“É como se a esquerda brasileira tivesse aceito – sem
dizê-lo – os termos
propostos por Fukuyama: o marco
histórico contemporâneo se limitaria à democracia
liberal e à economia
capitalista de mercado”
Emir Sader,
A Vingança da História, 2003, pg168
A crônica, a história e a crítica
José Luis Fiori*

m tempos de mudança e de
invenção histórica, a dificuldade teórica de entender
a novidade, junto com a angústia de
conviver com a incerteza, parece que estimulam a multiplicação
das teses apocalípticas. Mas existem intelectuais que fazem interpretações
menos grandiosas e que procuram atuar, nesses momentos, como estimuladores da
reflexão e da busca de alternativas. É o caso de Emir Sader, que
acaba de publicar
A Vingança da História1 , onde faz um balanço
crítico das idéias, políticas e derrotas da esquerda nas últimas
décadas. Por isso, revisita vários momentos e situações
críticas da história do continente, recua até o início
do século XX e depois retorna e faz a crônica da queda de Salvador
Allende e das décadas da hegemonia neoliberal, chegando até à vitória
de Lula e de vários outros presidentes eleitos recentemente, pela rejeição
ao neo-liberalismo que se espalhou como uma onda, por toda América Latina.
Mas é na hora em que desembarca na conjuntura brasileira que Emir Sader
apresenta o tema de maior atualidade e complexidade de todo o seu livro: a questão
da fragilidade intelectual ou teórica do principal partido de esquerda
da América Latina, o Partido dos Trabalhadores. Segundo Emir, nestas duas últimas
décadas, “o PT e a prática teórica da intelectualidade
crítica caminharam por vertentes paralelas, olhando-se, mas definindo
cada um seus próprios caminhos..[e por isto], nos vinte anos de existência,
em que se projetou como a principal força política e partidária
no país, com uma impressionante trajetória, o Partido dos Trabalhadores
não chegou a construir sua própria teoria e, assim ... chegou ao
governo sem contar com uma teoria de saída do neoliberalismo e sem contar
com uma produção teórica que possibilite construir uma sociedade
pós-neoliberal”( pag. 16 e 17).
Trata-se de um problema complicado e que pode ter conseqüências de
longo prazo, mas não é um problema recente nem exclusivo do PT
brasileiro. Na verdade, envolve uma pergunta que atravessa a história
dos movimentos socialistas e da esquerda mundial sobre o que vem a ser exatamente
uma “gestão esquerdista” ou socialista do capitalismo? Nunca
houve consenso sobre este ponto e várias foram as respostas dadas pelos
governos de esquerda, através do Século XX. A primeira veio dos
social-democratas europeus que participaram de governos de coalizão, nas
décadas de 1920-1930, e enfrentaram as crises inflacionárias do
período, quase invariavelmente, através de políticas ortodoxas
e monetaristas de estabilização, com resultados extremamente desfavoráveis
do ponto de vista econômico e político, como foi o caso exemplar
de Hilferding na Alemanha de 1928. Uma segunda resposta foi dada pelos social-democratas
suecos que “inventaram”, na década de 1930, as políticas “keynesianas” e
de bem-estar social. Mas a terceira só apareceu depois da II Guerra Mundial,
apesar de assentar-se numa idéia e numa convicção mais antigas:
o conceito de “capitalismo organizado”, proposto por Hilferding,
em 1927, e a convicção de que uma economia capitalista poderia
ser “influenciada conscientemente pela sociedade”, através
do seu planejamento democrático, estatal e de longo prazo. Uma “idéia-força” que
esteve presente, durante toda a “era de ouro do capitalismo”, inclusive
na maioria dos governos conservadores que reconstruíram a Europa e comandaram
as experiências desenvolvimentistas ou nacional-desenvolvimentistas dos
países mais atrasados. O último capítulo desta história
foi escrito pelo governo de Salvador Allende e encerrado com o bombardeio do
Palácio de la Moneda, no dia 11 de setembro de 1973. O governo Mitterand
ainda tentou ressuscitá-la, no início da década de 1980,
mas acabou seguindo o caminho da quarta resposta, trilhado pelos demais partidos
e governos socialistas europeus que abandonaram o projeto do “capitalismo
organizado” e as políticas de planejamento estratégico, em
troca de um programa neo-liberal de gestão do capitalismo. Depois disto,
ganhou força – sobretudo dentro dos movimentos sociais – a
crítica aos partidos de esquerda que ainda lutam pela conquista dos estados
nacionais porque acreditam na possibilidade de uma gestão socialista ou
progressista
do capitalismo.
