às moradas mais distantes do centro
hospitalar inaugurado em 14 de junho do
ano passado, data do aniversário do Che. Ali,
funcionam também a escola e o programa de
alfabetização para adultos, baseados
no método
de Paulo Freire “Sim, eu Posso”, que
já formou a primeira turma. “Era
um compromisso do Che trazer assistência médica e educação
gratuitas”, diz a médica cubana Adis
Espinosa.
Outra vez, a gente pobre do sudeste boliviano
ouve falar em revolução. A vida, porém,
segue a mesma peleia cotidiana, só restando
a
fortuna de, um dia, Ernesto Che Guevara ter
vivido sua hora definitiva sobre os céus de
La
Higuera.
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