O historiador francês Roger Chartier é um dos mais
importantes estudiosos da leitura em todo o mundo. Autor de História
da Leitura no Ocidente, Chartier esteve recentemente participando
da 10ª Jornada Nacional de Literatura, realizada de 26 a 29
de agosto em Passo Fundo (RS). Na entrevista a seguir, o historiador
fala do futuro do livro e da literatura no mundo digital (um mundo
de poucos, como prefere frisar), e afirma: o e-book está decadente,
a literatura atual sofre as contradições de dois
modelos (o romântico e o do século XX que conhece
o computador), Shakespeare não escrevia literatura, e os
escritores iludem-se com um mito da liberdade. Jéferson Assunção
Extra Classe – Qual é o impacto que a entrada
no mundo da informática pode ter no livro como suporte tradicional?
Roger Chartier – Em primeiro lugar, devo dizer que não
estamos todos dentro deste mundo do texto eletrônico. Me
parece que é uma grande ilusão, uma falta de percepção
aguda pensar que haja, hoje em dia, a generalização
da presença desta técnica. Sabemos que as condições
econômicas, culturais e sociais do acesso das pessoas a esta
nova realidade da comunicação não estão
distribuídas igualmente. Só para se ter uma idéia:
no mundo da internet, 50% dos sites são em inglês,
5% são em espanhol e somente 3% são em português.
Há uma discrepância muito grande nos endereços
das novas tecnologias. Mas devemos aceitar a idéia de que
hoje em dia há setores importantes da população
que manejam, utilizam e lêem com o computador e provavelmente
isso vá se difundir mais no terceiro milênio. O que
me parece é que é preciso fazer um diagnóstico
mais preciso, agudo, quanto ao que vai mudar para a cultura escrita,
seus gêneros e textos, ao serem produzidos na frente da tela.
Aí me parece que o mais importante é considerar a
idéia de que a leitura frente à tela é fundamentalmente
uma leitura fragmentada. É como se extraíssemos fragmentos
de um banco de dados, de um livro eletrônico, de um jornal
eletrônico. Bom, esta dimensão, por sua vez, é um
recurso muito importante para os textos cuja estrutura é a
fragmentação: dicionário, enciclopédia
e livros de referência, mais do que para as obras que exigem
outro tipo de relação com o texto, como, por exemplo,
a compreensão de sua coerência, totalidade e identidade.
Neste caso, este tipo de leitura é largamente inadequada.
Se tenho razão, haverá uma coexistência entre
textos cuja estrutura encontra na nova técnica um suporte
particularmente eficaz e outros para os quais é preciso
uma forma mais clássica.
EC – O senhor acha que essa mudança de tecnologia
terá uma implicação nos romances, novelas
e contos?
Chartier – Depende se falamos dos textos que já existem,
que conheceram uma história através de diversas formas
antes de chegar a uma possível existência eletrônica.
E estes são os textos que constituem a maioria. Vemos que
aí há um impacto. Uma tradução disso é que
muitas das editoras que haviam tentado abrir um mercado para novelas
ou ensaios, na forma eletrônica, renunciaram, nos últimos
anos, enquanto sabemos que há edições de enciclopédias
que têm agora unicamente uma edição eletrônica.
Se vê muito bem a diferença da relação
da nova técnica com tal ou tal gênero de texto. Se
pensamos nos textos novos, que se escrevem sobre a tela, a questão é um
pouco diferente porque a criação, mesma, do texto
pode incluir esta fragmentação e segmentação.
Particularmente também tem uma lógica não-linear
que a nova tecnologia permite e se pode criar livros de histórias
e novelas que aproveitam estas possibilidades. É um caso
totalmente diferente. Me parece que há um futuro para a
edição eletrônica, mas particularmente para
os textos pensados, escritos dentro desta nova técnica,
não para o patrimônio literário clássico.
E é útil ter uma forma digital, é possível
com a invenção do e-book, mas isso não está tão
popular como o foi no momento de sua invenção, essa
idéia de ter consigo uma pequena biblioteca portátil...
Me parece que fundamentalmente o mundo dos objetos impressos e
os gêneros tais como ensaios, livros de história ou
de estudos e novelas vão manter uma forte vinculação.
A forma clássica do livro e esses gêneros vão
se manter juntos.
