MARCOS ROLIM
Menos
armas, mais inteligência
Na contramão de programas
de governo e da plataforma da maioria
dos candidatos a cargos públicos,
o jornalista Marcos Rolim, 45 anos,
afirma que o país não
precisa aumentar os investimentos em
segurança pública. Ele
entende que tudo é uma questão
de racionalizar o gasto público.
Consultor em segurança pública
e direitos humanos de instituições,
ONGs e organismos internacionais como
Unesco, Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)
e Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID), Rolim é responsável
pelo raio X dos casos de violação
dos direitos humanos no Estado, o Relatório
Azul, editado durante seus dois mandatos
de deputado estadual (e um como federal),
e é autor de Síndrome
da rainha vermelha – Policiamento
e segurança pública no
século XXI (Zahar/Oxford, 314
p., 2006), resultado de suas pesquisas
na Universidade de Oxford, na Inglaterra.
Nesta entrevista, defende estratégias
de prevenção e penas
alternativas. “Ao invés
de comprar armas, munição
e viaturas, os governos deveriam investir
na inteligência das polícias,
no diagnóstico dos crimes e
na prevenção dos delitos.”
Por Guilherme Kolling
Extra Classe – O que levou os
presídios brasileiros ao atual estágio?
Marcos Rolim – Temos um modelo de justiça penal que
aposta na repressão, o que vem produzindo um encarceramento
massivo. O Brasil mais que dobrou sua taxa de encarceramento, não
só em números absolutos, mas também em números
de presos por habitante. Fora os EUA, o Brasil é o país
que mais aumentou sua população carcerária
na última década. São mais de 350 mil presos.
Isso precipitou nas penitenciárias uma crise sem precedentes,
porque não foram criadas as vagas necessárias para
receber essa demanda altíssima.
EC – Construir novos presídios é a solução?
Rolim – Isso não tem o menor fundamento. A cada
mês entram 9 mil novos presos e saem 5 mil, o que significa
48 mil novos presos a mais por ano. Se fosse para dar conta apenas
dessa entrada, seria preciso construir, por ano, 20 presídios
com capacidade para 500 presos cada um. O custo de construção
de um presídio é de R$ 20 mil por vaga. Fora manutenção,
agentes penitenciários, alimentação. A maioria
dos presos brasileiros é de condenados à prisão
por delitos de menor potencial ofensivo. Grande massa cumpre
pena por furto e temos muitos presos que praticaram delitos como
tráfico de drogas em pequenas quantidades. São
jovens de periferia muito pobres que estão presos. Essa
entrada maciça no sistema penitenciário degradou-o
numa condição insuportável de vida nas cadeias.
EC – O
senhor defende penas diferenciadas?
Rolim – Pena privativa de liberdade apenas para aquelas
pessoas que, uma vez em liberdade, sejam uma ameaça à vida
e à integridade física dos demais. Todos os outros
delitos deveriam ser punidos com penas alternativas como a prestação
de serviços à comunidade e a pena de limitação
de fim de semana. No mundo, há mais de 50 possibilidades.
No caso de furto, por exemplo, não há sentido que
um crime que envolve a subtração de bem alheio
sem violência deva ser tratado no âmbito da legislação
penal.
EC – Como o senhor vê a questão da repressão
nos presídios?
Rolim – Governos, como o de
São Paulo, apostaram num regime de endurecimento da execução
penal, imaginando que, se tivessem um regime disciplinar mais rigoroso,
poderiam conter a formação de facções
criminosas. E aí se criou em São Paulo, em 2001,
o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), que infelizmente acabou
sendo incorporado à Lei de Execuções Penais
de 2003. Antes, a Lei de Execuções Penais permitia
uma punição administrativa máxima de 30 dias
de isolamento. O RDD permite o isolamento disciplinar de um preso
por até dois anos, o que significa não ter relações
sexuais com a companheira, não ter acesso à tevê,
rádio, nem conversar com funcionário ou com outros
presos. Até o acesso ao sol é isolado. É um
regime de produção de enlouquecimento. São
Paulo apostou nisso. E viola todos os padrões internacionais
e a Constituição brasileira, que fala em dignidade
da pena, ressocialização.
EC – Esse endurecimento contribuiu para o surgimento de
facções criminosas?
