O picadeiro da 10ª Jornada Nacional de Literatura mal havia
sido desmontado, e a Universidade de Passo Fundo estava mais uma
vez abrindo as portas para cerca de 720 estudantes e educadores
interessados em debater e aprender. Desta vez, a literatura deu
lugar à filosofia e à educação, que
estabeleceram um diálogo no evento que aconteceu de 22 a
26 de setembro.
Daniel Cassol Conversa franca entre Filosofia e Educação
1º Seminário
Internacional sobre Filosofia e Educação teve como
tema
“Subjetividade-Intersubjetividade na Fundamentação da Práxis
Pedagógica”. Por trás da frase, incompreensível para
leigos, está o desafio de aproximar as duas areas como forma de aperfeiçoar
os processos de formação de professores e de educação
de alunos. “A aproximação entre a filosofia e a pedagogia
se dá a partir dos temas de fronteira entre ambas, principalmente os conceitos
de racionalidade e ação humana”, explica o professor Cláudio
Dalbosco (UPF), um dos coordenadores do evento.
Para cumprir a tarefa, a coordenação do seminário contou
com as presenças de pesquisadores como José Carlos Libâneo
(UFG), Demerval Saviano (Unicamp), Pedro Goergen (Unicamp), Nadja Hermann (UFRGS),
além dos alemães Heinz Eidam, Frank Hermenau e Hans-Georg Flickinger,
da Universidade de Kassel (Alemanha), este atuando no Rio Grande do Sul desde
1983. O evento ainda contou com mesas-redondas, realizadas em homenagens a importantes
educadores brasileiros e da região de Passo Fundo, como Paulo Freire,
Dom José Gomes, Ernani Maria Fiori e Mário Osório Marques.
Foram inscritos, também, mais de 60 trabalhos dos participantes. No último
dia do evento, uma conferência do professor Wolfgang Leo Maar (UFSCar)
serviu de homenagem ao centenário de Theodor Adorno.
A próxima edição do seminário já está confirmada
para setembro de 2005. Até lá, quem não pôde acompanhar
as discussões poderá conferir o livro que será editado com
o conteúdo das conferências e das mesas redondas. A obra será financiada
pelo Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD).
Para adquiri-lo, a UPF disponibiliza o site do evento: www.upf.br/nupefe
Não
há diálogo sem autonomia
Ao se propor
um diálogo entre a filosofia e a educação,
tarefa ousada e complexa, há uma pergunta a ser feita:
Como conseguir isso? Em entrevista o jornal Extra Classe, os
professores da Universidade de Kassel defenderam que a filosofia,
assim como a educação, deve buscar fortalecer a
si própria para que possa dialogar com outras áreas
do conhecimento. “A filosofia deve elaborar suas próprias
formas de questionamento para conseguir, a partir deste ponto
de partida, estabelecer um diálogo com as outras áreas
científicas. Um diálogo só pode ser estabelecido
entre áreas diferenciadas e autônomas”, afirma
o professor Heinz Eidam. Mesma opinião tem o professor
Frank Hermenau, que acredita no aprofundamento das questões
próprias da filosofia como forma de não torná-la
uma disciplina específica. “É preciso evitar
que a filosofia seja tratada unicamente como a reconstrução
histórica de uma certa área”, defende.
Mas qual seria o resultado desse diálogo, a primeira vista
tão incompreensível? Os professores entendem que
a aproximação entre a filosofia e a pedagogia poderia
contribuir para o desenvolvimento de ambas as ciências. O
professor Hanz-Georg Flickinger, que está no Brasil há 20
anos e hoje trabalha na PUCRS, entende que há um caminho
de mão dupla a ser trilhado. “A filosofia poderia
contribuir para a criação de uma autoconsciência
da educação em relação às suas
próprias raízes históricas e, ao mesmo tempo,
a educação poderia lembrar à filosofia quanto
a sua forma originária de fazer parte do próprio
processo educacional”, explica.
Em síntese, a filosofia deveria estar utilizando sua capacidade
de reflexão sobre a condição humana na sociedade,
de forma a contribuir para que essa reflexão se concretizasse
em práticas pedagógicas mais emancipadoras. Na visão
dos professores, a pedagogia hoje está se limitando a pensar
apenas os currículos e a didática, enquanto o incentivo às
experiências e à autonomia dos alunos tem sido esquecido.
