Os
donos da lei e da mídia
Ilustrações
de Pedro Alice
e montagem de Claudete Sieber |
Coronelismo eletrônico é o
nome que vários pesquisadores
dão para o vínculo que as elites
políticas locais e regionais do
Brasil têm com veículos de
comunicação de massa. A lei
proíbe que isso aconteça, mas
isso não impede que pelo
menos um terço dos 81
senadores e mais de 10% dos
513 deputados federais
controlem canais de rádio ou
televisão. Entre esses, três
deputados do Rio Grande do Sul
são donos ou sócios de
emissoras. Um senador gaúcho
também tem forte ligação com
rádios locais, tendo inclusive
trabalhado por anos – antes e
depois de ter sido eleito – numa
delas, do grupo RBS. Pelo menos
um político da Assembléia
Legislativa do estado também
é
dono de rádios. Não são os
primeiros, nem serão os últimos.
Mas já há quem lute contra isso,
até mesmo parlamentares,
dentro do próprio Congresso.
Por Aloísio Milani e André Deak*, de Brasília

Artigo 54 da Constituição afirma que
deputados e senadores, a partir do momento
em que tomam posse, não podem
“firmar ou manter contrato” ou “aceitar
ou exercer cargo, função ou emprego remunerado”
em empresa concessionária de serviço
público. Rádios e televisões
são justamente isso: estruturas jurídicas
que recebem concessão de
uso de uma faixa do espectro eletromagnético
por onde transmitem
sua programação. Espectro esse
que é público, finito e, por isso, regulado
pelo Estado. A primeira linha
do artigo seguinte da Constituição,
de número 55, diz o seguinte:
“Perderá o mandato o deputado
ou senador que infringir
qualquer das proibições
estabelecidas no artigo anterior”.
Nunca aconteceu.
No Rio Grande do Sul, o deputado
Nelson Proença, que atualmente
está licenciado, trabalhando
como secretário de Desenvolvimento
e Assuntos Internacionais
da governadora Yeda Crusius, consta da lista
de donos de rádio e televisão divulgada
pelo Ministério das Comunicações. O deputado
Ruy Pauletti (PSDB), ex-reitor da Universidade
de Caxias do Sul, também está na
primeira lista do Ministério das Comunicações,
mas sua assessoria informou que ele deixou
todas as “atividades acadêmicas”, e que
inclusive saiu da direção da rádio. Na mesma
lista está o deputado estadual Adroaldo
Loureiro (PDT), sócio de uma rádio em Santo Â
ngelo. Outro caso, de acordo com levantamento
feito em 2004 pelo
pesquisador Venício de Lima, é o do
senador gaúcho Sérgio
Zambiasi (PTB). Foi funcionário
da Rádio Farroupilha, do grupo
RBS, até 2004. Zambiasi também
foi o relator do ato que renovou
a permissão de uma rádio de outro
político, o colega senador
Garibaldi Alves (PMDB-RN). A
rádio de Garibaldi tem o sugestivo
nome de Trampolim da Vitória
Ltda. O próprio Garibaldi era
o relator do ato que renovaria a
concessão de sua própria rádio,
mas foi substituído por Zambiasi.
Eleito em 2002, o senador
gaúcho diz em seu site que “é impossível
separar o pai de família,
o político e o radialista”.
Quem é quem
Não é simples descobrir quem
são os políticos donos, funcionários
ou parentes de proprietários
de empresas de comunicação
concessionárias de serviço público.
O mais recente esforço de
cruzamento de dados foi feito pela
Agência Repórter Social. As bases
de dados foram as declarações
prestadas pelos próprios parlamentares aos Tribunais Regionais
Eleitorais
(TREs), além da pesquisa do
Instituto de Estudos e Pesquisas
em Comunicação (Epcom), do Rio
Grande do Sul, que divulgou uma
lista de senadores com parentes
donos de emissoras. A terceira fonte é
uma lista divulgada pelo sociólogo
e doutor em Comunicações
da Universidade de Brasília
(Unb), Venício de Lima,
de parlamentares que têm os
nomes entre os sócios de concessionárias,
numa listagem
divulgada pelo Ministério das
Comunicações – que foi retirada
do site do governo.
Além desses parlamentares,
entretanto, muitos outros podem
dirigir veículos de comunicação
sem que a sociedade
saiba. A dificuldade
para
descobrir, com
precisão, quantos
deles têm concessões, é
grande.
Não há uma lista
pública atualizada
com os nomes
dos sócios proprietários
de rádios
e televisões. E,
mesmo que houvesse,
muitos parlamentares
colocam
as empresas
em nomes de laranjas, às vezes
sem parentesco
algum.
Legislando
em causa própria
O caso do hoje secretário estadual
Nelson Proença é exemplar.
Foi destacado, inclusive, no
livro Mídia: Crise Política e Poder
no Brasil, de Venício de Lima. Ele é
um dos poucos deputados que
literalmente legislaram em causa
própria: votaram a favor da renovação
de concessões de emissoras
em que apareciam como sócios. “O que
nossa pesquisa revela é
que há fortes indícios de que a
Constituição, o Código Brasileiro
de Telecomunicações e o Regimento
Interno da Câmara dos
Deputados estão sendo desrespeitados”,
afirma o livro no
trecho em que destaca o caso do
deputado.
Licenciado do cargo de deputado
federal, Proença hoje é secretário
estadual e se defende dizendo
que não vê “nenhuma
inconstitucionalidade” em ser
parlamentar e ter uma concessão. “Por
todas as consultas que já fiz
a advogados, o que existe de impedimento é
ter funções executivas
nessa rádio”, justifica. Por isso,
Proença afirma que tem renovado
de maneira sucessiva sua licença
sempre que se candidatou:
1990, 1994, 1998, 2002 e 2006.