É
interessante observar que o Partido dos Trabalhadores nasceu e cresceu exatamente
neste período da história que começa com a derrota socialista
de 1973. E começou a governar, trinta anos depois, na hora do desencanto
com o neo-liberalismo, mas também na hora em que adquiriram enorme força
entre os militantes da esquerda as teses “pós-modernas” ou “pós-capitalistas”.
Não é de estranhar, portanto, a existência, dentro do PT,
de grupos com posições ideológicas e propostas políticas
totalmente contraditórias; tampouco, o “vazio teórico” ou “a
inexistência de uma modelo hegemônico alternativo” ao neo-liberalismo,
porque o problema do pós-neoliberalismo não é apenas uma
questão do PT, nem uma questão latino-americana. Para decifrar
este enigma, será necessário avançar a análise e
a discussão do capitalismo e da ordem mundial, depois da globalização
financeira dos anos 80/90, e do fim do cinturão bi-polar que amarrava,
até 1991, os quase 200 estados que hoje compõem o sistema político
mundial. Neste campo, por exemplo, já é hora de discutir, de forma
mais séria, as teses de Antonio Negri e de tantos outros marxistas, que
interpretam o processo da globalização de forma completamente despolitizada,
como uma obra universalista do “capital em geral”, concluindo equivocadamente
que já chegou a hora pós-nacional do internacionalismo das “multidões”.
Não conseguem ver ou admitir que cada nova onda globalizante é sempre
o resultado da expansão de um estado e de uma economia nacional, que conseguiram
expandir ou impor ao mundo sua moeda, sua dívida pública, seu sistema
tributário e seu capital financeiro. E só houve dois estados que
conseguiram esta façanha, a Inglaterra e os Estados Unidos. Da mesma maneira,
está na hora de discutir a tese de Immanuel Wallerstein e de tantos outros
que prevêem o fim imediato ou a irrelevância dos estados nacionais,
desconhecendo ou desqualificando o fato de que a luta dos trabalhadores, dos
pobres e dos excluídos, segue e seguirá se dando, por muito tempo,
dentro das suas fronteiras, onde se geram e acumulam os recursos capazes de alterar
a distribuição da renda, da riqueza e da correlação
de poder entre as classes.
Por fim, para discutir com a vertente oposta à da “esquerda pós-capitalista”,
pode ser útil examinar a hipótese de que o governo Lula queira
colocar, no lugar vazio do “pós-neoliberalismo”, um projeto
de retomada e redefinição da trilha “nacional-desenvolvimentista”,
sem o autoritarismo político e anti-social que marcou a maior parte da
história brasileira. Esta parece ser a auto-imagem que se faz o governo
e, para desqualificá-la, não basta acusar a sua política
macroeconômica de ortodoxa e conservadora. Neste caso, o governo poderia
responder que este foi o mesmo figurino seguido por quase todos os governos desenvolvimentistas
brasileiros, desde o Segundo Vargas, que patrocinava ao mesmo tempo o nacionalismo
de sua Assessoria Econômica e o conservadorismo ortodoxo do seu Ministério
da Fazenda, até o caso paradigmático da dupla Simonsen-Veloso,
no governo Geisel, para não falar do governo JK. Mas o que esta administração
não pode esquecer é que todos estes governos, nos momentos decisivos,
pressionados por circunstâncias e pressões internas e externas,
optaram pela sua “face” desenvolvimentista, e por isto o Brasil cresceu
mais do que nunca durante estas décadas. É verdade que foi numa época
de hegemonia mundial das idéias keynesianas e de apoio norte-americano
aos “desenvolvimentos nacionais” e às “finanças
administradas”, o que deu espaço à formulação
de políticas econômicas mais autônomas. Além disto,
na sua maioria, foram governos conservadores que não viveram com medo
de assustar os próprios conservadores, um problema atávico dos
governos de esquerda ou de centro-esquerda. De qualquer maneira, se esta for
de fato a opção do governo atual, urge que se esclareça
o que possa ser (se é que pode ser) o “desenvolvimento” e,
ainda mais, o “desenvolvimentismo socialmente inclusivo” numa economia
aberta, desregulada e endividada, e numa sociedade cujas elites econômicas
(e uma parte importante da base de apoio do próprio governo) não
toleram nenhum tipo de política ou decisão que tenha algum cheiro,
ainda que longínquo, de neo-mercantilismo.
1 Sader, E., “A Vingança da História”, Editora Bomtempo,
São Paulo, 2003
*Cientista Político