Corujice sim...mas
sem ranço

Antes de mais nada, saibam que fui provocado. Pai fresco e coruja,
andei evitando o assunto com medo de afogar o leitor na baba. Mas
agora é justamente uma leitora, a Elizabeth Sivinski, quem
pede que eu fale mais sobre a minha filhota. Ôba! E lembrem-se,
vocês que pediram!
Está linda, a Maria Clara. Esplendorosa. Muito ligada e
esperta, feliz, risonha, com oito meses e dois dentinhos. Dorme
a noite toda, mais de dez horas seguidas. Manda ver em mamadeiras,
frutas e sopinhas sem nenhum ranço. Não estranha
ninguém que não seja mesmo de se estranhar. Já dança,
mesmo sentadinha, e adora batucar. Vai entrar pro Olodum. Enfim,
um luxo de criança. Pronto, babei de vez. E agora estou
proibido de me queixar da sorte, se me vir por aí reclamando
da vida pode lascar uns cascudos sem pena nenhuma.
De resfriados e de algumas noites insone ninguém escapa, é lógico.
Mas o único momento crítico que passamos, de muito
choro, lá pelos três meses, foi rapidamente diagnosticado
e resolvido: a Maria Clara tinha (ou desenvolvera) uma intolerância à lactose.
Corrigida a alimentação da mãe, que passou
a privar-se de leite de vaca e derivados, tudo voltou às
mil maravilhas. E quando chegou a hora das mamadeiras, a solução
foi um composto de soja, que pelo visto funciona muito bem. Assim
será ainda por uns meses ou mesmo por uns anos, é o
que me dizem, leite de soja na mamadeira da Maria Clara. Soja.
O que será que isso me lembra?
Lembra o que escutei há pouco no rádio, era alguém
dizendo que sou preconceituoso, atrasado, ignorante. Alguém
que acha que devo aceitar o plantio e o consumo de soja transgênica
mesmo que não se tenha concluído nenhum estudo decisivo
sobre o impacto sanitário e ambiental desse tipo de produto.
E mesmo que riscos graves já tenham sido apontados. Alguém
que, antes de mais nada, afronta decisões da justiça
federal sobre o assunto. Que afronta o bom senso. Que quer me impingir
goela abaixo um frankenstein alimentar por conta do lucro ou produtividade
de latifundiários e multinacionais. Alguém que está querendo
mexer com o leitinho da minha filha. E aí eu viro bicho.
O maior absurdo é que já estamos, adultos e crianças,
consumindo transgênicos embutidos em porcentagens desconhecidas
em diversos alimentos, sem sequer a decência de um aviso
ou de uma caveirinha desenhada no rótulo. A própria
Wyeth, que fabrica o leite da Maria Clara, só os eliminou
de seus produtos depois de pressionada por pesquisa e campanha
do Greenpeace. Com a força que o lobby dos transgênicos
tem mostrado, quem me garante que não voltará à fórmula
anterior?
Não, não sou preconceituoso nem arauto do atraso
tecnológico. Mas ignorantes somos todos, sobre esse assunto.
Se a Ciência quiser misturar um tomate com uma jaca, em laboratório,
pra ver no que é que dá, não me oponho. Já se
a Monsanto quiser que a minha filha sirva de cobaia pra eles venderem
mais herbicida, vão me encontrar com um trabuco de sal e
dois cachorros no portão de casa. E um pé da boa
e velha soja tradicional plantado no pátio.
Um abraço, Elizabeth, meu e da Maria Clara, que está linda
e cheia de saúde.
