Em busca da transparência perdida
Por Marco Aurélio Weissheimer
a entrevista coletiva que concedeu logo após
o arquivamento do processo de impeachment
na Assembleia, a governadora Yeda Crusius
(PSDB) voltou a insistir que a transparência é uma
das marcas de seu governo e que sempre procurou
investigar as denúncias que pesam sobre ele. A
vida real, porém, diz algo diferente. A governadora
movimentou fundos e mundos para evitar que
fosse aberto um novo foco de investigação sobre
seu governo, no âmbito da Assembleia Legislativa.
A CPI da Corrupção caminha com imensas dificuldades
devido ao boicote promovido pelos deputados
governistas. A relatora da Comissão Especial
do Impeachment, Zilá Breitenbach (PSDB),
decidiu arquivar o processo sem ter realizado uma única reunião para analisar os documentos que
embasavam o pedido.
Ainda no que diz respeito à transparência, Yeda
já está no terceiro secretário da área. Os dois exocupantes
da pasta, Mercedes Rodrigues e Carlos
Otaviano Brenner de Moraes deixaram o governo
em rota de colisão com a chefe do Executivo. O
chefe de gabinete da governadora, Ricardo Lied, é acusado de improbidade administrativa em uma
ação movida pela Promotoria de Defesa do
Patrimônio Público. A assessora direta de Yeda,
Walna Vilarins, foi indiciada por corrupção passiva
e formação de quadrilha pela Polícia Federal,
por envolvimento em fraudes em licitações
investigadas pela Operação Solidária. Yeda não
instalou nenhum procedimento de investigação
para apurar a conduta de seus assessores, apesar
da recomendação de seu ex-secretário da Transparência.
O pessoal "do lado de lá"
As declarações da atual ocupante do
Piratini sobre as providências que tomou diante
da fraude no Detran também brigam com
a realidade. Yeda Crusius passou praticamente
toda a Operação Rodin reclamando do “clima
big brother” e do pessoal “do lado de lá”,
numa referência ao trabalho da Polícia Federal
e do Ministério Público Federal. Em momento
algum, condenou publicamente a conduta
dos acusados de envolvimento com a quadrilha
que fraudou o Detran. Em recente entrevista
no Roda Viva, da TV Cultura, voltou
a criticar o MP Federal, a PF e a Assembleia
Legislativa.
Além disso, a governadora só admitiu ter
usado recursos públicos para mobiliar e reformar
sua casa na rua Araruama depois que a
oposição trouxe as notas a público. Flagrada
no episódio, voltou a responder que seu governo
era marcado pela transparência e que era
tudo legal. Já o contador e auditor-geral do Estado,
Roberval Silveira Marques, disse, em depoimento
na CPI da Corrupção, que as compras
foram feitas para a ala residencial do Palácio
Piratini. Ele não soube explicar por que foram
parar na casa particular da governadora. Silveira
Marques também admitiu que não sabia que as
compras não constam da prestação de contas
de bens adquiridos pelo governo, conforme informação
do Ministério Público de Contas.
"Contumaz descumprimento constitucional"
O debate sobre a transparência
não para aí. Há problemas
também na área da publicidade
governamental. Um parecer
do Tribunal de Contas do
Estado apontou uma série de
irregularidades nos gastos do
governo com publicidade, que
chegaram a R$ 168.358 milhões
em 2008. Entre os problemas
apontados pelo TCE, está o
constante aumento de participação
de empresas estatais gaúchas.
Além disso, o Ministério
Público de Contas considerou
irregular a suplemen-tação das
despesas com publicidade das
empresas estatais em 102,66%.
Isso foi possível deslocando dinheiro
destinado a outras áreas
para a comunicação, o que
exigiria uma autorização prévia
da Assembleia Legislativa.
O procurador Geraldo Da
Camino criticou essa prática e
a utilização das empresas estatais
para a divulgação de ações
do governo estadual. Em seu
parecer, ele apontou “o contumaz
descumprimento da prescrição
constitucional e legal
preocupa, ainda mais quando
se constata que as chamadas
estatais responderam por
67,35% (R$ 113.387 milhões)
do total investido em gastos
dessa natureza e porque custeiam
amplamente ações
institucionais do governo”.
Problemas como este ecoam
no desabafo feito pelo ex-secretário
da Transparência,
Carlos Otaviano Brenner de
Moraes, em um email enviado
ao jornalista Flávio Tavares. Ele
disse que, enquanto esteve no
governo, não conseguiu salvaguardar
a transparência e a
probidade porque encontrou
dificuldades “devido à falta de
compreensão, no coração do
governo, da essencialidade ética
de determinadas decisões”.
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