Em busca da estabilidade
Enquanto as filas à procura de emprego aumentam, os
concursos públicos assumem para muitos o papel de uma opção
irrecusável. Mesmo que para isso sejam necessários
sacrifícios e investimentos.
Por Jacira Cabral da Silveira

egundo
dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), a taxa de desemprego no Brasil ficou estável em
agosto deste ano, repetindo os 9,4% registrados no mês anterior.
Dentro desse quadro existe um total de 2,065 milhões de
pessoas desocupadas e uma população empregada de
19,897 milhões de indivíduos. Ainda conforme o IBGE,
o rendimento médio desses trabalhadores é de R$ 973,20
indicando uma elevação de 3,7 %.
Mesmo que os levantamentos apontem dados positivos, o mercado de
trabalho no Brasil ainda sofre por falta de vagas e salários
melhores. As demissões em massa nos diferentes setores – como
o calçadista e universidades conceituadas – constituem
um outro fator que tensiona ainda mais aqueles que precisam sustentar
as famílias, começar suas carreiras, conseguir o
primeiro emprego ou retornar ao mercado de trabalho para engordar
a aposentadoria. Neste contexto, não basta mais limitar-se
a fazer fichas em agências de empregos ou deixar currículo
nas empresas. Talvez montar o próprio negócio ou
virar funcionário
público.
Estabilidade no emprego! É o sonho da maioria que recorre
aos concursos públicos. A Fundação Carlos
Chagas e a Fundação de Apoio da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (Faurgs) são duas das instituições
que mais organizam concursos preparatórios no Estado. Em
média, os salários ficam na faixa de seiscentos a
dois mil reais, isso para as funções que exigem menor
escolaridade.
Mas, quando qualquer dos tribunais, federais ou regionais, lança
concurso para provimento de cargos como o de analista ou de técnico
administrativo, a corrida é grande, pois os salários
podem passar dos cinco mil reais. Proporcional à procura,
entretanto, é a dificuldade de vencer a concorrência. É justamente
neste espaço que entram os cursos preparatórios para
concursos, onde um número, embora pequeno, crescente de
candidatos procura aumentar suas chances para garantir sua vaga.
O dia-a-dia da maratona
“É de chorar nos cantinhos!” Antônio olha
para a turma e diz pela primeira vez a frase que iria acompanhar
seus alunos na hora da prova do concurso público para o
Tribunal Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul, a realizar-se
no dia 20 de agosto, em paralelo a outros dois exames: o da OAB
e o da Receita Federal. Antônio é professor de Informática
há 14 anos e atualmente dá aula em oito dos mais
de 20 cursos preparatórios para concursos em Porto Alegre.
Atento aos sinais de cansaço dos alunos, ele esconde a própria
exaustão e procura conquistar cada um dos olhos fixos no
quadro e nos trejeitos do mestre que, além de dominar o
conteúdo, revela vocação para ator. Entretanto,
ele não é o único. Professores de outras disciplinas,
como o de Matemática e o de Direito Constitucional, adotam
estratégias para manter a atenção dos alunos
e conseguir explicar o extenso conteúdo da sua disciplina.
Bira, coordenador de um dos cursos preparatórios da Capital,
critica o curto espaço de tempo que os candidatos têm
para estudar, em média 45 dias, a contar da publicação
do edital.
Na hora do café, a maioria dos alunos aproveita para esticar
as pernas e tomar alguma coisa na cantina, no final do pequeno
corredor que separa as salas de aula e a parte administrativa do
curso. Mesmo neste momento de descanso, é preciso aproveitar
o tempo para pegar os novos exercícios que estão
no xerox, ou verificar se a professora de Português já deixou
com as meninas da recepção as redações
corrigidas. Pela primeira vez, o TRT inclui prova de texto em seu
concurso. E essa acaba sendo mais uma preocupação
entre os candidatos que especulam como o Tribunal vai conciliar
a novidade às tradicionais 60 questões a serem solucionadas
em quatro horas: “Será que eles vão aumentar
o tempo, ou diminuir o número de questões?”.
Junto ao balcão do bar, a conversa traz variações
sobre o mesmo tema, afinal de contas, durante todo o mês
de julho e primeira quinzena de agosto, eles assistem às
aulas de Matemática, Português, Informática
e Direito (Constitucional, Administrativo e do Trabalho). Denise é separada
e tem um filho de 11 anos que durante a semana fica com o pai para
que ela possa continuar estudando à noite – cerca
de duas horas por dia – quando volta para casa. Ela comenta
com uma das colegas que o fator idade – quase 40 anos – e
as recentes decepções no emprego fizeram-na decidir
pelo desafio do concurso.
Professora universitária e pós-graduada, Denise está se
preparando para uma das vagas de técnico-administrativo,
que exige a formação em Ensino Médio. Outros
da turma também têm escolaridade bem acima da prevista
para os cargos oferecidos. Uma delas é Betina, engenheira
civil, com mestrado na área e que também já foi
professora em uma das universidades na Grande Porto Alegre. Com
a viagem a trabalho do marido e o compromisso de entregar em poucos
dias um projeto de estrutura para clientes no Interior, tem sobrado
pouco tempo para estudar e até para comparecer ao curso.