EC – Os novos textos, feitos na tela, deverão ter
um impacto ainda maior na idéia da intenção
do autor, na idéia de uma identidade na obra de arte? Só a
literatura clássica, feita antes do computador, é que
manteria, assim, essa idéia de identidade e de unidade?
Chartier – Sim, esse é o problema da autoria no texto
eletrônico. Se será como algo que temos conhecido
e praticado. Evidentemente você tem razão: há algo
como uma desaparição da assinatura do texto, do nome
próprio e este texto aberto, móvel, maleável é,
por definição, coletivo, múltiplo, polifônico
e nesse caso se apaga a identidade e a soberania do autor. Se pode
pensar que para a nova criação é uma possibilidade
interessante em que se pode aproveitar o autor aceitando o sacrifício
de sua própria autoridade. Se pensamos nos textos do passado,
que foram escritos totalmente em outro contexto, pelo menos a partir
do século XVIII, com a estabilização do nome
próprio, da idéia de autor, que era condição
para a propriedade literária, vemos que esta desaparição é uma
forma de traição para a relação com
as condições históricas de produção
das obras. Também para isso não há uma reposta
global, universal, mas sim para a relação entre o
tipo de tecnologia e o tipo de texto em termos de seu gênero
e em termos de seu momento histórico de produção.
EC – Neste sentido, qual sua opinião quanto à idéia
de um cânone ocidental, ou seja de uma autonomia do texto
literário em relação à realidade, contendo
uma unidade e uma identidade próprias, criadas pelo autor,
por sua intenção?
Chartier – Historicamente, o que corresponde ao paradigma
da literatura canônica, do que se acreditava nos séculos
XVII, XVIII, XIX e XX, não foi sempre a realidade. A produção
literária medieval é largamente coletiva e para muitos
gêneros do Renascimento nem se exigia originalidade ou singularidade.
O repertório dramático da Inglaterra elizabetana é um
repertório no qual as mesmas histórias estão
retomadas em muitas obras, estão continuadas, revisadas,
reescritas, de maneira que não devemos cair na idéia
de uma definição universal da literatura. Me parece
que é fundamental entender a historicidade do conceito de
literatura. Os gregos não escreviam literatura, Shakespeare
não escrevia literatura, a literatura como tal. Não
quero dizer que não escreviam obras poéticas ou dramáticas
que tivessem como fim produzir um prazer, uma emoção
ou uma reflexão, mas que a literatura – com todos
os seus traços: nome próprio do autor, a idéia
de que é uma obra singular, original, de que há a
intenção do autor como dominante para o sentido – é uma
realidade histórica muito recente, na escala da história
da humanidade e da qual vemos, quem sabe, a fragmentação.
Também os desafios lançados por estas novas ténicas
nos obrigam a lembrar que durante muitos séculos estes critérios
que, para nós, formam a Literatura, não existiam.
EC – São uma invenção romântica...
Chartier – Do século XVIII e XIX, com a propriedade
literária, copyrigth, originalidade, a consagração
do escritor, a figura do autor como aquele que fala com os poderes
ou com Deus. Victor Hugo, como paradigma, é uma invenção
do século XIX.
EC – Mas não havendo mais estes critérios,
nem a especificidade, nem identidade, como dizer que uma obra de
arte literária é boa ou ruim? Qual a possibilidade
da crítica literária e como fica possível
estabelecer os limites entre o que é literário e
o que não é?
Chartier – Me parece que um dos critérios é a
capacidade de algumas obras ou textos permitirem a reinterpretação.
Neste sentido a leitura de literatura seria uma releitura. É claro,
como dizia, que Shakespeare não tinha nada que ver com o
modelo paradigmático do escritor romântico e quando
escutamos “to be or not to be”, o momento mais fundamental
do teatro ocidental, a interpretação moderna, espontânea é metafísica,
quando se questiona sobre o ser, ou uma interpretação
romântica, é a melancolia. Mas nos tempos de Shakespeare
essas mesmas linhas significavam que to be or not to be era um
exemplo de uma gramática. Desta maneira, vemos que há um
deslocamento total do sentido. Para Shakespeare este momento de
Hamlet não teria nada de metafísico nem de romântico.
A força da obra, e que define não sei se a literatura,
mas certas categorias de textos, é o que permite essas séries
de reinterpretações através do tempo e das
culturas, enquanto que muitas obras do passado não o permitem.