A aproximação entre as áreas serviria, justamente,
para que fossem formados indivíduos capazes de agir autonomamente
na sociedade globalizada, uma vez que ambos os campos lidam com
um objetivo comum: formar seres humanos.
A Universidade de Kassel possui um convênio com a UPF desde
de 2001. Assim foi viabilizada a vinda dos pesquisadores da Alemanha
e será financiado o livro do seminário. Com a parceria,
a organização do evento já conseguiu confirmar
o nome do pesquisador alemão Wolfdietrich Schmied-Kowarzik,
que estará em Passo Fundo em 2005.
Uma ponte entre a prática
e o pensamento
O Extra Classe promoveu uma mesa paralela ao evento para apresentar um breve
resumo do que foi debatido nos cinco dias de seminário em Passo Fundo.
Para isso, reuniu os três filósofos alemães, Frank Hermenau,
Heinz Eidam e Hans-Georg Flickinger.
Heins Eidam
Frank Hermenau
Hanz-Georg Flickinger
Extra Classe – A filosofia se ressente
de um diálogo mais aproximado com as outras áreas do
conhecimento? Nesse sentido, em que termos pode acontecer essa aproximação
entre a filosofia e a educação, e qual a importância?
Frank Hermenau – Existe uma tendência de tornar a filosofia
uma área cada vez mais diferenciada. Porém, se a filosofia pudesse
se encontrar em suas temáticas originárias, ela teria força
suficiente para dialogar com outras áreas do saber. Não se pode
fazer da filosofia uma disciplina especial, tal qual a filosofia da educação,
por exemplo. Muito pelo contrário, a filosofia deveria explorar melhor
as suas próprias implicações. Assim, certamente ela seria
capaz de estabelecer tal diálogo com a pedagogia. Trata-se, em última
instância, da necessidade de abrir o interesse das implicações
filosóficas, tornando-as frutíferas para a própria prática
educacional, porque assim evitaríamos tratar a filosofia unicamente como
a reconstrução histórica de uma certa área. Heinz Eidam – O diálogo se torna necessário
a partir da manutenção de uma consciência clara das diferenças
entre as várias áreas. Ao longo da história das ciências,
durante muito tempo não existia essa rígida separação
entre as diferentes áreas científicas. A diferenciação
entre as ciências, por um lado, tem a vantagem de especificar melhor os
questionamentos científicos.
Ao passo que a desvantagem consiste, sobretudo,
na perda da unidade de um saber dentro do qual as questões se localizam
como questões científicas. Nesse sentido, uma tarefa primordial
da filosofia é elaborar suas próprias formas de questionamento
para conseguir, a partir deste ponto de partida, estabelecer um diálogo
com as outras áreas científicas. Para um tal diálogo, a
autonomia da filosofia é muito importante, já que um diálogo
só pode ser estabelecido entre áreas diferenciadas e autônomas. Hanz-Georg Flickinger – É preciso lembrar a educação
de suas origens dentro de um saber mais amplo que, sobretudo na tradição
grega, se encontra junto a questões educacionais, questões éticas
e questões da estética. Portanto, a filosofia poderia contribuir,
por um lado, a uma autoconsciência da educação em relação às
suas próprias raízes históricas e, ao mesmo tempo, a própria
educação poderia também lembrar à filosofia quanto
a sua forma originária de fazer parte do próprio processo educacional.
EC – Nesta sociedade globalizada, de privatização do setor
público, da educação e da própria vida, na qual
as instituições de ensino propiciam uma formação
tecnicista, que debate a filosofia e a educação podem, conjuntamente,
propor para que enfrentemos esse desafio?
