
Palavral
trainer

língua, único
músculo que diz a que veio, só não é mais
exigido que o músculo cardíaco. Por isso a língua,
como
qualquer parte do corpo, também fica fora de forma. Pode
acabar flácida e sem fôlego até para dizer
polissílabos e
proparoxítonas.
Aí, pela lei do menor esforço, em vez de pântano,
diz pantano,
interim no lugar de ínterim etc. O problema fica sério
quando,
assim desmilingüida, a língua nem consegue declarar
algo
constitucionalissimamente ou inconstitucionalissimamente.
Quer dizer, a condição física da língua
pode até afetar a
vida nacional. Embora não se note, a língua também
ganha
adiposidade: enche a boca e se torna linguaruda, capaz de inflar
frases, dizendo mais que o necessário e, o que é pior,
de
engordar o sentido do que é dito. Temos aí um quadro
de verborragia,
que seria o excesso de peso da fala. Culpa da língua,
incapaz de manter a linha do linguajar.
Aí é que entra um profissional que já faz
falta, o palavral
trainer. Ele viria para melhorar a performance das más línguas,
aquelas estufadas de frases prontas, obesas de redundâncias,
a
ponto de perderem a agilidade oral.
Não, o palavral trainer não seria um mix de professor
de
dicção com fonoaudiólogo. Esses têm
sua valia, porém suas funções
tratam de eliminar defeitos da fala, enquanto o palavral
trainer se encarregaria da aparência da linguagem, da silhueta
oratória. Seria alguém para melhorar o desempenho
lingüístico do ponto de vista estético-sintético,
se é que já não estou precisando de um neste exato trecho.
O palavral trainer, contratado por quem quisesse deixar a
língua elegante, acompanharia a pessoa no dia a dia, em
exercícios
rigorosos, visando a redução da expressão.
Com programa
adequado a cada tipo de cliente, simularia as situações
onde a língua encorpada soa à toa. Clientela sobra:
comunicadores, palestrantes, discursadores, fofoqueiros, todos
poderiam afinar o estilo.
Os resultados agradariam a falantes e ouvintes: a pronúncia
ficaria menos pronunciada, o falatório desincharia, o vocabulário
ficaria esbelto. Tudo porque o palavral trainer, com a
rigidez do seu método, iria corrigir o cliente durante sua
rotina
pessoal e funcional. Ouviria telefonemas, diálogos, discussões,
explanações, e interviria no ato, influindo nas conseqüências
de cada conversação. Seria o fim da eloqüência
pançuda.
Bem-vindo seja ele.
