Os filmes já não são vistos como antigamente.
A acessibilidade
oportunizada pelas mídias digitais e a internet está
modificando as práticas de assistência. Há menos
de três
décadas, ver filmes era um programa familiar, hoje transformado
num exercício solitário. A palavra espectador foi
substituída por usuário e a tela grande da sala de
cinema
trocada pela tela do computador ou dos pequenos Ipods e
seus genéricos. Essas mudanças tecnológicas
experimentadas
no dia-a-dia têm reflexos sobre o imaginário e a
sensibilidade das novas gerações.
Por Fatimarlei Lunardeli

mercado
cinematográfico
portoalegrense foi dinamizado no último mês
com a novidade do 3D, sistema de projeção
que simula a terceira dimensão, dando
ao espectador a sensação de fazer parte da ação
do filme. O mecanismo que já existia desde os
anos 50 foi melhorado com a tecnologia digital.
Os custos envolvidos são altíssimos, mas não
há outra saída para a indústria do cinema
frente à
evasão de público das salas exibidoras. É um
fenômeno que afeta as cinematografias no
mundo inteiro, para o qual a indústria do cinema
responde com a sofisticação dos efeitos
especiais.
A preocupação é pertinente, pois cada vez
mais os espectadores migram para formas alternativas
de ver filmes, oportunizadas pelo desenvolvimento
tecnológico. Basta ter um aparelho
de DVD ou acesso à internet com banda
larga para ver em casa aquilo que o circuito
cinematográfico não oferece. Ou que oferece,
mas que as novas gerações, formadas na prática
de interferir no espetáculo através de dispositivos
como o videogame, preferem assistir
em casa. É comum entre os adolescentes baixar
pela internet cópias piratas dos filmes em
cartaz e assistir apenas partes que interessam.
A integridade da obra artística, dentro da
idéia clássica de autoria, é um conceito impossível
neste cenário. “Quanto menor o esforço
para ter acesso,
maior o desrespeito à obra”, salienta
o especialista
Roberto
Tietzmann, professor
no Curso de Produção
Audiovisual da
PUCRS. Ele identifica
entre seus alunos
a geração formada no
ambiente digital. “São aquelas crianças que
estavam
entrando na escola em torno de 1995,
quando começou a expansão da internet”.
Tietzmann aponta três conceitos dominantes em
relação aos conteúdos na rede: qualquer coisa
pode ser baixada, tem que ser rápido de achar e
pode-se manipular.
Por outro lado, para quem faz cinema, a
tecnologia digital trouxe uma facilidade nunca
antes experimentada. É o caso exemplar
do filme 3Efes, do diretor Carlos Gerbase, da
Casa de Cinema de Porto Alegre. Realizado
em digital no ano passado, o filme foi lançado
ao mesmo tempo nas salas de cinema,
comercializado em DVD, disponibilizado na
internet, exibido na televisão em sinal aberto
(TVCOM) e a cabo (Canal Brasil). Os números
são reveladores. No cinema, durante
uma semana, em seis salas, foi visto por 1.290
espectadores. Já na web, disponível no Portal
Terra, foi solicitado por 109.300
internautas.
Escolher como assistir é a marca dos novos
tempos. Por isso, para sair de casa, pagar
ingresso e ficar 2 horas vendo um filme é
preciso um bom motivo. A sensação quase
física de fazer parte é a promessa do 3D,
destinado aos jovens, faixa dominante de
consumidores da indústria cinematográfica. É
assim que filmes como a aventura Viagem
ao centro da terra, concebido e realizado com
essa nova tecnologia de efeitos especiais, só podem ser plenamente apreciados num único
local: a antiga sala de cinema. Em setembro,
os cinéfilos adeptos do cinema em 3D
puderam assistir a esse clássico na inauguração
do Unibanco ArtPlex, primeira sala do
gênero em Porto Alegre.
Grandes conteúdos para pequenas dimensões
Além de estabelecer padrões
de conduta entre as novas gerações,
a tecnologia altera antigos
hábitos. Em lugar de ler um livro
antes de dormir, o professor de cinema
Roberto Tietzmann, já deitado
na cama, assiste num iPod
filmes que baixou da internet, a
um palmo de distância dos olhos.
O equipamento surgiu como um
tocador de música ao qual foi
agregada uma tela para também
exibir conteúdos visuais.
Já são produzidos filmetes para
essas pequenas telas, mas a maioria
do conteúdo ainda vem da
internet. A rede permite que “as
pessoas saciem sua curiosidade”,
afirma o especialista, enfatizando
a formação das comunidades de
aficionados. São pessoas que traduzem
e disponibilizam os programas
ou filmes que mais gostam.
