“Honre o dom”

Palavras de mãe costumam ecoar para sempre nos ouvidos da
gente. As da minha me embalam líricas e determinantes até hoje.
Rainha do otimismo responsável e atuante, minha mãe
amava dignos, pobres, ricos e errantes na proporção
da sua estupenda compaixão e compreensão do ser humano.
E por essa ótica, me ensinou muito e me deu sábias
dicas para quase tudo. Era cheia de fundamentos essa mulher. O
maioral deles era: “Honre o dom”; dizia isso pra mim
escolhidamente. Sabia de mim. “Filha, quem tem dom tem mais
trabalho, do contrário disso não se iluda”.
Eu seguia miúda e desenvolvente sob aqueles reluzentes olhos
castanhos, lúcido nos caminhos. E continuava... “há que
se honrar o dom, há que se ter merecimento”.
Brasileira, professora de ioga, mineira, mestiça e de ações
cidadãs, Divalda me ensinara a dar correspondência
de motivo às aptidões. “Ai daquele que não
der caminho aos seus talentos verdadeiros, esses o devorarão
por dentro. Erva daninha, filho tratado como se mal querido fosse,
será o infortúnio da casa”.
Mas mãe o que é o dom? “Dom é aquilo
que se é muito bem, competentemente, mas sem querer, sem
se fazer força para ser; dom é aquilo no qual se
trabalha firme mas sem doer. Não tem hora extra, porque
dom é trabalho que se mistura ao prazer de viver. Porque
como o dom é o que é, poderoso assim, pede correspondência,
exige que você aceite a sua vocação e dê estrada
a ela. Já vocação é a disposição
pra se peregrinar na rota daquela inclinação: com
as dores delas, com os mitos e as ilusões dela, com os espinhos,
os acertos e a esperança certa das pétalas”.
É
mãe, o dom é o que a gente é mesmo, e uma
vez entregue a ele é fácil sê-lo. Difícil é negá-lo
como ofício, identidade e trabalho. O dom tem categoria
de árvore e goiaba não dá em mangueira. O
que dá em mangueira só pode ser manga.
Durante a vida, tem sempre alguém te dizendo uma forma esperta
de ganhar mais dinheiro, uma forma que não considera uma
reflexão sobre nossas verdadeiras aptidões, como
se não fosse possível colher o pão e o ouro
através de nossas intímas riquezas. E é por
isso que tem médico com espírito de policial, garçom
com talento de gari, industrial que queria ser cantor, advogado
que queria ser ator, presidente que deveria ser soldado, artista
que deveria ser um excelente cabeleireiro. Penso que teríamos
uma nova e sã cidadania, se nossas carreiras e destinos
viessem dos nossos verdadeiros dons respeitados. Mas esses coitados
por falta de correspondência, por descaso ou por desistência,
viram caroço, viram couraças, viram tumores da infelicidade
e da incompetência.
Honre o dom, dizia minha mãe, seja feliz e tenha paciência.