Ano 8 - nº 75
Setembro 2003



Luis Fernando Verissimo:
Ironia do destino. Os americanos apoiaram o Saddam Hussein durante anos porque o governo secular do Iraque era uma alternativa à teocracia antiamericana no poder no Irã. Saddam já era um tirano, mas...



Nei Lisboa:
Ninguém perguntou mas vou dizer, meu Scliar favorito é o cronista da Folha de S. Paulo, onde se dedica a converter para a ficção matérias publicadas no próprio jornal. Na última que li, só pra dar um exemplo, constrói uma divertida...



Elisa Lucinda:

Não conheço o amor abstrato. Conheço o amor pelo outro, pela pátria e pelo futuro, pela vida, pela obra. Defender a dignidade do homem é, no mínimo, uma conexão ideológica, uma composição ecológica, uma convicção. Não entendo a...





Crianças que fazem parte

O contraste do verde dos campos ao redor do Circo da Cultura com o azul do céu límpido ganhou um colorido a mais nas manhãs frias (temperatura em torno de 5o C) da segunda Jornadinha Nacional de Literatura, em Passo Fundo. Milhares de crianças batendo o queixo faziam fila, desde cedo, para conhecer de perto e conversar com escritores como Mauricio de Souza, Ângela Lago, Sérgio Caparelli, Gláucia de Souza e Eva Furnari, entre outros. Durante quatro dias (de 27 a 30 de agosto), mais de 14 mil crianças participaram do evento. Eram alunos de cerca de 100 escolas da região de Passo Fundo, de Porto Alegre e de cidades catarinenses, como Chapecó, Joaçaba e Concórdia. O número de participantes surpreendeu até mesmo os organizadores. Há dois anos, na primeira Jornadinha, compareceram seis mil crianças. Não custa lembrar que, este ano, o público adulto da Jornada foi de quatro mil pessoas. O tema da 2ª Jornadinha Vozes do Terceiro Milênio: A Arte da Inclusão – esteve presente em todos os debates, além de ser colocado em prática com a participação de estudantes de escolas de bairros nobres de Porto Alegre, como o Colégio Americano, ou da periferia de Passo Fundo, como a Escola Municipal Profa Helena Salton. Participaram deficientes físicos, como paraplégicos, cegos e surdos, além de etnias excluídas como cerca de 50 crianças caingangs, com idade entre oito e 13 anos, da reserva de Serrinha, próximo ao município de Ronda Alta.

Paulo César Teixeira

Homenageado na segunda Jornadinha, por seus 30 anos de criação literária, o escritor mineiro Bernardo Campos Queirós destacou o que considera a principal virtude do encontro: “O ponto positivo foi não subestimar a capacidade de compreensão das crianças, que compartilharam o mesmo espaço da Jornada de gente grande. Participo de inúmeros eventos de literatura no país e não conheço outro igual, que acolha o público jovem e permita a convivência harmoniosa com os leitores adultos.”

       Foto: René Cabrales
Segunda Jornadinha Nacional de Literatura
teve número recorde de participantes

Cerca de 11 mil crianças que estiveram em Passo Fundo participaram antes da Pré-Jornadinha, realizando atividades de preparação para o evento. Leram as obras dos autores que estariam presentes na Jornadinha e desenvolveram projetos de teatro, poesia e ilustrações inspirados nos livros indicados. A partir de agora, elas estarão envolvidas na Pós-Jornadinha, quando os projetos realizados em sala de aula serão avaliados pelo Mundo da Leitura – espaço de recreação de atividades educacionais reservado às crianças na UPF. Desta forma, o ciclo se completará.

Para a professora Tânia Rösing, da UPF, coordenadora geral da Jornada e da Jornadinha de Literatura, o tema da inclusão social não deve ser esquecido com o encerramento do encontro. Ela entende que cabe às autoridades de Educação aperfeiçoarem a formação profissional dos agentes culturais envolvidos na tarefa de criação de novos leitores. “Só assim encontros importantes como a Jornadinha produzirão um efeito prolongado. É preciso que haja vontade política. É chegada a hora da ação, porque de discursos já estamos lotados!”, conclui a coordenadora.

O leitor, o escritor e o espetáculo

Com um casaco fechado até o pescoço, Franciela dos Santos, de 12 anos – aluna da 5a série do I grau da Escola Municipal de Ensino Fundamental João Corso, de Serafina Corrêa –, mal podia esperar a hora de conversar com os autores das obras que estudou na sala de aula. “É a primeira vez que a gente encontra um escritor de verdade”, dizia Franciela. Para quem não sabe, a menina não apenas tem o hábito da leitura, como já arrisca os primeiros passos na literatura. “Em casa, escrevo poesias e invento histórias que falam da amizade entre as pessoas.”

O escritor gaúcho Sérgio Caparelli conta que as crianças de até sete anos de idade estão mais interessadas em conhecer pessoalmente os autores do que discutir o conteúdo dos livros. Lembra de um menino que arregalou os olhos ao ser apresentado a ele: “Você escreve livros? Puxa, pensei que tivesse morrido.” A imagem do escritor é ainda muito distante para os pequenos, que ficam surpresos quando se deparam com um autor de carne e osso. “As crianças maiores, a partir da 4a série do Ensino Fundamental, estão mais atentas ao processo de produção da obra. Querem saber de onde tiro as idéias, como é feita a capa do livro, se os personagens existiram de verdade ou foram inventados.”

Durante a segunda Jornadinha, as crianças assistiram a espetáculos como a peça de teatro A Família Sujo, do grupo Cuidado Que Mancha, de Porto Alegre, e o show As Noites da Minha Aldeia, do Grupo Internacional de Contos Populares de Angola. Havia espaço ainda para a ciberpoesia (monitorada por Caparelli), que consiste num jogo virtual em que o poema se realiza a partir da interferência do leitor. Graças a um programa de computador, a criança ajuda uma serpente a abocanhar a presa, que pode ser coelho, pássaro ou cobra. Cada vez que a cobra atinge o objetivo, surge um verso ou uma estrofe. O poema inteiro só surge quando todas as presas são dominadas. Depois de participar do jogo, a garotada era convidada a discutir as formas de ampliar o acesso da população à poesia virtual.

O Sinpro/RS na Jornada

O Sinpro/RS foi apoiador e entidade participante da 10ª Jornada Nacional de Literatura. A exemplo dos anos anteriores, o jornal Extra Classe circulou em edição diária especial, sempre contribuindo para o debate e antecipando temas que fariam parte das mesas. Além disso, pelo segundo ano consecutivo, houve a publicação do “Extrinha”, em três edições para abranger três faixas etárias distintas do ensino fundamental e médio. Os jornais estarão disponíveis para download em www.sinprors.org.br. No estande do sindicato, sob coordenação da 1ª Delegacia Regional, foram realizadas várias atividades culturais além de exposições permanentes de livros publicados por professores do ensino privado, CDs e trabalhos de pintura em tela.


  

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Morin e sua experiência de leitor
A palavra é...inclusão


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