Rolim – Sem dúvida. São duas coisas: a superlotação
e a situação de endurecimento da execução
penal. Não é uma realidade de todos os Estados,
mas da maioria, com São Paulo em primeiro lugar. O RS
não adotou o RDD; as autoridades penitenciárias
daqui tiveram um mínimo de bom senso. Por conta disso,
não temos rebeliões nos presídios, que também
estão superlotados.
EC – O PCC surgiu devido ao Regime
Disciplinar Diferenciado?
Rolim – O PCC já existia e se fortaleceu com esse
regime. Suas lideranças adquiriram a única chance
de protesto, já que não havia outra forma de negociação
com o governo. Criaram pressões externas e aí se
organizou todo o sistema de apoio, de ações terroristas.
Todas as soluções aventadas insistem no mesmo argumento: é preciso
endurecer mais a execução penal. Nesse caminho,
eles vão produzir mais violência e vão colher
mais violência.
EC – A demora na liberação de presos que
já cumpriram a pena não contribui para a superlotação?
Rolim – Contribui. Não só o caso dos presos
que acabaram a pena. Há outro fenômeno significativo
que é o excesso de pessoas presas provisoriamente, sem
condenação. A jurisprudência estabelece que
o prazo limite para a prisão provisória é de
81 dias. É comum a gente encontrar acusados de delitos
de menor gravidade em prisão provisória de seis
meses, um ano. E a Defensoria Pública não dá conta,
só atua na hora do julgamento. Há uma desproporção
evidente entre o MP e a Defensoria Pública. No RS, tem
2% ou 3% do orçamento do MP. Estados como São Paulo
nem isso.
EC – A sociedade não aceita muito bem a defesa
dos direitos humanos quando se trata de presidiários...
Rolim – Sim, é o discurso tradicional no Brasil,
que convive com essa realidade inédita, de ser um país
onde os direitos humanos são desprezados. O que dá uma
dimensão do grau de incivilidade que nós construímos.
Em qualquer país civilizado do mundo, a idéia dos
direitos humanos é respeitadíssima. No Brasil não...
EC – As péssimas condições dos presídios
seriam um reflexo desse desprezo pela condição
humana do preso?
Rolim – Celas imundas, sem condições de saúde...
Isso acaba conspirando contra a segurança pública.
As cadeias não funcionam para ressocializar; pelo contrário,
transformam-se numa universidade do crime. Estamos financiando
com nossos impostos uma máquina de produção
do crime. Quanto mais o preso for tratado com respeito, quanto
mais se investir nele, menos crimes teremos. Esses caras que
entram na prisão, mais cedo ou mais tarde, vão
sair de lá. A questão é como vão
sair. As pessoas não pensam nisso.
EC – Por outro lado, há uma defesa da segurança
pública.
Rolim – Se tivéssemos uma política econômica
sem resultados, digamos que a inflação tivesse
disparado, o que as pessoas estariam pedindo? Mudança
na política econômica! Com relação à segurança
pública, quando a receita que vem sendo aplicada no Brasil
há muitas décadas dá mostras de que não
funciona, o que as pessoas pedem? Mais da mesma política!
Querem doses mais fortes do remédio que não vem
dando resultado. O desafio no Brasil é pensar em uma intervenção
do Estado que previna a ocorrência do crime e da violência.
EC – Entrar na questão
social?
Rolim – Não só política so-cial, falo
em política de prevenção em segurança
pública mesmo. Nós temos um modelo de policiamento
completamente ineficaz, corrupto, violento, que não é efetivo
no combate ao crime, e pedimos mais verbas para esse sistema. É um
problema de paradigma. É preciso pensar outra política
de segurança pública e não pedir mais para
o que não deu resultado. Os investimentos em segurança
pública são sempre para comprar arma, viatura,
material de repressão. Não se investe na inteligência
policial, em investigação, não se tem informação
compartilhada nas polícias. É uma bagunça.
Os governos deveriam começar a investir em informatização,
em inteligência, em preparação do policial.
EC – Há quem defenda uma polícia
mais repressiva...
Rolim – Às vezes, imagina-se que, se a polícia
atirar para matar, o crime vai diminuir. Uma experiência
muito concreta é a de São Paulo, que tem a Rota,
um grupo da polícia militar que não faz prisões.
