
A
"floresta" de eucalipto
Prof. Dr. Carlos Eduardo da Cunha
Pinent*

bióloga,
pesquisadora e mestranda Cris Lisiê Kuryke publicou
em Palavra do Professor, Extra Classe de outubro de
2007, artigo intitulado Sim, sou a favor do cultivo do eucalipto.
Justificou sua tomada de posição clara e categórica
com argumentos,
aos quais gostaria de oferecer contraposição, na verdade,
a dois deles. O primeiro é quando afirma que a cultura do
eucalipto é “muito criticada por pessoas muitas vezes
sem nenhum
conhecimento técnico-científico... ou simplesmente
malintencionadas”...
Há pessoas conhecedoras, com experiência e
bem-intencionadas com posições contrárias, vou
me valer de
duas, mas poderia citar muitas outras, doutores em Biologia. O
outro é quando propõe que um necessário reflorestamento
pode
ser feito com a monocultura do eucalipto, “desta maneira poderemos
proteger o que ainda nos resta de florestas nativas”. Proteger
florestas nativas criando florestas exóticas a partir de uma
monocultura?
Segundo Aziz Ab‘Saber (geomorfologista, professor emérito
da USP, Extra Classe, nº 112, abril, 2007), uma floresta se
caracteriza
pela biodiversidade: “Sou contra a monocultura, não
sou
contra os eucaliptos... Um plantio de eucalipto não pode ser
considerado
uma floresta, pois floresta tem um sentido de
biodiversidade... Está havendo uma pressão muito grande
por
parte das empresas de celulose para entrar em certas áreas
esquecendo
das questões sociais, econômicas e culturais”,
diz. Flávio
Tavares (jornalista e escritor, ZH, 06/05/2007, p. 12) escreveu
sobre a Borregaard, hoje Riocel/Aracruz: “O Rio Guaíba
nunca mais foi o mesmo depois da Borregaard. Tampouco o ar,
que perde o odor ácido..., mas continua a poluir. A indústria
sueca de celulose que, no final dos anos 1970, ia dinamizar o
estado e tirá-lo da estagnação, poluiu tão
ostensivamente que...
quem ousa, hoje, banhar-se e nadar nas praias do Guaíba, como
antes”? Complemente-se que, após mais de 30 anos, Guaíba
continua
um município pobre.
É
importante ter em conta que em ambas as posições, a
favor
e contra, há pessoas com conhecimento de causa e bem-intencionadas. É
preciso tomar posição, sim, mas com respeito e consideração à
posição oposta. Caso contrário, poder-se-ia
replicar que
as indústrias interessadas, que prometem emprego e progresso,
são
mal-intencionadas, visando, sobretudo, a altos lucros, indiferentes
a danos irreversíveis que possam causar à região.
* Professor da PUCRS e UCS