Desenhos japoneses são um exemplo.
Basta surgir uma animação
nova que os fãs traduzem e passam
adiante. A qualidade da imagem
ainda deixa a desejar. “DVDs
comercializados por distribuidoras
têm mais controle, mas a rapidez
do acesso se sobrepõe”.
Entusiasta dos dispositivos
tecnológicos de imagem em movimento,
Tietzmann andou se
deliciando com programas de 30
minutos sobre a arte das
iluminuras na Idade Média, produzidos
pela BBC. Para as
telinhas os conteúdos não podem
ser extensos. O reflexo é o crescimento
das séries, produtos
audiovisuais versáteis, que transitam
com facilidade entre as várias
mídias.
Toda essa acessibilidade, no
entanto, tem impacto sobre a sensibilidade
contemporânea. Pesquisas
indicam que a atenção na
internet, cuja assistência é de natureza
casual e não-motivada,
dura no máximo 3 minutos e meio.
O resultado é uma atenção cada
vez mais fugaz. Em relação a tudo
na vida.
| Os
novos rituais domésticos |
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Sábado é um dia
que o advogado Marco Antonio
Bezerra Campos aguarda com expectativa.
Instalado numa poltrona confortável ele assiste
até três filmes, projetados por um equipamento
multimídia numa tela
de 94 polegadas. É o
home theater, o cinema
em casa que simula as
condições de uma sala
convencional. Sozinho
ou acompanhado pela
esposa ou amigos, vê filmes
que nunca teve oportunidade de ver
no cinema, agora disponíveis
em DVD.
Campos não chega
ao exagero de personalizar
como fazem
cinéfilos que agregam
tapete vermelho, cartazes,
pipoca e até um
teaser, pequeno filmete
de abertura da sessão. Mesmo assim, a escolha
do
apartamento foi definida pela possibilidade de se
instalar um telão. Essa sofisticação
tecnológica tem
produzido mudanças de hábito. “Os
homens passaram
a se interessar mais pela casa”, afirma o advogado,
ao perceber em colegas uma preocupação
que não havia sobre o melhor lugar para instalar
a
televisão ou as caixas de som.
Mesmo tendo excelentes condições de assistência
em casa, vai ao cinema
pelo menos
duas vezes por semana.
Assiste as estréias
e não responsabiliza
as novas tecnologias
pelo afastamento
do público.
Em sua opinião, a violência
nos centros
urbanos é o principal
fator que mantém as
pessoas em casa.
Para Campos, a
sala convencional é insuperável.
Viajando
em função do
trabalho, em todas
as cidades por ande
passa, vai assistir filmes. Nos Estados Unidos, foi
aos cinemas imax, cujas telas podem alcançar
até 30 metros de altura.
Em casa ou nas salas exibidoras, ele não tem dúvida: “quanto
maior,
melhor”.
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| Experiência
coletiva é insubstituível |
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Ainda existem pessoas que
escolhem assistir filmes da maneira
convencional, em grupo,
na sala escura iluminada apenas
pela tela grande. São os
cineclubistas, integrantes do
movimento que valorizou o cinema
como arte e cultura no início
do século 20. O caso mais
emblemático é do vigoroso Clube
de Cinema de Porto Alegre,
com 60 anos de atividade
ininterrupta e fiel à experiência
da assistência coletiva.
Desde a fundação, em 1948,
são realizadas sessões semanais
nas salas de cinema da cidade,
exibindo filmes aos sábados e
domingos, que agora ganham o
reforço do acervo em DVD. “É uma
maravilha”, entusiasma-se
o presidente Hiron Goidanich,
o conhecido crítico Goida, que
aos 73 anos mantém intacto o
entusiasmo de cinéfilo formado
nas salas escuras. Não adiantou
ter sido presenteado com um
aparelho de DVD. Nunca ligou,
pois se recusa a ver filmes na
telinha. Os cineclubistas só assistem
na tela grande, nas salas
equipadas com o dispositivo.
Para o aniversário de 60 anos
exibiu-se o musical Cantando na
chuva, de 1952, e um ciclo de
grandes clássicos marca a
programação festiva até o final
do ano. Além das sessões
no circuito, uma vez por mês
são realizados encontros na
Sociedade Germânia, onde se
reconstitui a ambientação de
uma sessão convencional, escura,
com tela grande iluminada
pela projeção, e a assistência
em silêncio, atenta ao
espetáculo.
A internet e as novas
tecnologias revigoraram o
cineclubismo, que em 2008
completa 80 anos no Brasil.
Depois de uma crise na década
de 80, o movimento renasceu
das cinzas pela acessibilidade
aos filmes, criando
novas comunidades de espectadores
identificados na
paixão pelo cinema.
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