Ministro
defende TV pública
Um decreto publicado dia 26 de outubro no Diário Oficial
da União anunciou a criação da
Empresa Brasil Comunicação, gestora da TV pública
que será inaugurada no dia 2 de
dezembro. Também consolidou a nomeação da
jornalista Tereza Cruvinel para diretorapresidente
da rede, e de Orlando de Salles Senna, atual secretário
do Audiovisual do
Ministério da Cultura, para diretor-geral da empresa.
José Weis
“Em breve estará no ar mais um
canal, o da Empresa Brasileira de
Comunicações, a TV Brasil, mas
não é a TV do Lula”, adianta o
Ministro da Secretaria de Comunicação
Social da Presidência da
República, o jornalista Franklin
Martins. O ex-comentarista político
do jornal da Globo esteve em
Porto Alegre na Audiência Pública
realizada no final de outubro, na Assembléia
Legislativa do estado. Entidades
de classe, profissionais da
área de comunicação social e público
em geral discutiram o tema.
Devido a sua origem e formação
fragmentada, criada uma a uma
em diversos estados da Federação,
a TV pública não tem uma cobertura
em rede nacional, a exemplo
das grandes cadeias das televisões
comerciais.“Já existe uma TV pública
no Brasil, com os avanços, os
acúmulos, as experiências e ao mesmo
tempo as limitações que nós
conhecemos”, constata.
CONSELHO – “O Governo
pretende liderar um processo de
construção de uma rede pública
nacional de televisão, onde a espinha
dorsal disso é basicamente o
que ele já possui e que vai unir a
Radiobrás com as TVEs do Rio de
Janeiro e do Maranhão, já vinculadas
ao Governo Federal”, detalha
Martins.
Essas fusões permitem que se
construa junto com as outras emissoras
estatais locais uma grade de
programação simultânea.
Um dos pontos nevrálgicos do
projeto é a maneira como será feito
o jornalismo nesta nova emissora,
aspecto muito criticado por setores
da imprensa. Quanto ao risco de
uma manipulação política, justamente
o centro da questão, o Ministro
Franklin Martins adverte que
este risco existe, mas pode acontecer
em qualquer televisão, rádio ou
jornal, depende dos
acionistas que controlam
o veículo. “Para
evitar isso será preciso
criar mecanismos que
façam com que esta
tentação não prevaleça”,
observa.
Um Conselho
Curador terá a função
de fiscalizar a aplicação
dos princípios da
TV pública, inclusive
o da isenção do jornalismo.
No caso de algum descumprimento
dessas regras, caberá a
esse conselho os atos
que vão desde a advertência à
demissão do
presidente da entidade.
Para o jornalista esse mecanismo permite um tipo de
debate público e transparente contra
possíveis manipulações. Quanto à
nomeação desse conselho, caberá à
presidência da República, ”quem
tem mais condições de nomear
do que alguém que foi posto
lá pelo voto”.
SOTAQUES – Nem só de jornalismo
será composta a programação
da TV Brasil. Estão previstas
pelos menos 4 horas diárias para
programações locais que divulguem
a produção cultural de cada
estado, assim como um tempo será dedicado à produção
independente de cada região do Brasil. “O país
inteiro fala a mesma língua, mas
com muitos e diferentes sotaques
que terão os seus espaços”, garante
o ministro.
Uma outra novidade anunciada é
que a emissora terá pelo menos
dois correspondentes na África. “Se existem
correspondentes
em centros como a Europa e Estados
Unidos, por que não no continente
africano? Com a presença da
cultura negra na formação do Brasil”,
reforça Franklin.
No Brasil, a cobertura de TV
pública ainda não tem sua
abrangência em todo o território
do país, o que existe são emissoras
estaduais. “Embora muitas vezes,
em alguns estados, elas sirvam mais
aos palácios dos governos do que
ao público de fato”, alfineta.
MODELOS – No Brasil, a televisão
com um modelo comercial
tem o domínio desde sua criação,
talvez por isso exista resistência
quanto à idéia de uma televisão
pública. A televisão comercial tem
tanta força que parece ser a única
possível.
Na Europa, a partir da implantação
de governos com tendência à
social-democracia, o modelo surgiu
em quase todos os países, como
são os bem-sucedidos casos da
BBC, na Inglaterra, ou da RAI, na
Itália, países em que a televisão
comercial é um fenômeno relativamente
novo. Nos Estados Unidos,
padrão seguido pelo Brasil, o formato é
comercial desde o começo, “embora também exista uma rede
forte de TV pública”, acrescenta.
Para Franklin Martins, não há dúvidas
quanto à presença da televisão
no Brasil, “hoje é um espaço
crucial na formação da cidadania,
na divulgação da cultura,
como terreno público aonde se dá,
em grande parte, a afirmação e
integração nacional”, ressalta o
jornalista.