Todas as pessoas que eles abordam como suspeito eles matam. No
Rio de Janeiro tem o Bope (Batalhão de Operações
Especiais) que é a mesma coisa. Incursões nas favelas à noite,
tem um suspeito, o cara morre. Ao longo dos anos, os delinqüentes
aprenderam isso. Não adianta se entregar para o Bope nem
para a Rota. Então eles não se entregam, lutam
até o final. É ele ou o policial. Com isso, aumentou
muito o número de policiais mortos em São Paulo
e no Rio. Com uma política de segurança de outra
natureza, se faz cair os indicadores de violência.
EC – A idéia é investir mais na formação
das polícias?
Rolim – A repressão é necessária,
só que deve estar subordinada a uma estratégia
de prevenção. No Brasil só temos repressão.
Aí entra a questão da eficácia da aplicação
dos recursos. Está se criando no Brasil a idéia
de que precisamos de mais dinheiro para segurança pública.
Discordo. O Brasil gasta muito em segurança pública.
No ano passado, só com os salários das polícias
estaduais, gastou R$ 18 bilhões. Se somar as despesas
com a Polícia Federal, com os guardas municipais, Ministério
Público, Judiciário esse gasto se mostra imenso.
A questão é saber onde aplicar o dinheiro. O padrão
atual de compra de viaturas, armamentos, contratação
de novos policiais não funciona. É preciso reconhecer
isso. Esse dinheiro tem que ser investido na formação
do policial, em recursos de inteligência para aumentar
a capacidade de investigação da polícia,
enfim, numa rede de informação que as polícias
não têm, por exemplo, para reprimir o crime organizado.
EC – De que forma é possível investir em
prevenção?
Rolim – Grande parte dos crimes são “de oportunidade”,
ou seja, acontecem quando há uma condição
favorável. Se há uma punição mais
efetiva, diminuem os crimes de oportunidade. Como o autor do
delito parte do princípio de que as chances de ser punido
são muito pequenas, ele aposta na impunidade. Mas a impunidade
não tem a ver com a lei penal. Agora, por exemplo, se
fala em aumentar a pena para homicídio. A máxima é de
30 anos, então vamos colocar a pena máxima para
40 anos. Mas de que adianta aumentar a pena de homicídio
se no Brasil temos menos de 10% dos homicidas identificados?
O problema da impunidade envolve a capacidade de investigação
da polícia. A gente trabalha numa Câmara Criminal.
Quando pega um processo que tem um inquérito bem feito,
pára e mostra aos colegas. Porque é uma coisa tão
rara encontrar um inquérito com prova, bem elaborado...
Os inquéritos policiais são uma piada. Levam à impunidade.
EC – Cite um exemplo de política
preventiva bem-sucedida.
Rolim – Temos o exemplo de Diadema (SP), que há seis
anos era uma das cidades mais violentas do Brasil. Uma política
específica diminuiu esse índice através
de investigação. Os pesquisadores descobriram
que cerca de 70% dos homicídios da cidade estavam vinculados
ao abuso do consumo de álcool. Eles aconteciam em até um
quarteirão no entorno de bares da periferia. Com base
nessa evidência científica, a prefeitura realizou
um processo intenso de discussão na cidade. Fizeram
mais de 300 audiências públicas em tudo quanto
foi comunidade. E construíram um projeto de lei que
manda fechar todos bares às onze da noite, o que acontece
há quatro anos. O resultado é que eles diminuíram
em 54% os homicídios nesse período, por conta
dessa medida.
EC – O senhor participa de um projeto educacional dentro
de um presídio. Como é essa experiência?
Rolim – Coordeno, pelo IPA, em Porto Alegre, um projeto
do primeiro curso universitário de Serviço Social
dentro do presídio feminino Madre Pelletier. Há uma
turma de presas e agentes penitenciários que passaram
no vestibular. O IPA não ganha um centavo do governo
estadual. Investimos recursos próprios para reformar,
criar duas salas, biblioteca, centro de informática,
para que as presas e os agentes possam ter acesso à educação
como qualquer aluno do IPA. Sou um dos professores, dou aula
lá todas as quartas-feiras à noite. E a repercussão
dentro do presídio é a melhor possível.
As pessoas vibram com o projeto do curso. Melhorou a relação
entre funcionários e presas. Isso demonstra que as universidades
brasileiras têm um potencial. Mas esse potencial tem
sido desprezado. Temos a experiência dos hospitais universitários,
que absorvem a mão-de-obra acadêmica da área
de saúde. Por que não criar presídios
administrados por universidades?