Crianças que fazem parte
O contraste do verde dos campos ao redor do Circo da Cultura
com o azul do céu límpido ganhou um colorido a mais nas
manhãs frias (temperatura em torno de 5o C) da segunda Jornadinha
Nacional de Literatura, em Passo Fundo. Milhares de crianças
batendo o queixo faziam fila, desde cedo, para conhecer de perto
e conversar com escritores como Mauricio de Souza, Ângela
Lago, Sérgio Caparelli, Gláucia de Souza e Eva Furnari,
entre outros. Durante quatro dias (de 27 a 30 de agosto), mais
de 14 mil crianças participaram do evento. Eram alunos de
cerca de 100 escolas da região de Passo Fundo, de Porto
Alegre e de cidades catarinenses, como Chapecó, Joaçaba
e Concórdia. O número de participantes surpreendeu
até mesmo os organizadores. Há dois anos, na primeira
Jornadinha, compareceram seis mil crianças. Não custa
lembrar que, este ano, o público adulto da Jornada foi de
quatro mil pessoas. O tema da 2ª Jornadinha Vozes do Terceiro
Milênio: A Arte da Inclusão – esteve presente
em todos os debates, além de ser colocado em prática
com a participação de estudantes de escolas de bairros
nobres de Porto Alegre, como o Colégio Americano, ou da
periferia de Passo Fundo, como a Escola Municipal Profa Helena
Salton. Participaram deficientes físicos, como paraplégicos,
cegos e surdos, além de etnias excluídas como cerca
de 50 crianças caingangs, com idade entre oito e 13 anos,
da reserva de Serrinha, próximo ao município de Ronda
Alta.
Paulo César Teixeira
Homenageado na segunda Jornadinha, por seus 30 anos de criação
literária, o escritor mineiro Bernardo Campos Queirós
destacou o que considera a principal virtude do encontro: “O
ponto positivo foi não subestimar a capacidade de compreensão
das crianças, que compartilharam o mesmo espaço da
Jornada de gente grande. Participo de inúmeros eventos de
literatura no país e não conheço outro igual,
que acolha o público jovem e permita a convivência
harmoniosa com os leitores adultos.”
| Foto:
René Cabrales |
|
Segunda
Jornadinha Nacional de Literatura
teve número recorde
de participantes |
Cerca de 11 mil crianças que estiveram em Passo Fundo participaram
antes da Pré-Jornadinha, realizando atividades de preparação
para o evento. Leram as obras dos autores que estariam presentes
na Jornadinha e desenvolveram projetos de teatro, poesia e ilustrações
inspirados nos livros indicados. A partir de agora, elas estarão
envolvidas na Pós-Jornadinha, quando os projetos realizados
em sala de aula serão avaliados pelo Mundo da Leitura – espaço
de recreação de atividades educacionais reservado às
crianças na UPF. Desta forma, o ciclo se completará.
Para a professora Tânia Rösing, da UPF, coordenadora
geral da Jornada e da Jornadinha de Literatura, o tema da inclusão
social não deve ser esquecido com o encerramento do encontro.
Ela entende que cabe às autoridades de Educação
aperfeiçoarem a formação profissional dos
agentes culturais envolvidos na tarefa de criação
de novos leitores. “Só assim encontros importantes
como a Jornadinha produzirão um efeito prolongado. É preciso
que haja vontade política. É chegada a hora da ação,
porque de discursos já estamos lotados!”, conclui
a coordenadora.
O leitor, o escritor e o espetáculo

Com um
casaco fechado até o pescoço, Franciela
dos Santos, de 12 anos – aluna da 5a série do I grau
da Escola Municipal de Ensino Fundamental João Corso, de
Serafina Corrêa –, mal podia esperar a hora de conversar
com os autores das obras que estudou na sala de aula. “É a
primeira vez que a gente encontra um escritor de verdade”,
dizia Franciela. Para quem não sabe, a menina não
apenas tem o hábito da leitura, como já arrisca os
primeiros passos na literatura. “Em casa, escrevo poesias
e invento histórias que falam da amizade entre as pessoas.”

O escritor gaúcho Sérgio Caparelli conta que as
crianças de até sete anos de idade estão mais
interessadas em conhecer pessoalmente os autores do que discutir
o conteúdo dos livros. Lembra de um menino que arregalou
os olhos ao ser apresentado a ele: “Você escreve livros?
Puxa, pensei que tivesse morrido.” A imagem do escritor é ainda
muito distante para os pequenos, que ficam surpresos quando se
deparam com um autor de carne e osso. “As crianças
maiores, a partir da 4a série do Ensino Fundamental, estão
mais atentas ao processo de produção da obra. Querem
saber de onde tiro as idéias, como é feita a capa
do livro, se os personagens existiram de verdade ou foram inventados.”

Durante
a segunda Jornadinha, as crianças assistiram a
espetáculos como a peça de teatro A Família
Sujo, do grupo Cuidado Que Mancha, de Porto Alegre, e o show As
Noites da Minha Aldeia, do Grupo Internacional de Contos Populares
de Angola. Havia espaço ainda para a ciberpoesia (monitorada
por Caparelli), que consiste num jogo virtual em que o poema se
realiza a partir da interferência do leitor. Graças
a um programa de computador, a criança ajuda uma serpente
a abocanhar a presa, que pode ser coelho, pássaro ou cobra.
Cada vez que a cobra atinge o objetivo, surge um verso ou uma estrofe.
O poema inteiro só surge quando todas as presas são
dominadas. Depois de participar do jogo, a garotada era convidada
a discutir as formas de ampliar o acesso da população à poesia
virtual.
O Sinpro/RS
na Jornada
O Sinpro/RS foi apoiador e entidade participante da 10ª Jornada
Nacional de Literatura. A exemplo dos anos anteriores, o jornal
Extra Classe circulou em edição diária especial,
sempre contribuindo para o debate e antecipando temas que fariam
parte das mesas. Além disso, pelo segundo ano consecutivo,
houve a publicação do “Extrinha”, em
três edições para abranger três faixas
etárias distintas do ensino fundamental e médio.
Os jornais estarão disponíveis para download em www.sinprors.org.br.
No estande do sindicato, sob coordenação da 1ª Delegacia
Regional, foram realizadas várias atividades culturais além
de exposições permanentes de livros publicados por
professores do ensino privado, CDs e trabalhos de pintura em tela.
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Reescrevendo
a realidade
Morin
e sua experiência de leitor
A
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