Perguntado sobre a votação de sua
própria concessão, o deputado licenciado
disse que é “costume” da comissão
votar todos os pedidos em bloco e “simbolicamente”,
sem discutir caso a caso.
Proença não foi o único parlamentar
dono de rádio ou televisão
a analisar concessões. Um de
cada cinco membros da comissão
que avalia as outorgas está nessa
situação. E mesmo em outra instância, a subcomissão
especial criada em fevereiro
de 2007 para “analisar as normas de
outorga e renovação de concessão, permissão
ou autorização de serviço de radiodifusão
sonora
e de sons e imagem”, há donos de emissoras.
O deputado Jorginho Maluly (PFL-SP) é
um deles.
“Eu mesmo tenho uma pequena emissora
de rádio, mas se minha participação for ter
alguma conotação de parcialidade, eu abro
mão, para que outros colegas decidam se minha
empresa está dentro dos padrões”, diz
Jorginho. O deputado cita, inclusive, a existência
de uma proposta para que a lei volte a
ser como era antes de 1988, no período militar: “Existe
até uma corrente, defendida pelo
deputado Paulo Bornhausen (PFL-SC), de tirar
do Congresso essa prerrogativa de conceder
as outorgas, de deixar no próprio ministério, para
não ter esse vínculo do parlamentar interferir na
concessão de uma empresa do seu interesse”.
Questionado sobre o Artigo 54 da Constituição,
Maluly diz que conseguiu a rádio antes
de se eleger. “Existe algo que se chama
direito adquirido. Temos na Constituição um
artigo que diz que promotor público não pode
participar do processo político, e temos deputados
que são promotores. Por quê? Porque tinham
o direito antes da Constituição. Me tornei
parlamentar agora, mas jamais vou usar
do meu poder para me beneficiar pessoalmente.
Quando houver algo do meu interesse, nem
participarei de votações. Não podemos misturar
os interesses pessoais com os interesses da
nação”, defende. Para o pesquisador Venício
de Lima não é bem assim. “Há um impedimento
legal. Isso é uma incoerência. Como o
camarada que concede a concessão pode também
ser o mesmo que consegue a concessão?
Há uma flagrante obscenidade no ato. Isso existe
por causa de uma interpretação equivocada
da lei. E mesmo antes de 88 havia o código das
comunicações, que também impedia isso”.
Além de Jorginho, outro parlamentar membro
da subcomissão especial que analisa as normas
para concessão é o deputado Frank Aguiar
(PTB-SP). “Estamos analisando as melhores formas
de restringir isso, para que os parlamentares
não possam usufruir de uma licença que é pública”,
defende. Ele faz questão de destacar que
nunca teve uma concessão pública. Novato na
vida política, mas rodado nos bailes de forró, onde é
conhecido como o “Cãozinho dos Teclados”,
Aguiar analisa que estar em projeção na mídia
faz, sim, diferença na hora da eleição. “Óbvio
que a arte possibilita meios de se comunicar com
a população muito mais diretamente. Na mídia,
como parlamentar, você tem um espaço mínimo,
que tem de disputar com outros 512. Como artista,
você fala diretamente com a população”.
Assim como Aguiar, outro parlamentar que
beneficiou-se dos meios de comunicação para
alcançar uma vaga na Câmara dos Deputados é Carlos
Alberto Leréia (PSDB-GO). Radialista
de origem, Leréia admite que o “rádio tem uma
interação imediata com o cidadão, de divulgar
idéias”, mas não considera que foi favorecido
politicamente pelo fato ser proprietário
de uma rádio, Rádio FM Serra da Mesa, em
Minaçu, em que tinha um programa. “Não atuo
desde 1996”, defende-se. Na época, já havia
exercido o mandato de deputado estadual em
Goiás e era suplente de sua segunda legislatura.
Leréia também se defende dizendo que conseguiu
a concessão antes de se tornar político.
Por “direito adquirido”, não poderia ter sua
concessão
retirada. “Eu sou profissional da área”.
| Revendo
o marco regulatório |
|
Presidente da subcomissão
especial da
Câmara que analisa o assunto, a deputada
Luiza Erundina (PSB-SP) disse acreditar que
uma legislação específica, criada
em parceria
com a população e entidades do setor,
dará mais segurança para os deputados
aprovarem
ou negarem a outorga e renovação de
concessões às
emissoras educativas. “A gente
quer uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional)
para substituir o artigo 54, que deixa
brechas para interpretações diversas.
Precisamos
prevenir [que parlamentares tenham
emissoras], e corrigir os casos ilegais,
inconstitucionais. Precisamos rever todo o
marco regulatório”, diz a deputada.
Segundo ela, até novembro a comissão
deve receber as sugestões. Enquanto isso,
a deputada já começou a buscar apoio
no
plenário, com parlamentares que têm
projetos sobre o assunto. “Não estamos
começando
do marco zero. Não vai ser fácil,
temos consciência disso. Mas temos o apoio
dos trabalhadores da comunicação, de
movimentos
populares, bastante apoio externo.
Já está na pauta de alguns segmentos”.
Erundina diz que mesmo sem a maioria
de votos na comissão, “vamos levar o
debate adiante”. Para Venício, é um
começo: “Na subcomissão, de 14
membros, pelo menos a Erundina está conseguindo
levantar o problema. Esse é o primeiro passo”.
|
|
* André Deak e Aloisio Milani são membros do
Coletivo Intervozes de
Comunicação Social e dois dos autores do livro-reportagem
Vozes da
Democracia – A História da Comunicação
na Redemocratização do
Brasil.