Durante o dia fica envolvida com a filha pequena, na madrugada,
fazendo cálculos e preparando relatórios. Isso explica
os olhos fundos e o café forte na hora do intervalo. As
colegas se preocupam e sentem sua falta. É comum criarem-se
laços de amizade e solidariedade, mesmo que o colega esteja
disputando a mesma vaga.
De volta à sala, plagiando um comunicador conhecido, Antônio
convida a todos para mais uma hora e meia de aula: “Vem comigo!”.
No mesmo tom, ele recapitula conteúdos de outros dias e
junta com os vistos há pouco. Pede aos alunos que repitam
com ele ou respondam suas perguntas. Diferente da reação
da turma no início do curso, agora a resposta vem em coro.
Mesmo sem muita certeza, eles se arriscam, e a atividade torna
mais fácil para todos a fixação dos conteúdos.
Entretanto, especialmente na aula de Informática, há momentos
em que fica difícil abstrair e visualizar os comandos, teclado
e monitor.
Cada vez mais cursos
Daqui a alguns dias será a prova. São cerca de 60
mil inscritos para quase 700 vagas em todo o Estado. Mesmo considerando
o aumento da oferta de cursos nos últimos anos, é desproporcional
a quantidade de candidatos que podem pagar as altas inscrições,
que variam de quatrocentos a quase mil reais em alguns casos. Por
isso, uma das opções é matricular-se apenas
naquelas disciplinas consideradas mais difíceis. Deve-se
observar o perfil do curso conforme o cargo selecionado na inscrição
do candidato. Segundo Bira, o curso que ele coordena tem tradição
em preparar para concursos que exijam o Ensino Médio como
escolaridade mínima.
Nero, professor de Matemática há 25 anos, tem experiência
em escolas regulares, pré-vestibulares e de pré-concursos.
Há períodos, como agora, em que trabalha nos três
turnos, de segunda a domingo, tanto para grupos como para aulas
individuais. Dessa forma, ele é um dos que mais ocupa a
sala de reforço que faz divisa com uma das salas principais,
com capacidade para 70 alunos. Como sua agenda está sempre
lotada, é preciso passar ligeiro entre os alunos em recreio
e evitar as costumeiras perguntinhas de corredor. Quem o vê correndo
assim fica com a impressão de que o compromisso em passar é mais
dele do que dos próprios candidatos. Se não fosse
o aspecto de nordestino e a pele bronzeada, ele bem que poderia
ser confundido com o coelho de Lewis Carroll, em Alice no País
das Maravilhas: “É tarde, é tarde, é tarde,
muito tarde”. E lá se foi o Nero para mais uma aula.
Mas a maratona também ocorre entre professores de outras áreas.
Com febre e dificuldade de permanecer muito tempo em pé enquanto
dá aula de Direito Constitucional, André está em
dúvida se neste fim de semana irá a Florianópolis
dar aula em um curso para o exame da OAB durante todo o sábado
e domingo. Além da gripe e do cansaço comum em épocas
como esta, ele tem receio da chuva numa estrada tão perigosa
como a que liga o Rio Grande do Sul a Santa Catarina: “E
eu me recuso a viajar de avião, ou deixar alguém
dirigir meu carro”. Pelos seus cálculos, só no
mês de julho deu 66 aulas para mais de dois mil alunos.
Assim como Antônio, André é um dos preferidos
da turma. Ele diz que a melhor coisa do mundo é dar aula,
e que a profissão já é caso de hereditariedade
em sua família. O pai é um dos sócios de um
dos pré-vestibulares mais conhecidos da Capital, e a irmã também
da aula de Direito. Dizendo que é um dos caras que mais
entende do tema, ele faz a turma levar a mão ao peito e
repetir: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio
de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta
Constituição”. Logo depois ele profetiza: “Quem
botou a mão no peito vai passar”.
Mas quem não conseguir a vaga agora, é só seguir
estudando. Até o final do ano já há previsão
de, pelo menos, mais dois grandes concursos. Se, por um lado, para
alguns é novidade essa coisa de freqüentar um curso
preparatório, seja por falta de dinheiro ou achar que não é necessário,
tem aqueles que já começam a planejar o próximo.
Para quem não está acostumado, começa a achar
que é comum o fato de não passar e que sempre haverá uma
próxima chance. E essa é a opinião de muitos
dos profissionais envolvidos com este aparato que são os
bastidores dos concursos. Bira comenta: “Quando o pessoal
vem comprar a apostila, eu digo que não basta; é preciso
fazer o curso. Assim que eles se matriculam, eu digo que isso ainda
não basta; é preciso estudar muito em casa”.
E, quando o pessoal chegar em casa depois da última aula,
antes mesmo de organizar as derradeiras olhadelas nos conteúdos,
vai encontrar na caixa de mensagem um bilhete de incentivo enviado
pela direção do cursinho. Independente da conotação
comercial evidente para a maioria das pessoas, para quem participou
dos mais de trinta dias de aula até fica um pouco tocado.
Mas, certamente, o desejo mais íntimo é não
precisar retornar para novos cursos, nem passar outras tantas noites
sem dormir. “E aí vocês vão melhorando
o bolso”, é um dos últimos conselhos do professor
de Direito Administrativo.