Este é um critério, não sei se é bom
ou ruim, mas quem sabe há peças de Marlowe que são
mais fortes, mais belas, melhores que as de Shakespeare. Através
desse processo de reinterpretação, vemos que há obras
que são capazes de superar os limites de seu tempo justamente
porque estão profundamente arraigadas em seu tempo. Lembro
do exemplo de um texto de Borges em que ele cita um verso de Virgílio
em que o sentido dos antigos é completamente inverso ao
sentido moderno. A capacidade literária de um texto é justamente,
me parece, a capacidade de permitir, sugerir uma pluralidade de
interpretações.
EC – Falando nisso, Umberto Eco, em Obra Aberta, sugere esta
abertura toda na obra de arte. Porém, depois de publicar
O Nome da Rosa, vem um outro livro dele chamado Interpretação
e Superinterpretação, com Richard Rorty e outros,
em que ele admite haver limites para a interpretação,
a partir dos quais a leitura vira uma superinterpretação.
São reflexões dele em função de todas
as interpretações que o público leitor fez
de O Nome da Rosa, e que teriam resultado em uma falta total de
unidade de sentidos. Como o senhor vê esta contradição?
Chartier – É a contradição própria
dos autores que por um lado estão abertos para esta liberdade
do leitor, para a contribuição do leitor na produção
de sentidos e que ao mesmo tempo foram plasmados dentro do paradigma
que você mencionava, do autor como tendo domínio do
sentido. Eles têm uma grande dificuldade para aceitar este
jogo das interpretações, mas me parece que esta é uma
contradição incorporada dentro de um autor dos séculos
XX e XXI, que por um lado é herdeiro de um modelo ilustrado
e romântico, do autor que é o dono do sentido, e que
por outro lado é herdeiro das teorias semióticas
do século XX, em que há a morte do autor, com Barthes,
e a historicidade da função do autor, em Foulcault,
ou mais presentemente a idéia da obra aberta à contribuição
do leitor e à produção de sentido. E essas
duas vias são largamente contraditórias. Realmente
nesses dois livros de Eco se vê claramente esta contradição.
Eu penso, como historiador, que há limites às interpretações,
mas não são limites do leitor como indivíduo
singular, mas que são os limites de um sistema mental, uma
organização psíquica de um mundo social que
faz possível a interpretação em um dado momento.
Se essas condições mudam, por exemplo, no caso de
Hamlet, se há no século XIX o Romantismo, se há Kierkegaard
e a metafísica do ser e se há o existencialismo,
mudam as condições da interpretação
e o espaço possível da interpretação.
E se um texto resiste a essas interpretações é uma
razão pela qual há esse jogo histórico de
reinterpretações do mesmo texto. Me parece que os
limites da interpretação vêm fundamentalmente
da plasmação dos indivíduos como seres sociais,
ou seja que dependem da organização de um certo tipo
de modelo social, da internalização da censura, dos
sentimentos, dos afetos, das emoções e dos sistemas
de representação mental. Aí se vê que
há interpretações impossíveis, não
porque sejam absurdas, mas impossíveis historicamente.
EC – O senhor acha que há uma diferença entre
o modo dos historiadores e cientistas e o dos escritores de verem
a literatura? Os escritores não sabem o que estão
fazendo? Pelo que o senhor falou, eles parecem não apenas
fazer, mas também acreditar numa ficção...
Chartier – Os escritores têm essa idéia de que
a escrita não tem dependências, de que está autônoma.
Mas essa necessidade interna da produção escrita
não significa que ela corresponda a este mito, porque o
escritor vive dentro de um mundo social, com certas condições
e determinações mentais, afetivas e econômicas,
mesmo que precise apagá-las para pensar seu gesto criador
como original, destacado das contingências... Bem, as realidades
sociais são completamente diferentes. Não se vive
da escrita, mas se deve buscar uma série de outros dispositivos
sociais que permitam viver: copyright, publicações,
editoras etc. Dessa maneira, não há nada mais material
que a literatura... E mais social, mas não acuso os escritores
por dizerem isso. Podem dizer. No gesto criador talvez seja necessário
esquecer essas coisas.
EC – Os escritores não sabem como funciona seu trabalho
frente à realidade?
Chartier – Sabem, mas acho que é como a contradição
de Eco. A contradição da dinâmica própria
de um gesto criador que efetivamente no momento da criação
não pode pensar-se dependente. É um gesto absoluto,
de liberdade, mas a liberdade é uma ilusão a que
os homens se dão para não pensar que estão
determinados.
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