Hermenau – Parece óbvio que uma certa razão instrumental
está acompanhando o processo de globalização. Neste processo,
o próprio ser humano torna-se cada vez mais meio de suas próprias
máquinas. Por outro lado, a própria produção tecnológica
avançada exige, necessariamente, sujeitos capazes de agir e assumir
responsabilidades. Aí se encontra uma contradição interna
do próprio processo de globalização. Com a filosofia,
seria possível também um desenvolvimento instrumental e conceitual
capaz de fazer-nos compreender essas contradições. Isso é muito
importante para o campo da educação e da pedagogia, que não
podem se restringir a meras questões da didática ou curriculares. Eidam – O processo de globalização é, em alto grau,
ambivalente. Um aspecto positivo, por exemplo, encontra-se no fato de nós
estarmos aqui em Passo Fundo, o que sem a globalização não
seria possível. Há, por outro lado, aspectos negativos. O próprio
processo de tecnologização mostra-se um tanto inadequado. Eu
posso mandar e-mails e faxes aqui para Passo Fundo, mas, ao chegar aqui, podemos
ver que a experiência no próprio local não consegue ser
substituída pelas tecnologias. Nesse sentido, é cada vez mais
importante a manutenção do processo de experiência. Esta é uma
das tarefas da pedagogia: guardar a capacidade de se fazer experiências. Flickinger – Outro aspecto é o interculturalismo. Na medida em
que o processo de globalização se desdobra, ocorre com uma certa
naturalidade o confronto entre diferentes culturas. Confronto esse que pode
causar problemas sérios. Por outro lado, estimula a ampliar horizontes,
o que não significa apenas conhecer novas culturas, mas, através
do conhecimento de outras culturas, olhar mais especificamente a cultura de
sua própria origem. A mediação do processo de aprendizagem
intercultural tem, entre seus lugares de preferência, o próprio
processo educacional. Podemos fazer uma analogia com o aprendizado em sala
de aula. No processo pedagógico, o encontro com diferentes opiniões
torna mais preciso o nosso próprio auto-entendimento no confronto com
os outros.
EC – Qual é o papel da escola e do professor? Eles ainda possuem
importância?
Hermenau – Vamos tomar como ponto de partida a filosofia da educação.
A partir da filosofia da educação, é possível diferenciar
as possíveis máximas que deveriam orientar o próprio processo
educacional. Por exemplo, é possível, enquanto educador, implantar
no processo educacional as máximas que estão sendo impostas pelo
Estado nas instituições da sociedade. Sob esse ponto de vista,
a escola assume sobretudo a tarefa de qualificar e selecionar. Porém,
para um educador verdadeiro isso é insatisfatório. Seria possível,
por outro lado, escolher como máxima oposta a possibilitação
de um processo da experiência da autonomia, no caso da criança.
Atualmente, podemos observar dentro da pedagogia, uma tendência de questionar
esse tipo de educação que toma como ponto de partida o saber
do próprio educador. Hoje em dia, pelo menos no que diz respeito à escola
alemã, nós podemos observar uma série de experimentos
pelos quais aos próprios alunos deveria ser dado espaço suficiente
para fazer da educação um processo de autoformação.
Experimentos no sentido de tornar possível os alunos se auto-entenderem
como sujeitos desse processo, em vez de serem usados apenas como meios. Eidam – Há uma espécie de deterioração da
possibilidade de se fazer experiências ao lado das crianças. Isso
tem muito a ver com o fato de as mídias apresentarem as crianças
em posições já pré-fixadas e opiniões já determinadas,
como se fosse verdade. Isso, por exemplo, tem efeitos substanciais no que diz
respeito à capacidade de assumir e manejar conflitos. A capacidade imaginária
das crianças só pode ocupar um espaço já delimitado
pelas mídias. Nesse sentido, uma das tarefas da escola é a tematização
desta problemática e na discussão em comum sobre esses problemas.
A meu ver, uma pedagogia emancipatória não pode, de jeito nenhum,
renunciar à tematização de tais questões e à tentativa
de mudança. Não se pode acostumar as crianças a seguir
opiniões pré-fabricadas, pelo contrário, é preciso
torná-las capazes de refletir sobre alternativas e tomar decisões
próprias. Flickinger – O processo da tecnologização do próprio
processo educacional traz consigo uma ocupação do espaço
de tempo por parte da escola que não deixa mais possibilidade de haver
espaço de tempo suficiente para uma irritação produtiva
ao lado dos alunos. Ou seja, a implementação de exigências
de conseguir conhecimento ao longo de um tempo determinado já claramente
prescrito por parte da administração da escola faz com que as
crianças tornem-se cada vez menos dispostas a refletir produtivamente
sobre o que está sendo imposto enquanto conteúdo a ser assimilado.
Isso me parece também representar uma tendência bastante significativa
aqui no Brasil, que a estruturação do currículo toma uma
importância exagerada, porque o processo de educação se
submete a uma condição externa representada pelo currículo,
em vez de deixar o processo de educação crescer organicamente
no convívio entre educador e aluno.
Para o envio de cartas,
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